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Guerra na Síria: “Os sorrisos são cada vez mais difíceis”

15/04/2016
Enfermeira brasileira baseada na Turquia superou as dificuldades do trabalho à distância e em meio ao conflito sírio

Foto: Juan Carlos Tomasi/MSF

Quando aceitou passar três meses na Turquia com a responsabilidade de ajudar a manter um hospital da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) na Síria por meio de controle remoto*, a enfermeira brasileira Nara Duarte estava ciente do que poderia enfrentar. Em termos de trabalho, a situação se manteve sob controle, apesar da enorme quantidade de afazeres e dificuldades. Mas, emocionalmente, o encargo foi definitivamente mais árduo do que imaginava.

Nara Duarte, enfermeira brasileira de Médicos Sem Fronteiras. (Foto: MSF)“Frustração e angústia foram os meus piores sentimentos: frustração porque eu queria estar na Síria e não podia; e angústia porque havia horas em que eu não sabia se a minha equipe estava morta ou viva”, diz ela, misturando português e inglês a cada nova frase – no momento da entrevista, Nara estava de volta ao Brasil há menos de uma semana. De janeiro a março, ela ficou baseada em Kilis, no sul da Turquia, a cerca de apenas sete quilômetros do hospital de MSF Al Salamah, na Síria. Ao som de aviões, sirenes e bombas, Nara usava aplicativos e softwares de comunicação para instruir à distância a equipe síria sobre como manter o funcionamento da farmácia, do laboratório e das alas médicas do hospital. “Nós nos falávamos todos os dias, várias vezes por dia. Os profissionais sírios eram extremamente capacitados”, diz ela, acrescentando que aquele era um cenário muito diferente do que vivenciou em seu primeiro projeto com MSF na Guiné-Bissau.

No entanto, apesar da mão-de-obra qualificada, ela não era suficiente. Um dos maiores problemas era conseguir profissionais para trabalhar, segundo Nara. Desde o início da guerra, os cuidados médicos têm sido alvo de ataques, levando médicos a deixarem a Síria ou se deslocarem pelo país na tentativa de buscar segurança. “Houve um tempo em que os enfermeiros chegaram a fazer 72 horas de plantão, simplesmente porque não havia quem os substituísse, e nossos leitos estavam lotados. A mesma coisa aconteceu com os médicos; alguns ficaram uma semana inteira no hospital”, diz ela.

O hospital realizava, em média, de 100 a 120 cirurgias por mês. Na segunda semana de março deste ano, foram registradas 2.172 admissões no ambulatório e 605 na emergência, principalmente por causa da atual crise de deslocados internos. Quando ainda estava no projeto, Nara viu o hospital aumentar sua capacidade de leitos de 28 para 52 – a intensificação dos bombardeios não parava de levar mais pacientes para lá.

Em fevereiro, o alvo de um desses ataques foi uma região síria com confrontos em andamento onde moravam alguns membros da equipe do hospital Al Salamah. “Todos os nossos profissionais tiveram de se instalar em nosso hospital com suas famílias. Mais tarde, eles foram para uma área vazia, disponibilizada por um colégio, ao lado e atrás do hospital, quando MSF ofereceu apoio e itens de primeira necessidade. Eles estão morando ali até hoje. Desde então, os sorrisos são cada vez mais difíceis”, conta Nara.

Mesmo com o turbilhão de preocupações relacionadas à equipe síria do hospital Al Salamah, o projeto de MSF também precisava assistir outros milhares de vítimas da guerra, e assim o fez. Nara, junto a outros profissionais internacionais, sírios e turcos do projeto baseado na Turquia tocaram a doação de medicamentos e suprimentos para diversos hospitais na Síria – segundo a brasileira, o item mais doado foi sacos para corpos. “Demos início a campanhas de vacinação em acampamentos de deslocados internos, como o de Sijo, onde nos deparamos com cerca de 700 crianças com menos de dois anos que não haviam tomado vacina alguma”, diz Nara. Ela explica que, além do serviço de transporte oferecido por MSF, em que ônibus fazem de quatro a cinco viagens por semana para buscar pacientes, levá-los ao Al Salamah e depois trazê-los de volta, MSF enviou uma equipe de imunização de rotina para os acampamentos em vez de levar um grande número de crianças até o hospital.

Eis que, em meio à rotina abarrotada de trabalho, surge um alívio: alguns membros da equipe síria sob a supervisão de Nara passaram três dias em Kilis para o treinamento de resposta de emergência. Finalmente, suas conversas não precisaram ser interrompidas por bombardeios. “Foi um dos momentos mais emocionantes da minha vida! Eles cruzaram a fronteira e eu pude vê-los frente a frente.”

Hoje, longe há apenas alguns dias, ela não esconde a saudade – e nem eles: “Já me mandaram mensagem pedindo para eu voltar! É porque, além de enfermeira, eu virei amiga. Eles me diziam: ‘Nara, você é a única pessoa com quem eu posso conversar. Eu não posso falar para o meu amigo daqui que eu estou com medo, porque ele também está.’”

*Projeto realizado remotamente, ou seja, que funciona sem a presença de um profissional internacional no próprio local do projeto. A insegurança contínua faz com que MSF mantenha um número muito limitado de profissionais internacionais na Síria.

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