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Gaza: uma população sitiada

14/07/2014
A média de dez bombardeios por hora faz com seja praticamente impossível a continuidade das atividades médicas regulares

A intensidade dos bombardeios da operação militar israelense “Margem Protetora” faz com que se movimentar em Gaza seja extremamente perigoso tanto para a população quanto para as equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) no local.  Até agora, os hospitais de Gaza estão conseguindo lidar com o afluxo de feridos chegando. No entanto, a nova crise está agravando um já frágil sistema de saúde, seriamente afetado pela escassez crônica e por deficiências estruturais.
 
Uma média de dez bombardeios por hora faz com seja praticamente impossível as equipes de MSF continuarem com suas atividades médicas regulares e as impede de se movimentar para avaliar as necessidades urgentes. Em apenas dois dias houve mais ataques do que nos oito dias da operação militar de “Pilar Defensivo” de 2012.

Até agora nenhuma morte foi relatada do lado de Israel. Em Gaza, as autoridades registraram mais de 80 mortes. Entre os mortos estavam 30 mulheres e crianças. Até ontem (13/07), autoridades de saúde confirmaram, ao menos, 1.232 feridos. Na noite de quinta-feira, o bombardeio de uma casa matou oito pessoas, incluindo cinco crianças.

“Nos primeiros dias, as pessoas recebiam um SMS avisando que um ataque em seus prédios estava na iminência de acontecer. Mas hoje, parece que isso não acontece mais sistematicamente”, lamenta Nicolas Palarus, coordenador do projeto de MSF em Gaza.

Na quinta-feira (10/7), 12 pacientes que vivem perto da clínica de MSF conseguiram receber seus tratamentos pós-operatórios. Mas a maior parte dos pacientes que vai regularmente à clínica mora no sul da Faixa de Gaza e nossas equipes não conseguem alcançá-los. Ontem (13/7), a clínica de MSF recebeu cinco novos casos, encaminhados pela unidade de queimados do hospital de Shifa, que recebeu nove pacientes. A capacidade para os pacientes chegarem até a clínica de MSF é muito limitada.

Muitas estruturas de saúde, incluindo o hospital Europeu, foram danificadas por bombardeios próximos. As ruas de Gaza estão completamente vazias, as pessoas deixam suas casas somente em caso de necessidades extremas.

Para o coordenador de projeto Nicolas Palarus, “com apenas cinco a oito horas de eletricidade por dia, escassez de água e dificuldade de conseguir suprimentos básicos, a população está tendo uma vida cotidiana como num estado de sítio”.

Na quinta-feira, 150 casas foram destruídas e a estrutura de abastecimento do “campo de Shati” foi danificada por um bombardeio nos arredores. As 900 pessoas que perderam seus pertences agora estão se abrigando com suas famílias e amigos.

Devido à falta de combustível, apenas 50% das ambulâncias estão circulando. MSF está em contato diário com as autoridades de saúde local e visitou dois hospitais: o Al Shifa, na cidade de Gaza e o Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza.  
 
“Antes os hospitais já sofriam com a escassez crônica de medicamentos e equipamentos. Essa crise está enfraquecendo ainda mais um já precário sistema”, afirmou Nicolas Palarus.
 
As equipes de MSF receberam autorização para doar suprimentos médicos para o hospital de Nasser. No hospital Shifa, oficiais de saúde informaram às equipes de MSF, na sexta-feira, que a situação ainda estava sob controle apesar da falta de alguns medicamentos.

Atualmente, as necessidades mais urgentes são encontradas nas salas de emergência e elas estão aumentando em unidades de terapia intensiva e salas de operação.

A fronteira de Rafah, entre a Faixa de Gaza e o Egito, abriu ocasionalmente e por razões muito específicas. Na quinta-feira, apenas 11 pacientes foram transferidos para o Egito. Outros quatro pacientes cruzaram a fronteira no sábado. Parece que apenas as pessoas que têm passaporte internacional estão autorizadas a cruzar a fronteira. Uma equipe médica com profissionais provenientes de diferentes países árabes está esperando para entrar em Gaza, sem sucesso até agora.

"É fundamental que feridos e doentes que necessitam ser evacuados possam fazê-lo através das fronteiras de Rafah e Erez e as equipes médicas e os comboios humanitários têm que ser autorizados a entrar. Esta é uma obrigação legal do Egito e de Israel e é vital para a população em Gaza", afirma Tommaso Fabbri, chefe de missão de MSF para os territórios ocupados.

MSF trabalha em Gaza há mais de dez anos. A clínica de MSF na cidade de Gaza é especializada em cuidados pós-operatórios (curativos e fisioterapia), especialmente para pacientes queimados. No hospital de Nasser, em Khan Yunis, cidade ao sul de Gaza, MSF organiza treinamento médico e paramédico para equipes que trabalham com cuidados intensivos e oferece treinamento especializado para cirurgia de mãos. MSF tem duas equipes médicas prontas para entrar em Gaza e ajudar os hospitais palestinos.

MSF é uma organização internacional de ajuda humanitária que tem o compromisso de levar cuidados de saúde aos que mais necessitam sem distinção de raça, religião ou convicção política. O principal fator que nos faz atuar ou não, em qualquer lugar, é a capacidade de resposta médica-humanitária do governo e de instituições locais. Neste caso, Israel conta com uma estrutura de saúde com qualidade, mundialmente reconhecida.Se no futuro por alguma razão a população de Israel, assim como de qualquer outro país, se encontrar numa situação que requeira a presença de MSF estaremos prontos a agir. MSF já atuava em Gaza e com o reinício da guerra nossos profissionais estão presenciando os bombardeios. A organização permanece na área, pois a população civil, acuada pela guerra, precisa de urgentes cuidados médicos.
 

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