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Etiópia: população rural de Tigré é fortemente atingida pelo conflito e pela negligência humanitária

07/05/2021
Muitas pessoas estão sem acesso a nenhuma assistência médica e humanitária durante a crise
Etiópia: população rural de Tigré é fortemente atingida pelo conflito e pela negligência humanitária

Foto: Igor Barbero/MSF

Grande parte dos seis milhões de habitantes de Tigré vivem em áreas montanhosas e rurais, onde são praticamente invisíveis para o mundo exterior. Embora equipes de agentes humanitários tenham sido enviadas para as principais cidades desta região do norte da Etiópia nos últimos meses, a ajuda não está chegando a comunidades mais remotas, onde o impacto do conflito costuma ser grave. Muitas pessoas não puderam obter cuidados de saúde e outros serviços básicos nos últimos seis meses e ainda vivem com medo.

Quando uma pequena equipe móvel de MSF chegou a Adiftaw pela primeira vez, em meados de março, ela descobriu que o posto de saúde havia sido saqueado e parcialmente destruído. Arquivos médicos, equipamentos quebrados e pacotes de remédios rasgados estavam caoticamente espalhados pelo chão de todos os quartos, nenhum dos leitos tinha colchão e nenhuma equipe médica estava presente.

Adiftaw é uma aldeia na região de Tigré, atingida pelo conflito na Etiópia, situada três horas ao norte de Axum ao longo de estradas de terra montanhosas.

O que a equipe encontrou não foi nada de novo e refletiu suas experiências em quase todas as visitas a um novo lugar em qualquer parte de Tigré, de leste a oeste e de norte a sul.

Nos meses desde novembro do ano passado, as 10 mil pessoas que vivem em Adiftaw e arredores não puderam consultar um médico ou ser encaminhadas a um hospital para atendimento especializado. Logo depois que a equipe de MSF limpou o posto de saúde e abriu uma clínica móvel temporária, dezenas de pessoas apareceram, chegando lenta, mas continuamente, de todas as direções.

Em sua maioria, eram mães carregando crianças pequenas em suas costas. Mas outros chegaram também: jovens carregavam um homem idoso, aparentemente com malária, sentado em uma cadeira de madeira presa a uma maca improvisada; várias mulheres idosas apareceram, com seus corpos doloridos devido a condições crônicas. No entanto, nem todos obtiveram a ajuda que procuravam. A equipe médica estava se concentrando em crianças, mulheres grávidas e pessoas que precisavam de atendimento de emergência.

Cerca de uma hora após o início da triagem, a equipe de MSF teve que anunciar que não poderia deixar mais nenhum paciente entrar naquele dia, já que os médicos simplesmente não tinham capacidade para receber mais ninguém na janela de três horas para consultas.

Alto impacto da violência

Além das necessidades de saúde das pessoas, os idosos da comunidade no local disseram que a violência atingiu fortemente as pessoas. Algumas fazendas ainda estavam ocupadas por soldados, o moinho da aldeia não estava funcionando e o sistema de água quebrou depois que as bombas dos poços foram deliberadamente alvejadas. Como resultado, os moradores tiveram que caminhar por horas para buscar água em um rio, que eles disseram ser uma fonte de doenças como diarreia.

No momento da visita da equipe de MSF, mais de 100 casas haviam sido queimadas ou danificadas como resultado de bombardeios e outras violências, dezenas de habitantes teriam morrido ou desaparecido e alguns ainda estão escondidos nas montanhas. Nas últimas semanas, alguns moradores voltaram apenas para descobrir que não tinham mais uma casa porque elas estavam em ruínas e pessoas de outras partes de Tigré, como Humera e Sheraro no oeste da região, haviam se mudado após serem forçadas a fugir de suas próprias casas.

“Quando chegamos a Tigré no final de 2020, descobrimos que o sistema de saúde havia entrado em colapso quase por completo”, diz o coordenador de emergência de MSF, Tommaso Santo. “Depois de estabelecer o suporte a hospitais de grandes cidades como Adigrat, Axum e Shire, parecia-nos essencial chegar às áreas mais remotas, onde as necessidades das pessoas são maiores.”

Nos últimos meses, as equipes de emergência de MSF expandiram gradualmente suas atividades para áreas remotas em Tigré e atualmente administram clínicas móveis regulares em cerca de 50 locais diferentes.

“Cada vez que temos acesso a um novo local, enviamos uma pequena equipe que pode fornecer um mínimo pacote de serviços médicos”, diz Santo. “Estamos encontrando pessoas com muito pouco acesso à água potável e distribuição de alimentos, e que não podem fazer atividades comerciais devido ao fechamento de alguns mercados. Muitas pessoas ainda vivem com medo, em uma situação de insegurança.”

As equipes de MSF estão observando um grande número de mulheres grávidas com complicações médicas, algumas delas desnutridas, o que pode aumentar o risco de doenças e morte durante a gravidez e o parto. Embora a desnutrição infantil varie de um lugar para outro, a desnutrição aguda moderada tem aumentado em geral em Tigré nos últimos meses, diz Santo, à medida que a qualidade e a quantidade dos alimentos disponíveis caíram drasticamente, com muitas famílias comendo apenas uma refeição por dia e muitas vezes apenas pão.

Algumas áreas já estão de fato apresentando níveis de desnutrição aguda severa bem acima do limiar de emergência, como bolsões nos arredores da cidade de Shire e em Sheraro, e às portas da estação chuvosa, a previsão para os próximos meses é sombria, pois os campos são frequentemente inacessíveis aos agricultores devido ao conflito ou eles não têm os meios para plantar.

