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Etiópia: “As pessoas vão morrer em casa se não houver hospitais disponíveis”

08/02/2021
Milhares de etíopes continuam a sofrer com a violência e a dificuldade de acesso a serviços de saúde
Etiópia: “As pessoas vão morrer em casa se não houver hospitais disponíveis”

Foto: María Hernández/MSF

Albert Viñas participou de quase 50 respostas de emergência de Médicos Sem Fronteiras (MSF) por mais de 20 anos. Ele acaba de retornar de seu sexto projeto com MSF na Etiópia, onde sua função era preparar o caminho para que as equipes médicas pudessem chegar a regiões do centro e do leste de Tigré, para atender as pessoas afetadas pela crise atual. Desde que a violência eclodiu nesta região do norte da Etiópia, no início de novembro, cerca de 60 mil pessoas se refugiaram no Sudão e centenas de milhares estão deslocadas dentro de Tigré. Ele descreve o que encontrou.

“Depois de várias tentativas, finalmente entramos na capital de Tigré, Mekele, com uma primeira equipe de MSF, no dia 16 de dezembro, mais de um mês após o início dos conflitos. A cidade estava calma. Havia eletricidade, mas não havia suprimentos básicos. O hospital local funcionava só a cerca de 40 por cento de sua capacidade, com pouquíssima medicação. Quase não chegavam pacientes, o que é sempre um péssimo sinal. Conduzimos avaliações no hospital, para que pudéssemos transferir pacientes o mais rápido possível de Adigrat, 120 km ao norte.

Chegamos a Adigrat, a segunda cidade mais populosa de Tigré, no dia 19 de dezembro. A situação era muito tensa e o hospital estava em péssimas condições. A maior parte dos profissionais de saúde tinha fugido, quase não havia medicamentos e não havia comida, água ou dinheiro. Alguns pacientes internados com lesões traumáticas estavam desnutridos.

Fornecemos medicamentos ao hospital e compramos alimentos de emergência nos mercados que ainda estavam abertos. Junto com o restante da equipe do hospital, limpamos o prédio e organizamos a coleta de resíduos. Aos poucos, reabilitamos o hospital para que funcionasse como mais um centro de referência.

No dia 27 de dezembro, entramos em Adwa e Axum, duas cidades a oeste de Adigrat, no centro de Tigré. Nos deparamos com uma situação semelhante: não havia eletricidade nem água. Todos os medicamentos foram roubados do hospital geral de Adwa e os móveis e equipamentos do hospital estavam quebrados. Felizmente, a instituição Dom Bosco em Adwa havia convertido sua clínica em um hospital de emergência com uma pequena sala de cirurgia. Em Axum, o hospital universitário de 200 leitos não havia sido atacado, mas operava apenas a 10% de sua capacidade.
Em estradas onde a situação de segurança permanecia incerta, transportamos alimentos, medicamentos e oxigênio para esses hospitais e passamos a atender os departamentos médicos mais essenciais, como salas de cirurgia, maternidades e pronto-socorros, e a encaminhar casos críticos.

Centros de saúde saqueados

Além dos hospitais, cerca de 80% ou 90% dos centros de saúde que visitamos entre Mekele e Axum não estavam funcionando, seja por falta de profissionais ou porque haviam sido saqueados. Quando não existe serviço de atenção primária, as pessoas não podem receber assistência ou ser encaminhadas para hospitais.

Antes da crise, duas cirurgias de apendicite foram realizadas em um único dia no hospital Adigrat. Nos últimos dois meses, nenhuma cirurgia foi realizada. Os pacientes chegavam tarde demais. Uma mulher estava em trabalho de parto há sete dias, sem poder dar à luz. Ela foi salva porque a transportamos. Vi pessoas chegarem de bicicleta, depois de carregar um paciente por 30 km. E esses foram os que conseguiram chegar ao hospital.

