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Ghouta Oriental: um chocante e implacável desastre com múltiplas vítimas

08/03/2018
Pelo menos 344 feridos e 71 mortos todos os dias, sete dias por semana, por duas semanas - sem parar
Ghouta Oriental: um chocante e implacável desastre com múltiplas vítimas

Foto: Robin Meldrum/MSF

Médicos Sem Fronteiras (MSF) divulgou hoje dados médicos coletados nos hospitais e clínicas que a organização médico-humanitária independente apoia no enclave de Ghouta Oriental, na Síria. Abrangendo as duas primeiras semanas da ofensiva militar, os números revelam a persistente chegada de vítimas. Num momento em que os suprimentos médicos já estão extremamente limitados, as instalações médicas são atingidas por bombas ou estilhaços, e os médicos estão completamente exaustos.

Nas duas semanas entre a noite de 18 de fevereiro e a noite de 3 de março de 2018, dados médicos revelam os números de 4.828 feridos e 1.005 mortos - 344 feridos e 71 mortos em média por dia. Esses dados foram coletados em 10 instalações médicas que MSF apoia e 10 outras instalações as quais MSF vem fornecendo doações médicas de emergência advindas de seu estoque médico remanescente dentro do enclave de Ghouta Oriental. Duas dessas instalações ainda não apresentaram os dados do dia 3 de março, então esses números são subestimados. Existem muitas outras instalações médicas em Ghouta Oriental que não são apoiadas por MSF, o que significa que o número total de mortes é muito maior.

"Os números sozinhos falam sobre o volume de mortes. Mas ainda mais reveladoras são as palavras que ouvimos dos médicos que apoiamos no terreno" afirma Meinie Nicolai, diretora geral de MSF. "Diariamente, ouvimos uma crescente sensação de desespero e aflição à medida que nossos colegas médicos atingem seus limites. Eles estão exaustos a ponto de colapsarem, tendo alguns momentos de sono sempre que possível, permanentemente com medo de serem atingidos por bombas ou estilhaços. Eles estão dando o seu melhor para manter a aparência operacional do serviço médico, mas tudo é posto esmagadoramente contra eles. A situação e o implacável descumprimento das leis de guerra pelas partes em combate estão forçando-os a fazer o impossível."

Os estoques de suprimentos médicos de MSF em Ghouta Oriental estão sendo distribuídos em meio a bombardeios quase incessantes, mas esses suprimentos estão sendo usados rapidamente pelas instalações apoiadas e alguns itens importantes, especialmente para realizar cirurgias, acabaram. Um comboio oficial de ajuda, cujo acesso à parte norte do enclave foi concedido na segunda-feira, teve itens médicos removidos pelo governo da Síria, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), coadministradora do comboio. A necessidade de um reabastecimento médico maciço, sem a remoção de itens que salvam vidas, é cada vez mais urgente a cada hora que passa.

Dos 20 hospitais e clínicas que MSF apoia, 15 foram atingidos por bombardeios ou estilhaços, com diferentes graus de dano. Isso reduz ainda mais a capacidade de fornecer cuidados médicos. Quatro dos médicos apoiados por MSF foram mortos e 20 feridos.

As necessidades médicas vão além dos pacientes feridos pela guerra. Na maioria dos bairros de Ghouta Oriental, moradores vivem em porões e abrigos subterrâneos improvisados, em condições insalubres e com água potável limitada e muitas vezes sem instalações de higiene ou saneamento. Antes da ofensiva militar ter começado em 18 de fevereiro, MSF já estava ajudando um hospital de campo no bairro de Harasta, onde aconteciam intensos bombardeios desde novembro de 2017 e 70% da população já vivia em áreas subterrâneas. Os dados médicos desse bairro mostraram claramente o aumento de infecções respiratórias, infecções dermatológicas e casos de diarreia, sendo muitas das vítimas crianças.

De acordo com as regras básicas do Direito Internacional Humanitário, MSF reitera o seu apelo urgente a todas as partes do conflito e a seus apoiadores para que:

- parem com o bombardeio para permitir uma reorganização da resposta médica;
- assegurem antes, durante e após qualquer pausa no combate que as áreas civis de ambos os lados, incluindo instalações médicas, não sejam atingidas;
- permitam o reabastecimento de medicamentos e suprimentos médicos vitais, sem que itens essenciais à vida sejam removidos dos comboios de ajuda;
- permitam a evacuação médica dos pacientes mais críticos;
- permitam que organizações médico-humanitárias independentes entrem na área para prestar assistência direta.


Notas

No início da recente escalada de combates, MSF estava fornecendo um pacote completo de apoio regular a 10 instalações de saúde em Ghouta Oriental. Desde 18 de fevereiro, MSF vem sendo cada vez mais ativa no fornecimento de doações médicas de emergência a outras instalações. Mesmo as instalações que não solicitaram o apoio de MSF durante anos pediram ajuda e MSF estava fornecendo doações de emergência para a maioria dos hospitais e clínicas na área, mesmo com seus estoques locais se esgotando rapidamente. Porém, não conseguiu fornecer alguns itens importantes para cirurgia que simplesmente não estavam disponíveis em Ghouta Oriental. Nenhum profissional de MSF está presente nas instalações apoiadas.

MSF mantém diretamente cinco instalações de saúde e três equipes de clínicas móveis no norte da Síria e tem parcerias com cinco instalações. MSF também oferece apoio à distância para cerca de 50 instalações de saúde em áreas da Síria, onde as equipes não podem estar diretamente presentes, inclusive em Ghouta Oriental. Algumas delas são regularmente apoiadas e outras recebem doações médicas de emergência em momentos de extrema necessidade.

As atividades de MSF na Síria não incluem áreas controladas pelo grupo Estado Islâmico, uma vez que nenhuma garantia de segurança e imparcialidade foi obtida de sua liderança. MSF tampouco trabalha em áreas controladas pelo governo, uma vez que os pedidos de permissão de MSF até o momento não resultaram em nenhum acesso. Para garantir independência de pressões políticas, MSF não recebe financiamento de qualquer governo para o seu trabalho na Síria.

 

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