Clínicas rurais em bom funcionamento agora estão em ruínas

Antes do conflito, Tigré tinha um sistema de saúde bem funcional e equipado que estava entre os melhores da Etiópia. Os centros e postos de saúde nas áreas rurais atendiam às necessidades básicas da população e estavam conectados aos principais hospitais por meio de uma frota de ambulâncias que transportava pacientes que necessitavam de tratamento especializado.

Um desses centros de saúde rural ficava na cidade de Sebeya, também perto da fronteira com a Eritreia, porém mais a leste. Do lado de fora, o complexo de edifícios, que costumava atuar numa área de influência de cerca de 17.600 pessoas, parece impressionante, com seus edifícios de concreto sólidos e bem espaçados e várias áreas demarcadas.

“Os serviços aqui eram bons”, diz Fátima*, uma mulher de 27 anos de Sebeya. “Eu dei à luz todos os meus quatro filhos aqui. Se as equipes médicas não tivessem capacidade para oferecer atendimento especializado, elas poderiam nos encaminhar para Adigrat. Nunca precisei ir, mas outros pacientes eram levados para lá na ambulância do centro de saúde.” Mas logo ela deixa a frustração aparecer em seu rosto. No momento, a ambulância está desaparecida e Fátima, que está grávida de sete meses, não poderá dar à luz seu quinto bebê neste centro de saúde. Enquanto ela espera por uma consulta pré-natal com médicos de MSF, a sala de parto do centro de saúde, onde de 40 a 50 mulheres costumavam dar à luz por mês, está em ruínas.

Em meados de novembro, durante o conflito, vários foguetes atingiram a sala de parto e um prédio administrativo. Os dois leitos de parto e um aquecedor para recém-nascidos agora estão cobertos de poeira, gesso e lascas de madeira e o chão está uma bagunça com papéis, medidores de pressão danificados, utensílios quebrados e roupas sujas. A luz forte da estação seca entra na sala por um grande buraco na parede e vários buracos menores no teto.

“Hoje em dia, as mulheres dão à luz em casa”, diz Solomon*, um profissional de saúde. “Mesmo que o parto corra bem, o recém-nascido corre o risco de morrer. Pessoas com doenças crônicas como HIV, TB ou diabetes sofrem devido à interrupção da medicação. Crianças estão morrendo de pneumonia e desnutrição.”

Medos e perda de meios de subsistência

Para os moradores de Sebeya, a retomada parcial dos serviços médicos por meio de uma clínica móvel pode ser um passo positivo, mas ainda é uma gota no oceano. A maioria das pessoas aqui perdeu seus meios de subsistência e enfrentou meses de condições adversas, senão de violência direta.

“Eu era comerciante antes da crise”, diz Mariam*, enquanto aguarda o exame pré-natal. “Eu tinha uma loja que vendia café, açúcar e material de limpeza, mas agora ela está fechada. Foi saqueada depois que fugimos da cidade para buscar refúgio na aldeia dos meus sogros. Fiquei escondida por quatro meses e, até agora, ainda não voltei para cá definitivamente.”

“Eu costumava ter uma vida boa e minha única preocupação era melhorar o negócio”, diz ela. “Nunca pensamos que o conflito iria nos atingir. Nunca pensei que ficaria sem comida e teria que me esconder no mato.”

Cerca de 300 consultas médicas foram realizadas em Sebeya e Adiftaw naqueles dias pelas clínicas móveis de MSF. Além das questões de saúde sexual e reprodutiva, as condições mais comuns observadas, principalmente entre as crianças, foram desnutrição, pneumonia, diarreia e doenças de pele, relacionadas a más condições de vida e pouco acesso a água potável.
 
Ajuda insuficiente fora das cidades e vilarejos

“Tentamos priorizar as áreas onde devemos continuar respondendo”, diz Santo, “e tentamos ampliar o serviço oferecido: pode ser planejamento familiar, consultas pré-natais, vacinas ou outros serviços - nenhum desses está disponível há meses.”

Há também uma clara necessidade nas áreas rurais de tratamento e cuidados para sobreviventes de violência sexual, o que tem sido uma característica recorrente do conflito. Nos últimos meses, hospitais nas cidades apoiadas por MSF têm admitido um número crescente de mulheres que procuram assistência para lidar com experiências traumáticas e interromper gestações indesejadas.

Ainda há muito a ser feito para expandir o acesso das pessoas a esses e outros serviços de suporte essenciais. Embora mais organizações humanitárias tenham enviado equipes para Tigré, especialmente desde fevereiro, a resposta no terreno ainda é extremamente limitada, já que dificilmente a ajuda se estende para além das maiores cidades.

“As áreas rurais são frequentemente deixadas sem qualquer tipo de assistência e nas últimas semanas o acesso de organizações humanitárias a várias partes de Tigré foi ainda mais restrito”, disse Santo. “Há uma necessidade urgente de ampliar a assistência humanitária e expandir seu alcance.”

MSF atualmente mantém projetos médicos nas cidades de Tigrayan e nos municípios de Adigrat, Axum, Adwa, Abi Adi, Shire, Sheraro, Humera e Dansha. Desde o início de 2021, as equipes móveis de MSF com base nesses locais expandiram progressivamente suas atividades para cidades rurais, áreas montanhosas e aldeias em partes da região onde o sistema de saúde não está funcionando.

Nos últimos meses, as equipes móveis de MSF visitaram mais de cem locais diferentes, seja para administrar clínicas móveis temporárias ou para abastecer centros de saúde que foram saqueados e treinar equipes de saúde.

Ainda há áreas rurais em Tigré que nem MSF, nem qualquer outra organização, foi capaz de alcançar; MSF só pode presumir que as pessoas que vivem nessas áreas também não têm acesso a cuidados de saúde.

 

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