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Etiópia: MSF complementa serviços médicos com suporte psicológico para repatriados

15/01/2014
“A maioria dos repatriados sofrem com depressão, desordem pós-traumática relacionada a estresse, estresse agudo, ansiedade generalizada, síndromes dissociativas e psicóticas”

Após a decisão do governo da Arábia Saudita de deportar trabalhadores ilegais, 154.837 homens, mulheres e crianças chegaram ao aeroporto de Bole, na Etiópia, carregando os poucos pertences que puderam trazer em sacos, caixas de papelão e malas. Eles estão voltando para casa, seja pela força ou voluntariamente. Todos vieram da Arábia Saudita, onde viveram e trabalharam de todas as formas, como empregados domésticos ou enfermeiros, por exemplo. Alguns nasceram ali; outros deixaram a Etiópia ainda quando jovens. A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), juntamente com outros parceiros, tem trabalhado nos centros de recepção desde o início da repatriação dos etíopes, em meados de novembro de 2013. Além de oferecer serviços de saúde materna e infantil, MSF está provendo cuidados de saúde mental, muito necessários.

“Atenção médica imediata é essencial nesses pontos de recepção, que concentram muitas pessoas em necessidade; algumas mulheres estão entrando em trabalho de parto logo de sua chegada, enquanto outras em seu último trimestre de gravidez, apresentando complicações que demandam atenção urgente. Estamos vacinando menores desacompanhados contra sarampo e poliomielite, oferecendo aconselhamento psicológico a homens, mulheres e crianças de todas as idades, além de encaminharmos casos críticos a diversos hospitais em Addis Ababa”, conta o Dr. Jean François Saint-Sauveur, coordenador médico de MSF na Etiópia.

Apenas nas últimas quatro semanas, as equipes médicas de MSF conduziram 160 sessões voltadas para a saúde materna e infantil, atendendo mais de 18.128 pacientes. Sambera*, um jovem rapaz de 22 anos, chegou à Arábia Saudita após ter sofrido abusos perpetrados por diferentes pessoas, incluindo os traficantes do Iêmen – MSF também oferece assistência médica a imigrantes em centros de detenção no Iêmen; em sua maioria, são etíopes. Ele foi detido próximo da fronteira iemenita, onde conseguiu, por meio de subornos, financiar sua entrada na Arábia Saudita. “Mesmo depois de minha chegada ao país, não tive oportunidade de trabalhar e ganhar dinheiro para ajudar minha família na Etiópia; ao invés disso, fui aprisionado, surrado, para, então, ser deportado”, conta.
 
Ele, e tantos outros garotos, como Yelem*, de 15 anos, tem participado de sessões de aconselhamento individual oferecidas por MSF. Quando chegou, Yelem estava completamente confusa, agressiva, desorientada, falando sozinha e sorrindo ocasionalmente, para, depois de um minuto, começar a chorar amargamente. Ela conta que trabalhou em diversas casas sem receber pagamento e que seus empregadores abusavam dela fisicamente. Ela foi à Arábia Saudita quando tinha apenas dez anos de idade. Agora, com 15 anos, ela está perdida e confusa. Os psicólogos de MSF encaminharam-na para o Hospital Emanuel, para receber cuidados médicos especializados e tratamento psicológico. “A maioria dos repatriados que estamos atendendo sofrem com depressão, desordem pós-traumática relacionada a estresse, estresse agudo, ansiedade generalizada, síndromes dissociativas e psicóticas”, diz Angelica Kokutona Wagwa, psicóloga de MSF na Etiópia. “Boa parte dos repatriados tem entre 18 e 36 anos e há uma necessidade, portanto, de lhes dar esperança em relação ao futuro, por meio da garantia de que continuarão a receber aconselhamento psicossocial para ajudá-los a se restabelecerem bem em suas comunidades”, adiciona.
 
Essas pessoas, em sua maioria, têm histórias tristes a contar. MSF, juntamente com outros parceiros, como a Organização Internacional para Imigração (IOM, da sigla em inglês para International Organization for Migration) e as autoridades etíopes, continua a oferecer assistência para esse grupo vulnerável de pessoas para melhorar sua situação até que se juntem novamente às suas famílias. 
 
*Nomes fictícios. Os nomes reais foram alterados para proteger a identidade de nossos pacientes.
 
MSF atua na Etiópia continuamente desde 1984, realizando diversas intervenções médicas e nutricionais por todo o país.

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