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Etiópia: Multidões procuram comida

09/09/2008
Quase 40 mil pessoas receberam alimento enriquecido ou terapêutico por meio das atividades de combate à desnutrição de MSF no sul do país nos últimos quatro meses

Desde meados de maio, foram admitidas 24 mil pessoas sofrendo de desnutrição aguda severa nos programas de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Oromiya e nas regiões Populares Nacionais e Nações do Sul (SNNP, na sigla em inglês) no sul da Etiópia. A maioria dos pacientes é crianças pequenas, mas a proporção de crianças mais velhas ou até adultos ainda é importante em algumas áreas. A média de pacientes maiores de cinco anos é de dois em dez.

MSF constantemente adapta as atividades nutricionais abrindo novos programas onde necessário, como recentemente nos distritos Duna, Sidama ou Gedeo e fechando alguns centros nutricionais depois da queda no número de pacientes. Em alguns lugares, as pessoas começaram a comer trigo que ainda não estava maduro, tirado diretamente dos seus terrenos. Em outros, eles têm que esperar um ou dois meses.

MSF também abriu um programa nutricional em Teru, a noroeste da capital etíope, Addis-Abbeba, na região de Afar, onde o período da fome ainda nem começou e 9% das crianças menores de cinco anos estão severamente desnutridas. Um total de mais de 60 centros de nutrição de MSF oferecem cuidados médicos e entregam alimento terapêutico a pacientes severamente desnutridos. Muitos desses centros têm capacidade de hospitalização para pacientes que sofrem de complicações médicas associadas à desnutrição. A maioria dos pacientes melhora após algumas semanas recebendo alimento terapêutico em casa, com a medicação que eles precisam e com o acompanhamento semanal nos centros.

Três mil toneladas de comida
"Quando nós começamos a intervenção, em meados de maio, estávamos abrindo cada vez mais centros de nutrição, tão rápido quanto podíamos, e crianças severamente desnutridas estavam vindo em massa. Há um mês, a pressão nas atividades de MSF para que houvesse mais tratamento de severamente desnutridos está lentamente caindo na maioria dos lugares", explica Renzo Fricke, coordenador de emergência das atividades nutricionais de MSF no sul da Etiópia. "Para crianças que estavam em maior perigo, o tratamento foi eficaz e para os outros, o começo das atividades para crianças moderadamente desnutridas limitou a ocorrência de novos casos severos".

As equipes em 26 dos centros nutricionais também levam em conta crianças moderadamente desnutridas. Mais de 200 toneladas de óleo, mais de 300 toneladas de outros alimentos (como lentilhas, trigo e açúcar) e 2,5 mil toneladas de farinha enriquecida foram enviadas para o campo e estão sendo distribuídas diretamente aos beneficiados pelas equipes de MSF. Esse estoque de comida gerou uma enorme esperança na população por causa da maior quantidade de pessoas que poderão ser admitidas nos programas. Em algumas regiões, um terço das crianças menores de cinco anos estão moderadamente desnutridas.

Multidões empurrando a porta
Em Tunto, nas regiões SNNP, o que as equipes consideram um dia calmo é quando menos de mil pessoas estão lutando para ter a certeza de que ingressaram no programa. Em alguns dias, cerca de duas mil pessoas apareciam e a equipe não teve escolha além de interromper as atividades para evitar acidentes no meio da multidão. Cada equipe de MSF está tentando novas estratégias para conseguir ter um controle melhor sobre as multidões e limitar a triagem de potenciais pacientes. Parte da população simplesmente continua a ir aos centros dia após dia, ainda esperando entrar no critério e conseguir alguma comida. Se a falta de acesso a alimentos é evidente, os médicos e enfermeiros nos centros de desnutrição também notam o acesso precário à saúde. As pessoas não tem dinheiro para comprar comida nem medicamentos. Crianças têm tendências a diarréia e vermes e muitos adultos desnutridos também sofrem de doenças crônicas.

Bogalesh, um de milhares
Algumas dezenas de quilômetros distante de Tunto, em Mudulla, a fila de pessoas se alonga por centenas de metros ao longo do centro de desnutrição. Mas lá, as atividades para crianças moderadamente desnutridas estão prestes a começar e o número de severamente desnutridos continua alto. Nessa área, um quarto dos pacientes é de crianças entre cinco e 14 anos e 12% é de adultos.

Bogalesh está vindo pela primeira vez. Um vizinho lhe contou que ela deveria ir pois poderia conseguir comida lá. Ela esperou até conseguir se mexer, pois está sofrendo de artrite. Bogalesh pesa apenas 30 kg e mede 1,49m. Ela terá que ganhar 10 kg antes de ser considerada curada com base nos critérios nutricionais. Toda semana, enquanto ela estiver no programa, vai receber 5 kg de farinha, um litro de óleo e alimento terapêutico para comer duas vezes por dia. Essa mãe de cinco filhos não recebeu nenhuma ajuda em comida ou dinheiro diretamente, mas um de seus vizinhos, que ganhou 50kg de farinha da ajuda emergencial, deu a ela três copos do alimento há alguns dias. Mesmo sendo pouco, essa ajuda foi muito bem vinda, já que o valor dessa mesma quantidade é mais do que um homem recebe por um dia inteiro de trabalho em uma fazenda (cinco birrhs, ou 85 centavos).