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Federação Russa: tratamento de tuberculose traz resultados promissores na Chechênia

10/11/2017
Profissional de MSF conversou com pacientes submetidos aos novos tratamentos contra a doença
Federação Russa: tratamento de tuberculose traz resultados promissores na Chechênia

Foto: Lana Abramova

Os primeiros medicamentos desenvolvidos nos últimos 50 anos representavam uma última chance para algumas das pessoas que sofrem de tuberculose ultrarresistente a medicamentos (TB-XDR) na Chechênia. Em 2015, Maria Broshova, de MSF, conversou com pacientes que haviam acabado de iniciar seus novos tratamentos com duração de dois anos. Ela os reencontrou recentemente.

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) mantém um programa de tratamento de tuberculose (TB) com o Ministério da Saúde da Chechênia desde 2004. Ao longo dos anos, o programa cobriu diferentes aspectos de TB, entre diagnósticos, tratamentos, serviços de laboratório e promoção de saúde, além de sessões de aconselhamento para a adesão ao programa e suporte psicossocial para os pacientes e seus familiares.  

O momento crucial da história desse programa aconteceu quando a bedaquilina e a delamanida, os dois mais novos medicamentos contra TB desenvolvidos em cerca de 50 anos, foram disponibilizados. Em 2014, MSF conseguiu introduzir esses medicamentos no projeto e iniciar pacientes com tuberculose ultrarresistente a medicamentos (TB-XDR) nos novos regimes de tratamento.  

Desde então, 156 pacientes admitidos em nosso programa de TB na Chechênia iniciaram regimes de tratamento contendo bedaquilina, delamanida ou uma combinação dos dois medicamentos. A maioria deles ficou sem nenhuma outra opção de tratamento e provavelmente não teria sobrevivido. Até agora, MSF atendeu pacientes com resultados muito promissores: Tamerlan, Khavani e Movsar estão entre eles.

Tamerlan, engenheiro elétrico: “O novo tratamento é muito mais fácil de tolerar”

Quando conheci Tamerlan, em 2015, ele tinha 43 anos. Ele estava visivelmente exausto. Estava sério e pensativo, mas também aberto a compartilhar seus pensamentos e experiências. Ao ouvir sua fala, era possível perceber que ele era bem instruído; ele me contou que tinha um diploma em engenharia de radiocomunicações. Tamerlan foi diagnosticado com TB na prisão, em 1998. Ele foi submetido ao tratamento no hospital da prisão. A cadeia e a guerra fazem parte da história de muitos dos nossos pacientes aqui.
“As pessoas evitam aqueles que têm TB, têm medo deles”, ele me disse. “Mas isso é errado”.
Algum tempo depois, Tamerlan teve uma recaída. Após ser diagnosticado com TB-XDR em 2015, ele começou um novo regime de tratamento – contendo bedaquilina – no programa de MSF. Ele estava nitidamente determinado a completar o tratamento, ainda que entendesse todos os desafios.
“É importante que medicamentos novos e eficazes sejam desenvolvidos e que o período de tratamento seja menor e contenha menos comprimidos”, ele disse.

Dois anos depois, nós nos encontramos no mesmo hospital, onde ele foi para fazer exames de acompanhamento. Em dois meses, ele completará seu tratamento.
“Parece que carrego essa doença comigo por 17 anos”, diz Tamerlan, que agora está empregado como engenheiro elétrico, profissão que ele ama.
“Uma vez que você se abate, não tem volta. Você deve ser tratado, tomar os medicamentos. O novo tratamento, que estou realizando há dois anos, é muito mais fácil de tolerar em comparação ao que me deram antes”.

Khavani, mãe de três crianças: “É preciso ter objetivo e paciência; fiz isso pelos meus filhos”

Para Khavani, jovem mãe de três crianças, a TB foi uma tragédia familiar, já que ela perdeu a mãe para a doença. Sua irmã e seu irmão também foram infectados, mas completaram seus tratamentos.

Khavani foi diagnosticada com TB em 2003 e teve uma recaída dez anos mais tarde, depois que seu terceiro filho nasceu. Ela foi diagnosticada com TB pré-XDR, forma da doença que é resistente aos medicamentos mais efetivos de primeira linha e a um dos dois grupos de medicamentos de segunda linha. Ela se tornou a primeira paciente na Chechênia a ser iniciada em um regime de tratamento contendo delamanida.

Eu tentei visitá-la quando ela iniciou o tratamento, mas ela estava fraca demais. Esperei alguns dias, até que os médicos me disseram que eu poderia encontrá-la.

