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França: medo dos migrantes do acampamento “Selva” aumenta com pressão pelo fechamento do espaço

23/09/2016
Depois de protestos realizados por moradores da cidade francesa de Calais que pedem o fechamento do acampamento conhecido como Selva, milhares de migrantes e refugiados se desesperam diante da falta de perspectivas em relação ao futuro
França: medo dos migrantes do acampamento “Selva” aumenta com pressão pelo fechamento do espaço

Foto: Mohammad Ghannam/MSF

Poucas vezes as perspectivas foram tão sombrias quanto agora para muitos dos migrantes que vivem no notório campo de refugiados conhecido como Selva, em Calais, no norte da França. Com outro inverno se aproximando, o governo francês prometeu fechar o campo de uma vez por todas. Uma outra barreira, um muro, começa a subir para impedir que migrantes e refugiados tentem chegar ao Reino Unido. Residentes da cidade portuária de Calais organizaram protestos e fizeram bloqueios nas estradas, pedindo que o campo seja destruído.

Campo ‘Selva’, na cidade de Calais, na França (Foto: Mohammad Ghannam – MSF)Apesar de a assistência no campo ter diminuído, pessoas como Abdo, um sírio de 25 anos, ainda vivem lá. “Há muitos problemas na Selva por causa da grande quantidade das pessoas que vive aqui agora. A França quer fechar o campo. Mas para onde nós iremos?”, questiona Abdo, que chegou a Calais há apenas nove dias. “Eles não podem simplesmente apertar um botão e fazer com que a gente desapareça.”

Abdo, que usa uma blusa laranja com a inscrição “I heart UK” (“Eu amo o Reino Unido”), fuma nervosamente um cigarro enquanto relembra sua fuga para a Europa. Ele fugiu da guerra no seu país em 2012 para a segurança relativa no Egito, mas, como muitos outros sírios, foi empurrado para as margens da sociedade depois que Abdel Fattah al-Sisi assumiu a presidência do país, em 2014.

Depois de desistir da vida no Egito, Abdo partiu em direção à vizinha Líbia, e se arriscou no Mediterrâneo – onde mais de 3 mil pessoas desapareceram desde o início de 2016. E, diz ele, mais pessoas estão chegando, ainda que as atitudes em relação à migração estejam mudando rapidamente na Europa.

 “Na Líbia, as pessoas literalmente fazem filas em Zuwara e Sabratha”, diz ele, referindo-se a duas cidades costeiras das quais os migrantes saem em barcos minúsculos, operados por traficantes. “Todo mundo que conheci quando estava em Zuwara queria vir para a Europa. Todos desejam estar em algum lugar na Europa. E Calais é um desses lugares.”

“As pessoas continuarão se arriscando”

Ahmad, um sudanês de 22 anos, está na Selva há apenas uma semana. Com outras 140 pessoas, ele cruzou o Mediterrâneo em um bote, e afirma que foi graças a um navio de resgate de MSF que  conseguiu sobreviver.

“Na Líbia, eu vi sudaneses, nigerianos, senegaleses, marroquinos, chadianos, bengalis, afegãos, ganenses, gambianos, eritreus e etíopes. Havia muitos homens, muitas mulheres, várias delas grávidas, e muitas crianças. Por mais perigoso que seja, as pessoas continuarão se arriscando para vir”, diz Ahmad, que usa um colar com as cores da bandeira rastafári. 

Ahmad descreve a experiência de ter sido forçado a trabalhar “como escravo” na Líbia, quase sem pagamento. “A guerra na Líbia é terrível. Não há segurança para ninguém. Qualquer um pode te matar a qualquer momento”, diz ele. “Para nós, a questão não é se o mar está agitado ou as condições que encontramos ao chegar aqui. É o quanto estamos desesperados em nossos países. É isso que nos faz embarcar.”

Dias depois de fazendeiros e caminhoneiros de Calais tomarem as ruas para pedir o fechamento imediato da Selva, mais recém-chegados aumentavam a constelação de tendas no acampamento. Há relatos de que toda noite, desde os protestos, a polícia aumentou o uso de gás lacrimogênio, tornando a vida dos que se abrigam no campo ainda mais difícil.

 “Eu era decorador de interiores, mas a guerra na Líbia ficou terrível que tive que ir embora. Lá só há vida para as pessoas que são membros de grupos armados. Eu tive sorte no mar, porque o bote em que eu estava foi resgatado por MSF”, diz Abu Eman, sudanês de 42 anos.

“As coisas estão muito ruins aqui, especialmente depois do protesto de dia 5 de setembro. Toda noite por volta das 20h30, sem nenhuma razão, a polícia lança gás lacrimogênio contra nós. Nessa hora as pessoas estão jogando futebol ou críquete, sem fazer mal a ninguém. Eu tenho medo das pessoas daqui, porque eles querem que a gente saia”, diz Abu Eman, que, assim como muitos outros, desistiu de chegar ao Reino Unido, e agora tem como objetivo ir para a Holanda.

Não há para onde fugir

A Selva ainda oferece um ponto de parada muito necessário para muitos, sendo uma espécie de área de espera para as pessoas que precisam tentar planejar os próximos passos de sua jornada longa e caótica.

Alguns migrantes aqui sentiram uma queda nos esforços da ajuda prestada por voluntários nos últimos meses.

“Muitos voluntários que vinham de toda a Europa para cá pararam de vir. Isso me deixa muito triste. Até as pessoas com quem eu fiz amizade pararam de vir. Talvez eles tenham se cansado de nós. Talvez a Selva os tenha deixado exaustos, da mesma forma que nos deixa”, especula Mubarak, um sudanês de 18 anos que chegou a Calais no ano passado.

Para alguns, como Ismail, afegão de 15 anos, não há literalmente mais nenhum lugar para onde fugir. Ele chegou a Calais nesta semana, depois de viajar por Irã, Turquia, Sérvia, Hungria, Bulgária, Áustria, Itália e França.

“Em uma floresta da Bulgária, em que eu fiquei retido por três dias, a polícia atirou em nós. A polícia turca fez o mesmo. No Irã, fui detido e torturado. Na Sérvia, fui espancado por moradores. O trajeto entre Jalalabad e Calais durou três meses”, disse Ismail, sem nenhum traço da inocência infantil, arrancada de seu olhar.  

He is desperate to reach his father in London. Though he is a British citizen, he has been unable to secure family reunion for his son, who is a minor, because like many others born in conflict-torn nations, he does not have a birth certificate.

Ele está desesperado para encontrar seu pai em Londres. Apesar de ser um cidadão britânico, o pai não pôde assegurar uma reunião familiar com seu filho, que é menor de idade, porque, assim como muitas pessoas que nascem em nações atingidas por conflitos, Ismail não tem certidão de nascimento.

“Eu não conheço nada desta vida além da tristeza. Eu não lembro de nenhum dia que tenha sido bom na minha vida”, diz ele, enquanto monta sua tenda no solo áspero da Selva.

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