Se as mulheres com complicações em trabalho de parto e pacientes gravemente doentes não puderem chegar ao hospital, imagine as consequências. Há uma grande população sofrendo, certamente com consequências fatais. O hospital de Adigrat tem uma área de cobertura de mais de um milhão de pessoas e o de Axum tem mais de três milhões. Se esses hospitais não funcionarem adequadamente e não estiverem disponíveis, as pessoas vão morrer em casa. Quando o sistema de saúde está colapsado, vacinações, detecção de doenças e programas nutricionais também não funcionam. Não houve vacinação em quase três meses, por isso, tememos que novas epidemias surjam em breve.
Nas últimas semanas, nossas equipes médicas móveis começaram a visitar áreas fora das principais cidades e estamos reabrindo alguns centros de saúde. Nossa presença traz uma certa sensação de proteção. Temos visto alguns profissionais de saúde voltando ao trabalho. Apenas cinco pessoas compareceram à primeira reunião que organizamos no hospital em Adwa, mas a segunda contou com a presença de 15 pessoas e mais de 40 pessoas compareceram à terceira. Além das atividades médicas, você sente que oferece às pessoas alguma esperança: a sensação de que as coisas podem melhorar depois de dois meses sem boas notícias.

Medo, filas e falta de serviços básicos

Nesta parte de Tigré, não há grandes assentamentos de pessoas deslocadas – em vez disso, a maioria se refugiou em casas de parentes e amigos, então, muitas casas agora têm 20 ou 25 pessoas morando juntas. O impacto da violência é visível nos prédios e nos carros, cheios de marcas de tiros. Sobretudo no início, vimos uma população enclausuradas em casa e vivendo com muito medo. Todos nos pediram para mandar mensagens às suas famílias. As pessoas nem sabem se seus entes queridos estão bem. Em muitos lugares, ainda não há telefones ou telecomunicações.

Quando chegamos a Adigrat, vimos filas de 500 pessoas ao lado de um caminhão-pipa esperando para coletar no máximo 20 litros de água por família. A linha telefônica foi restaurada em Adigrat há poucos dias. A situação vai melhorando aos poucos, mas, à medida que avançamos para o oeste para novos lugares, encontramos o mesmo cenário: menos serviços, menos transporte...

Estamos muito preocupados com o que pode estar acontecendo nas áreas rurais. Ainda não conseguimos ir a muitos locais, porque o acesso ainda é difícil, seja pela insegurança ou porque é difícil obter autorização. Mas sabemos, porque os anciãos da comunidade e as autoridades tradicionais nos disseram, que a situação nesses lugares é grave.

Muitas regiões de Tigré têm terreno montanhoso, com estradas sinuosas que sobem de 2 mil a 3 mil metros acima do nível do mar. Cidades como Adwa e Axum são construídas nos planaltos férteis, mas grande parte da população vive nas montanhas e ouvimos dizer que há pessoas que fugiram para essas áreas mais remotas por causa da violência.

Desafios logísticos, resposta tardia

O esforço de nossas equipes tem sido gigantesco em todos os níveis – médico, financeiro, logístico e de recursos humanos. É um desafio trabalhar sem telefone ou internet. No início, não havia voos para Mekele e tínhamos que transportar tudo por estradas, da capital etíope, Adis Abeba, a cerca de mil quilômetros de distância. Não era possível fazer transferências financeiras porque os bancos estavam todos fechados. Ainda assim, conseguimos iniciar nossas operações.

Agora, quase três meses após o início do conflito, outras organizações começam a aparecer, aos poucos, em algumas áreas. Estou impressionado com o quão difícil tem sido – e continua a ser – chegar a uma população tão carente em uma área tão densamente povoada. Considerando os meios e a capacidade de análise de organismos internacionais e da ONU, o fato de isso estar acontecendo é uma falha do mundo humanitário.

Ainda não sabemos o real impacto desta crise, mas temos que continuar trabalhando para descobrir o mais rápido possível.”

Outras equipes de MSF também estão prestando atendimento médico em diferentes áreas do centro, sul e noroeste de Tigré. Além das atividades em Tigré, equipes de MSF ofereceram cuidados de saúde a milhares de pessoas deslocadas e apoiaram centros de saúde na fronteira da região de Amhara e estão atendendo às necessidades dos refugiados etíopes na fronteira com o Sudão.

 

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