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“Eu só quero que minha família fique junta novamente e que nada mais aconteça"

10/07/2018
A casa de Anoud, 18 anos, e Bashra, 8 anos, foi atingida por uma bomba durante a guerra de Mossul
“Eu só quero que minha família fique junta novamente e que nada mais aconteça"

Foto: Sacha Myers

As cicatrizes no rosto de Anoud, de 18 anos, mostram apenas um pouco da dor que ela sofreu no último ano. Em 2017, a casa de sua família em Hawija, no centro do Iraque, foi atingida por uma bomba. A perda e o dano são inimagináveis. No ano passado, sua família foi separada enquanto tentava desesperadamente procurar assistência médica para curar seus ferimentos. Anoud cuida de sua irmã de 8 anos, Bushra, que recebe tratamento na unidade de cirurgia e cuidados pós-operatórios no leste de Mossul. Esta é a história de Bushra e Anoud:  

Anoud:

“Era o quinto dia do Ramadã do ano passado, quando o ataque ocorreu. Nós estávamos em nossa casa em Hawija. Até então, tínhamos jejuado por cinco dias. Estávamos sentados no jardim. Um foguete atingiu a casa dos nossos vizinhos. Corremos para ver se eles estavam bem e os trouxemos à casa do meu pai. E esse foi o momento em que nossa casa foi bombardeada. 

Perdemos uma irmã e um irmão no ataque. Ficamos todos feridos. Minha mãe perdeu a perna. Meu olho esquerdo, minha mão e minha perna foram atingidos por estilhaços. Eu também quebrei minha perna. Os olhos da minha irmã mais nova foram gravemente feridos e suas mãos foram destruídas.

Estilhaços atingiram o joelho de Bushra e sua patela foi danificada. Ela também foi atingida por estilhaços na cabeça. Eles ainda estão presos em sua cabeça e os médicos não querem tirá-los porque dizem que qualquer movimento pode ser fatal. Ela também está com estilhaços no peito, na mão e no olho e não consegue enxergar totalmente. Se ela só usar seu olho direito, ela não consegue olhar reto e precisa enxergar pelo canto esquerdo.

Eles nos levaram ao hospital de Hawija, mas não puderam nos tratar lá. Então, nos levaram a Shirqat. Eu e minha mãe ficamos aqui, mas eles não podiam tratar Bushra e minha outra irmã mais nova. Eles as encaminharam a Tikrit, mas também não puderam tratá-las. Depois foram ao hospital de Kirkuk, onde uma ONG as ajudou. 

Bushra e minha outra irmã foram levadas a Sulaymaniyah (nordeste do Iraque) para receber tratamento durante seis meses, então, nos separamos.

Agora minha mãe está no Líbano com minha irmã mais nova que está recebendo tratamento. Elas estão lá há dois meses. Eu falei com elas ontem à noite e minha mãe confirmou que minha irmã perdeu um dos olhos. Os médicos operaram as mãos dela e agora elas estão boas. Se ela tivesse ficado no Iraque, eles as teriam amputado. As duas voltarão daqui a oito dias.

Eu esqueço muito do que aconteceu. Foram eventos realmente horríveis e eu passei os primeiros seis meses quase sempre dormindo. Não me sentia eu mesma. Era como se eu estivesse sonhando acordada. Eu só acordei quando vi meus dois irmãos. Meu pai é o único que se lembra do que aconteceu e me conta sobre isso. 

Meu pai e um dos meus irmãos estão vivendo agora no acampamento de Jedaah. Meu pai teve um derrame. Ele já é velho e fica sozinho a maior parte do tempo no acampamento. A vida é realmente difícil.

Bushra continua perguntando por nossa mãe, mas não há nada que eu possa fazer sobre isso. Depois que Bushra voltou de Sulaymaniah, ela estava bem e até brincava. Mas ela não conseguia esticar sua perna ou fazer nada com ela, e então, a ferida infeccionou.

Outra ONG nos indicou essa instalação de MSF. Faz oito dias que estamos aqui. Os serviços são muito bons. Bushra passou por duas cirurgias no joelho.