A mulher de 24 anos, que parecia uma adolescente frágil, me disse que estava se sentindo muito melhor desde o início do novo tratamento. Ela acreditava que aquilo iria ajudá-la.

Dois anos depois, Khavani ganhou 18 quilos e parecia radiante. Ela está prestes a completar o tratamento e se prepara para uma ocasião importante: sua filha mais velha tem seis anos e vai começar a escola este ano.“Não acreditava que esse dia iria chegar”, ela diz animadamente.

Ela explica como passou pelo tratamento. “A principal questão é ter um objetivo na vida. Eu fiz isso pelos meus filhos. É muito difícil viver sem uma mãe – a minha morreu de TB”, conta ela, sem conseguir segurar as lágrimas.

“É preciso ter um objetivo e paciência. Claro que é difícil, mas você deve continuar tentando”.

Movsar, ex-profissional humanitário: “O mais importante é acreditar que você será curado”

Movsar, originário do vilarejo de Novye Atagi, distrito de Shali, foi um dos primeiros pacientes de MSF na região a passar por um tratamento com bedaquilina. Em 2010, ele foi diagnosticado com TB; em 2011, com TB multirresistente a medicamentos e, em julho de 2014, com TB-XDR.

Em agosto de 2014, ele foi iniciado em um novo regime de tratamento. Movsar também era tratado contra diabetes; MSF fornecia tiras adesivas para verificar o nível de açúcar e medicamentos.

Quando eu o conheci no hospital, em 2015, ele parecia calmo e paciente. Ele tinha um sorriso caloroso e ao mesmo tempo triste.

“Me disseram que se eu continuasse o tratamento, eu seria curado”, disse ele.

“Então tentei seguir estritamente o regime de tratamento. Tomava os medicamentos e os fluidos intravenosos. Esses medicamentos têm efeitos colaterais muito fortes. Eu tinha diabetes e problemas cardíacos, então havia uma grande combinação de doenças. No início, a bedaquilina era muito difícil de tolerar, mas depois de um mês ou dois tudo ficou bem”.

Movsar contou que os conselheiros de MSF o ajudaram muito. “Eu podia fazer todo tipo de pergunta que eles me explicariam tudo”, relata ele.

Movsar conhece MSF desde a época da guerra. No início da década de 2000, ele trabalhava para outra organização humanitária assistindo pessoas que fugiam da Chechênia para a vizinha República da Inguchétia. “Eram tempos difíceis”, ele diz. “Muitas organizações trabalhavam ali. Elas ajudavam muito, mas ainda assim era difícil – afinal, era uma guerra”.

Movsar concluiu seu tratamento com sucesso em agosto de 2016. Hoje, aos 51 anos, ele vive com sua grande família em seu vilarejo.

“Estar em casa é melhor que estar no hospital, é claro”, ele diz. E, ainda que Movsar ache que o atual tratamento para TB-XDR seja muito longo, ele acredita de forma otimista que uma solução vai ser encontrada.
“Todos os que estavam em tratamento comigo no hospital estão bem agora”, diz ele. “O mais importante é acreditar que você será curado. Muito depende de acreditar. Eles pensarão em algo para encontrar a cura para essa doença”.

A tuberculose (TB) mata cerca de 1,6 milhão de pessoas por ano e foi recentemente considerada a doença infecciosa mais letal do mundo. Ela é especialmente perigosa e difícil de tratar em suas formas resistentes a medicamentos. As formas multirresistentes e ultrarresistentes a medicamentos de TB levam um tempo significativamente maior para serem tratadas em comparação à TB comum e requerem o uso de medicamentos para TB de segunda linha, que são mais caros e têm mais efeitos colaterais que os medicamentos de primeira linha usados para formas comuns de TB. Durante anos, a falta de pesquisa e investimento em medicamentos novos e mais eficazes para a TB foi uma questão de grande preocupação entre agentes de saúde.

Os dois medicamentos mais novos estão disponíveis há cinco anos e representam uma potencial salvação para as pessoas afetadas pelas formas mais resistentes de TB. Contudo, globalmente, somente 5% das pessoas necessitadas chegou a receber esses medicamentos até o fim de 2016. Neste mês, Moscou será a cidade sede da Cúpula Mundial de Ministros da Saúde sobre a Tuberculose, na qual MSF fará um apelo aos governos para que aumentem e incrementem o acesso a diagnósticos e medicamentos de TB, incluindo os novos tratamentos contra a doença.