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Gaza: "Nós tentamos lidar com os casos mais urgentes"

05/08/2014
Michele Beck, líder da equipe médica da organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), descreve a situação no principal hospital de Gaza

"Os feridos estão chegando sem parar no hospital Al Shifa, em Gaza. Eles chegam em ondas; a quantidade exata depende da intensidade do bombardeio. Muitos dos feridos têm vários ferimentos resultantes de traumas, queimaduras e estilhaços. Estamos cuidando deles junto com as equipes do Ministério da Saúde palestino. Dos pacientes do Al Shifa, eu diria que cerca de 30% são mulheres e 30% crianças. Mas é difícil dar números precisos e manter registros regulares em meio ao caos. Nossa prioridade são os cuidados médicos.

Ontem à noite, na sala de emergência, recebemos duas crianças com entre quatro e seis anos, ambas em estado grave. Elas são irmãs e estavam próximo de um lugar que fora bombardeado no campo de refugiados de Jabaliya. Quando chegaram, tinham vários ferimentos nas pernas e no rosto, fraturas e ferimentos na cabeça e no peito. Na idade delas, o peito ainda não está completamente formado e a explosão foi tão forte que danificou gravemente os pulmões. Elas ficaram na sala de operação a noite toda e hoje pudemos oferecer a elas cuidados pós-operatórios. Os ferimentos são tão graves que eu simplesmente não sei se elas sobreviverão.

Uma coisa é certa: há muitos pacientes. Tentamos lidar com os casos mais urgentes, para salvar a vida daqueles mais gravemente feridos. Nossas equipes estão trabalhando sem parar. No hospital de Al-Shifa, MSF conta com sete profissionais internacionais – cirurgiões, anestesistas e enfermeiros – que trabalham no departamento de emergência, no centro cirúrgico e na unidade de queimados, juntamente com a equipe palestina. A equipe do Ministério da Saúde palestino está fazendo um ótimo trabalho: eles têm experiência em cirurgia de guerra e sabem lidar com o grandes influxos de pessoas feridas. Um médico de MSF pode estabilizar um paciente de emergência que será operado por um cirurgião do Ministério da Saúde; ou uma pessoa ferida pode ser estabilizada pelos nossos colegas palestinos antes de ser operada por um dos nossos cirurgiões. Dividimos o que precisa ser feito para que as coisas funcionem da melhor maneira possível.”

MSF é uma organização internacional de ajuda humanitária que tem o compromisso de levar cuidados de saúde aos que mais necessitam sem distinção de raça, religião ou convicção política. O principal fator que nos faz atuar ou não, em qualquer lugar, é a capacidade de resposta médica-humanitária do governo e de instituições locais. Neste caso, Israel conta com uma estrutura de saúde com qualidade, mundialmente reconhecida.Se no futuro por alguma razão a população de Israel, assim como de qualquer outro país, se encontrar numa situação que requeira a presença de MSF estaremos prontos a agir. MSF já atuava em Gaza e com o reinício da guerra nossos profissionais estão presenciando os bombardeios. A organização permanece na área, pois a população civil, acuada pela guerra, precisa de urgentes cuidados médicos.

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