Minha perna ainda dói muito para andar. Ontem de manhã, eles fizeram um raio-X dela e de todos os estilhaços em minhas mãos para ver o que eles podem fazer.

Eu só quero que minha família fique junta novamente e que nada mais aconteça.

Essa é a minha história. Eu a conto a qualquer um que converse comigo. Mesmo quando os médicos ou as organizações me atendem, eu falo sobre isso. Eu gosto de contar minha história porque alivia minha mente e minha alma. Então, quando fico estressada e triste, é isso o que eu faço.”

Bushra: 

“Eu não estou indo à escola agora. Eu nunca fui à escola. Eu vou à escola quando me curar. Eu quero aprender coisas e fazer amigos lá. Eu quero aprender a ler e escrever.

No acampamento de Jedaah, eu brinco com meus amigos. Nós brincamos e desenhamos. Eu desenho brinquedos, flores, peixes, borboletas e coisas assim.

No acampamento vamos ao jardim de infância. Eles nos trazem cadernos e nós desenhamos, colorimos e escrevemos letras neles.

No passado, era divertido estar com todos os meus irmãos e irmãs. Brincávamos com cubos e desenhávamos em um quadro branco.

Eu amo muito minha irmã porque ela cuida de mim. Eu queria que minha família pudesse estar reunida novamente, para nos curarmos, melhorarmos e vivermos juntos novamente.”

Muitos pacientes feridos durante a guerra em Mossul e em outras áreas de pós-conflito no Iraque, como Kirkur, Anbar e Salaheddin, sofrem com anos de agonia na espera por cuidados médicos. Eles geralmente passam por cirurgias rápidas perto das frentes de batalha para salvarem suas vidas, e agora, precisam de cirurgias adicionais, cuidados para administrar a dor e sessões de fisioterapia para recuperar o movimento de membros e músculos. Muitas pessoas também precisam urgentemente de cuidados de saúde mental, já que muitas vezes recordam o violento trauma do passado e tentam lidar com a perda de pessoas queridas.

Um ano se passou desde o término oficial do conflito em Mossul, mas a luta para reconstruir a cidade e a vida das pessoas está longe de acabar. Grandes extensões da cidade, principalmente a parte ocidental, ainda estão dizimadas. Minas e armadilhas continuam ameaçando casas e instalações de saúde.

Algumas pessoas que não tem outra alternativa voltaram a Mossul e agora vivem em casas danificadas, muitas vezes sem água e eletricidade. Condições precárias de higiene aumentam o risco de doenças e feridas são ocorrências regulares, já que as pessoas tentam reconstruir suas casas em condições perigosas.

Ter acesso a serviços de saúde é uma luta diária em nove dos 13 hospitais atingidos pelo conflito. A reconstrução de instalações de saúde vem sendo extremamente lenta e ainda há apenas cinco leitos para cada 10 mil habitantes; número muito abaixo dos padrões mínimos internacionais para a oferta de serviços de saúde.

Em 2017, MSF trabalhou em Mossul e em áreas próximas para oferecer serviços vitais às pessoas encurraladas pela violência. Nós mantivemos diversos postos de estabilização de trauma no leste e no oeste de Mossul e quatro hospitais que oferecerem uma grande gama de serviços, incluindo cuidados emergenciais, intensivos, maternos e cirúrgicos. Atualmente, MSF mantém uma maternidade no oeste de Mossul e uma instalação para cuidados cirúrgicos e de pós-operatório no leste da cidade.

Acompanhando o retorno das pessoas à área de Hawija, MSF abriu uma clínica em Al-Abassi para oferecer tratamento de doenças não-transmissíveis e cuidados de saúde mental. MSF reabilitou os sistemas de suprimento de água em Al-Abassi e fará a mesma coisa em Al-Shajera, onde oferecerá água potável à população estimada de 35 mil pessoas e prevenirá a difusão de doenças transmitidas pela água. MSF também abriu uma clínica de cuidados primários na cidade de Hawija, que brevemente oferecerá tratamento para doenças não-transmissíveis, serviços de saúde mental e cuidados de saúde sexual e reprodutiva. À medida que mais pessoas retornam a Hawija, MSF oferecerá serviços emergenciais no hospital da cidade.

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