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Etiópia: população de Tigré quase sem cuidados médicos após ataques a estruturas de saúde

18/03/2021
Em 106 unidades visitadas pela MSF, perto de 70% tinham sido pilhadas e mais de 30% danificadas. Apenas 13% funcionavam normalmente.
Tigré Etiópia

© MSF

 

Estruturas de saúde em toda a região de Tigré, na Etiópia, têm sido pilhadas, vandalizadas e destruídas num ataque deliberado e generalizado contra os cuidados de saúde, de acordo com relatos das equipas da organização médica internacional Médicos Sem Fronteiras. De entre as 106 estruturas de saúde visitadas pelas equipas MSF entre meados de dezembro passado e inícios de março, perto de 70% tinham sido pilhadas e mais de 30% danificadas. Apenas 13% estavam a funcionar normalmente.

Em algumas das estruturas de saúde por todo o Tigré, as pilhagens continuam, é também reportado pelas equipas MSF. Apesar de alguns destes atos de pilhagem poderem ter sido oportunistas, na maior parte das zonas de Tigré parece que as estruturas de saúde foram deliberadamente vandalizadas para que não conseguissem funcionar. Em muitos centros de saúde, como em Debre Abay e May Kuhli, no Noroeste, as equipas da organização humanitária encontraram equipamentos destruídos, portas e janelas partidas e fichas de pacientes e medicamentos espalhados pelo chão.

No hospital de Adwa, na zona central de Tigré, equipamentos médicos, incluindo máquinas e monitores de ultrassom, tinham sido deliberadamente partidos. A unidade de saúde em Semema, na mesma região, fora pilhada duas vezes por soldados antes de ser incendiada e o centro de saúde em Sebeya foi atingido por rockets, do que resultou a destruição da sala de partos.

Hospitais ocupados por militares

Em cada cinco unidades de saúde visitadas pelas equipas da MSF uma estava ocupada por soldados. Em alguns casos essa ocupação foi temporária, noutras a presença militar mantém-se. Em Mugulat, na região Leste de Tigré, soldados da Eritreia continuam a usar a unidade de saúde como base. E o hospital de Abiy Addi, na zona central de Tigré, que serve uma população de meio milhão de pessoas, permanecia ocupado por forças da Eritreia até ao início de março.

“O Exército usou o hospital de Abiy Addi como base militar e para estabilizar os soldados feridos”, nota a coordenadora de emergências da MSF Kate Nolan. “Durante esse período, o hospital não esteve acessível para a população geral. As pessoas tinham de ir ao centro de saúde da vila, o qual não estava equipado para prestar cuidados de saúde secundários – não podiam fazer transfusões de sangue, por exemplo, ou tratar ferimentos por armas de fogo”.

Ambulâncias apreendidas

São poucas as unidades de saúde em Tigré que ainda têm ambulâncias, uma vez que a maioria foi apreendida por grupos armados. Dentro e em redor da cidade de Adigrat, no Leste de Tigré, por exemplo, cerca de 20 ambulâncias foram levadas do hospital e centros de saúde próximos. Posteriormente, equipas da MSF viram alguns destes veículos a serem usados por soldados perto da fronteira com a Eritreia para transportar provisões. Consequentemente, o sistema de encaminhamento em Tigré para transporte de pacientes é quase inexistente. As pessoas têm de fazer longas distâncias, às vezes tendo de caminhar durante dias, para chegar a serviços essenciais de saúde.

Muitas estruturas de saúde têm poucos – ou já nenhuns – profissionais a trabalhar. Alguns fugiram com medo, outros não voltam ao trabalho porque não são pagos há vários meses.

Impacto devastador na população

“Os ataques contra as estruturas de saúde em Tigré estão a ter um impacto devastador na população”, sustenta o diretor-geral da MSF Oliver Behn. “As estruturas de saúde e profissionais de saúde têm de ser protegidos durante um conflito, de acordo com a lei internacional humanitária. E isto claramente não está a acontecer em Tigré”, remata.

Antes de o conflito eclodir, em novembro de 2020, Tigré tinha um dos melhores sistemas de saúde na Etiópia, com postos de saúde nas aldeias, centros de saúde e hospitais nas vilas e cidades e um sistema de encaminhamento de pacientes funcional, dotado de ambulâncias para transportar as pessoas doentes até ao hospital. Este sistema de saúde está agora quase totalmente colapsado.

As equipas da MSF que estão a trabalhar com clínicas móveis nas áreas rurais de Tigré recebem relatos de mulheres que morreram em trabalho de parto porque não conseguiram chegar a um hospital, devido à falta de ambulâncias, à insegurança total nas estradas e a um recolher obrigatório nocturno. Ao mesmo tempo, muitas mulheres estão a ter os partos em condições sem higiene em campos informais de deslocados internos.

Nos últimos quatro meses, poucas grávidas receberam cuidados pré-natais ou pós-natais, e as crianças não têm sido vacinadas, no que aumenta o risco de futuros surtos de doenças infeciosas. Pacientes com doenças crónicas como diabetes, hipertensão e VIH, assim como pacientes de psiquiatria, estão sem aceder a medicamentos cruciais, que salvam vidas. Sobreviventes de violência sexual não conseguem muitas vezes receber os cuidados médicos e psicológicos de que precisam.

“O sistema de saúde têm de ser restaurado o mais depressa possível”, avança Oliver Behn. “As estruturas de saúde têm de ser reabilitadas e de receber mais provisões e ambulâncias, e os profissionais de saúde têm de receber os salários e ter a oportunidade de trabalhar num ambiente seguro. Mais importante ainda, todos os grupos armados neste conflito têm de respeitar e proteger as estruturas de saúde e os profissionais médicos”.

As equipas da MSF estão a reabilitar várias unidades de saúde em toda a região de Tigré e a providenciar-lhes medicamentos e outras provisões médicas, assim como a prestar apoio médico prático em serviços de urgência, alas de maternidade e departamentos de assistência ambulatória. As equipas da organização humanitária estão também a trabalhar com clínicas móveis nas vilas e aldeias rurais onde o sistema de saúde não está a funcionar, assim como em locais informais onde as pessoas deslocadas internamente se abrigam. Porém, há zonas rurais em Tigré onde nem a MSF nem nenhuma outra organização foram ainda capazes de chegar – a MSF pode apenas assumir que as pessoas que vivem nestas áreas se encontram igualmente sem acesso a cuidados de saúde.

 

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