Governo do Sudão do Sul bloqueia acesso humanitário em áreas controladas pela oposição

Quase 400 mil pessoas podem ficar sem assistência médica, se Médicos Sem Fronteiras for obrigada a deixar a região

Gatluak, profissional de MSF, organiza medicamentos de acordo com a prescrição para os pacientes do hospital de MSF em Lankien, no estado de Jonglei, no Sudão do Sul. ©Nasir Ghafoor/MSF

Médicos Sem Fronteiras (MSF) denuncia as restrições ao acesso humanitário impostas pelo governo do Sudão do Sul exclusivamente em algumas áreas controladas pela oposição no estado de Jonglei. Essas medidas limitam a capacidade de MSF de fornecer assistência médica essencial às pessoas e podem ter consequências particularmente graves para crianças, gestantes e pacientes com doenças crônicas ou potencialmente fatais. 

As restrições estão em vigor desde dezembro de 2025 e afetam localidades como Lankien, Pieri e Akobo. Isso significa que todos os voos humanitários estão suspensos, dificultando ou impossibilitando a distribuição de suprimentos médicos e outros itens essenciais, bem como o envio de profissionais para onde são necessários. Em 29 de janeiro, pelo menos 23 pacientes em estado crítico em Lankien e Pieri precisavam urgentemente de encaminhamento para outros serviços de saúde, com risco imediato de morte. 

Pacientes morrerão se o governo continuar bloqueando o acesso humanitário e médico em Jonglei. 

– Abdalla Hussein, coordenador de operações de MSF no Sudão do Sul 

“Impor restrições à ajuda humanitária e impedir o acesso das pessoas aos cuidados de saúde são manobras políticas grosseiras. No fim das contas, são os civis que pagam o preço. Isso precisa parar imediatamente, pede Abdalla Hussein, coordenador de operações de MSF no Sudão do Sul. 

“É inaceitável ouvir declarações de autoridades sugerindo abertamente que a violência em massa contra civis e seu deslocamento forçado devam ser empregados. Apelamos ao governo para que aja e garanta urgentemente a proteção dos civis”, declara Hussein. 

Em decorrência das restrições, MSF foi obrigada a evacuar sua equipe de Lankien e Akobo e a reduzir os serviços médicos nessas unidades e nas de Pieri, limitando-os a atendimentos de emergência e de suporte à vida. Em 29 de janeiro, a equipe de MSF em Pieri também foi forçada a deixar a unidade, devido ao perigo iminente de conflito armado. Tivemos que dar alta à maioria dos nossos pacientes, recolher kits de emergência e fugir da cidade junto com a comunidade local. 

MSF é a única prestadora de serviços de saúde que atende cerca de 250 mil pessoas em Lankien e Pieri, e outras 112 mil em Akobo. Isso significa que quase 400 mil pessoas ficarão sem qualquer tipo de assistência médica se o governo se recusar a conceder acesso à MSF e formos obrigados a deixar a região. 

“O conflito e o deslocamento contínuos em Jonglei estão aumentando ainda mais a vulnerabilidade dos civis, criando novas e urgentes necessidades humanitárias que se somam aos já limitados serviços de saúde”, afirma Gul Badshah, coordenador de operações de MSF no Sudão do Sul. “MSF lembra a todos os grupos armados e atores políticos que compartilham a responsabilidade de proteger civis, profissionais humanitários, médicos e instalações de saúde: ataques, ameaças e interferências em atividades médicas colocam vidas em risco e devem cessar.” 

A crescente crise humanitária no Sudão do Sul exige priorização internacional urgente. As comunidades enfrentam crises sobrepostas e a resposta atual não está atendendo às crescentes necessidades em todo o país. Se MSF não conseguir reabastecer suas instalações médicas durante a estação seca – enquanto as estradas ainda estiverem acessíveis – as consequências serão ainda mais dramáticas e a crise humanitária subsequente será catastrófica. 

MSF está presente no que hoje é o Sudão do Sul desde 1983 e continua sendo uma das maiores agências médico-humanitárias do país. Atuamos em sete estados e duas áreas administrativas. Em 2025, a organização realizou mais de 830 mil consultas ambulatoriais, prestou atendimento hospitalar a mais de 93 mil pacientes, incluindo 12 mil cirurgias, examinou 107 mil crianças para detectar desnutrição e fez encaminhamentos essenciais em todo o país. O acesso humanitário contínuo e previsível é fundamental para manter os serviços que salvam vidas, e evitar a deterioração dos indicadores de saúde das comunidades no estado de Jonglei. 

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