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Fim da epidemia de Ebola na África Ocidental

14/01/2016
Para MSF, é preciso que o mundo aprenda lições para futuros surtos

Foto: Caitlin Ryan/MSF

Na medida em que hoje a Libéria celebra 42 dias sem qualquer novo caso de infecção por Ebola, efetivamente pondo um fim ao surto da doença na África Ocidental, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) pede à comunidade de saúde internacional que estabeleça as lições aprendidas para estar mais bem preparada para futuras epidemias similares. Além disso, MSF está dando continuidade às atividades relacionadas com o Ebola na Libéria, em Serra Leoa e na Guiné, por meio de clínicas de suporte para sobreviventes da doença.

“Hoje é um dia de celebração e alívio diante da notícia que essa epidemia finalmente terminou”, afirma Joanne Liu, presidente internacional de MSF. “Todos precisamos aprender com essa experiência para melhorar a forma como responderemos a futuras epidemias e doenças negligenciadas. Essa resposta ao Ebola não foi limitada pela falta de recursos internacionais, mas, sim, pela falta de vontade política para enviar assistência rapidamente e ajudar as comunidades. As necessidades dos pacientes e comunidades afetadas precisam permanecer no coração de qualquer resposta e estar acima de interesses políticos.”

Desde março de 2014, MSF atua no combate à epidemia de Ebola, que teve início da Guiné (Foto: Peter Casaer/MSF)“Nós devemos parabenizar todas as pessoas que contribuíram incansavelmente para colocar um fim a essa epidemia sem precedentes, na medida em que devemos também lembrar dos muitos profissionais de saúde que perderam suas vidas na frente de batalha contra o Ebola”, adiciona Brice de le Vingne, diretor de operações de MSF. “Essa epidemia devastadora eclodiu cerca de 40 anos após a primeira descoberta do Ebola, em 1976. Mesmo assim, a falta de pesquisa e desenvolvimento voltados para a doença fez com que ainda hoje, após os ensaios médicos conduzidos no final da epidemia, não se tenha tratamento efetivo. Além disso, existe a necessidade de se obter o licenciamento de uma nova vacina que foi desenvolvida.”


Desde o início da epidemia, MSF atuou nos países mais afetados – Guiné, Libéria e Serra Leoa – por meio da estruturação de centros de tratamento de ebola, além da oferta de serviços como o suporte psicológico, atividades de promoção de saúde, vigilância e rastreamento de pessoas que pudessem ter tido contato com o vírus. No pico do surto, MSF contava com cerca de 4 mil profissionais nacionais e mais de 325 internacionais para combater a doença nos três países. Um total de 10.376 pacientes foram admitidos nos centros de tratamento da organização, dos quais 5.226 corresponderam a casos confirmados de Ebola. No total, MSF dispendeu mais de 96 milhões de euros no combate à epidemia.

Diante de uma doença tão imprevisível como essa, é crucial manter a vigilância e a capacidade de resposta a novos casos na região, bem como um sistema de monitoramento e resposta rápida em bom funcionamento.
Sobreviventes de Ebola são particularmente vulneráveis, e enfrentam desafios de saúde constantes, como dores nas juntas, fadiga crônica e problemas de audição e visão. Eles também sofrem com o estigma em suas comunidades, e precisam de cuidados específicos e adaptados às suas necessidades. MSF investiu na estruturação de clínicas para sobreviventes de Ebola na Libéria, Serra Leoa e Guiné, oferecendo um pacote de cuidados integrais, incluindo cuidados psicossociais, médicos e proteção contra o estigma.

No período de pico da epidemia, MSF contava com 4 mil profissionais nacionais e 325 internacionais na luta contra o surto (Foto: Anna Surinyach/MSF)“Durante a epidemia, testemunhei como as comunidades foram destroçadas”, conta Hilde de Clerck, epidemiologista de MSF que trabalhou nos três países mais afetados. “Inicialmente, a resposta da comunidade de saúde internacional esteve realmente paralisada pelo medo. Foi uma experiência horrível termos sido deixados por nossa conta, estando, constantemente, um passo atrás da epidemia. Mas nos deu muita força ver o quão dedicados os profissionais nacionais estavam e, felizmente, outros atores internacionais eventualmente se envolveram. Para a próxima epidemia, o mundo deve estar preparado para intervir muito mais rápida e eficientemente.”

MSF respondeu à epidemia de Ebola nos três países mais afetados – Guiné, Serra Leoa e Libéria, e também atendeu casos na Nigéria, no Senegal e no Mali, além de ter atuado em uma epidemia isolada na República Democrática do Congo, em 2014. A organização continua oferecendo cuidados a sobreviventes do Ebola e populações locais por meio do desenvolvimento de novas atividades. Duas clínicas de Ebola em Serra Leoa e uma na Libéria já oferecem serviços médicos e psicológicos aos sobreviventes; também foi aberta uma clínica na Guiné. Os sistemas de saúde já fracos foram gravemente prejudicados pela epidemia e, por isso, MSF decidiu investir esforços em sua recuperação. Novos projetos de saúde materna e infantil devem ser inaugurados em diferentes cidades de Serra Leoa (Kabala, Magburaka e Kenema), e um novo hospital pediátrico já foi inaugurado em Monróvia, na Libéria. MSF continua operando um projeto de HIV em Conacri, na Guiné, em colaboração com as autoridades de saúde.