Você está aqui

Etiópia: Condições em acampamentos para refugiados precisam melhorar muito

01/03/2012
Médico de MSF fala da situação nos acampamentos em Liben, onde refugiados somalis sofrem com uma situação crônica de desnutrição

No começo de 2011, a Etiópia recebeu 40 mil refugiados vindos da Somália; no final do mesmo ano, o número já tinha passado de 142 mil. Essa fuga em massa dos somalis se deu em função de uma terrível seca, que prejudicou as colheitas e matou o gado, e que agravou ainda mais a situação de um país que sofre com conflitos internos que já duram 20 anos e continuam se intensificando.

 
No entanto, por mais significativa que seja, a quantidade de novas chegadas aos acampamentos é apenas uma representação numérica: ela não reflete as grandes dificuldades enfrentadas pelos somalis nos dias – ou até mesmo semanas – que eles levaram para atravessar a fronteira, quase sem alimento ou água, nem a situação crítica de desnutrição entre as crianças nos acampamentos. Também não são representativos do enorme esforço feito pelas organizações humanitárias para reduzir a fome e a exclusão, e para trazer os níveis de mortalidade infantil para níveis de relativa “normalidade”, fora do patamar de emergência. 
 
José Luis Dvorzak, médico de MSF que atua nos acampamentos da região de Liben, na Etiópia, lembra que ainda há muito que fazer para ajudar a população de refugiados, um grupo que sofre com uma situação crônica de desnutrição e com opções muito limitadas de retorno para a Somália, devastada pela guerra. 
 
Você já trabalhou nos acampamentos de Liben algumas vezes ao longo dos últimos dois anos. Quando foram essas experiências?
 
A primeira vez que estive aqui foi em junho de 2010. Nessa época, havia três profissionais internacionais e 35 profissionais locais trabalhando nos campos, e nossos projetos nutricionais eram realizados nos dois acampamentos existentes – Bokolmayo e Malkadida –, que contavam com 40 mil refugiados, e no Centro de Saúde de Dolo Ado. Quando voltei, em setembro de 2011, a diferença era enorme: 50 profissionais internacionais e mais de 800 locais trabalhavam na região, onde dois novos acampamentos – Kobe e Hiloweyn – tinham sido inaugurados e já abrigavam, cada um, 25 mil refugiados somalis. As condições de saúde dessas pessoas eram as piores possíveis, e as taxas de mortalidade chegavam a níveis altíssimos – em um determinado momento, tínhamos quase 13 mil pessoas inscritas em nossos programas de nutrição. Em setembro, após meses conduzindo um projeto nutricional, conseguimos reduzir a mortalidade para níveis abaixo do patamar emergencial. 
 
Como você descreveria a situação de saúde das pessoas nos campos atualmente?
 
Ainda temos cerca de 45 crianças internadas nos nossos centros de estabilização que estão com desnutrição severa e sofrem com outras doenças como pneumonia e diarreia – esse número, no auge da emergência, chegava a 150 por semana. Além dessas, as patologias mais comuns entre a população dos campos são infecções respiratórias, diarreia, parasitoses intestinais e doenças de pele. Atualmente, também estamos implementando programas de saúde mental e de vigilância epidemiológica, por meio de agentes de saúde comunitários.
 
Quais os maiores desafios do trabalho em Liben?
 
Após 20 anos de conflitos na Somália, onde as estruturas públicas de saúde são raras – ou foram destruídas –, a população não está mais acostumada com a oferta de serviços médicos.
 
Qual o impacto disto nas condições de saúde dessas pessoas?
 
A condição de saúde dos refugiados é precária. Nós passamos de uma situação de emergência nutricional para uma situação crônica. As condições nos acampamentos não são fáceis, e é difícil para as pessoas cozinharem seus próprios alimentos: as mulheres precisam se deslocar para conseguir lenha, e correm o risco de serem atacadas. Há ainda outros que rejeitam os alimentos padronizados que recebem, e levam os itens para o mercado para trocar por alimentos mais próximos de suas tradições alimentares, mas que não têm os nutrientes necessários. Mudar hábitos de alimentação é algo muito difícil, pois envolve muita explicação e compreensão. Os níveis gerais de desnutrição já eram muito altos antes da emergência, e aumentaram exponencialmente após o grande fluxo de novas chegadas que se deu nos meses de setembro e outubro.
 
Como as equipes conseguiram reduzir os níveis de emergência?
 
Assim que os novos acampamentos ficaram cheios e que foi proibida a entrada de novos refugiados, nosso desafio passou a ser o de fornecer alimentos, monitorar a situação de desnutrição severa em crianças e realizar atividades de vigilância epidemiológica para responder a possíveis surtos de doenças. Em Kobe, acampamento que abriga 25 mil pessoas e que registrava taxas de mortalidade muito acima do nível emergencial (que é de uma morte por dia para cada 10 mil pessoas), nós tivemos que lutar contra uma epidemia de sarampo – uma doença que combinada com a desnutrição pode ser fatal – e realizar uma campanha de vacinação em massa voltada para crianças com menos de 15 anos de idade.
 
Como está a situação agora?
 
Estamos em um momento de estabilização. As autoridades repassaram parte de nossos projetos para outras organizações, mas MSF continua gerindo centros de estabilização para crianças em estado crítico em três acampamentos da região. No entanto, ainda estamos muito preocupados com a situação nutricional da população. Ainda há muito que melhorar em relação à nutrição.
 
Choveu um pouco na Somália recentemente. Os refugiados querem voltar para o seu país?
 
Alguns querem voltar, e acabam voltando mesmo, apesar da guerra, na esperança de aproveitar as chuvas recentes para construir novas vidas na Somália. No entanto, aproximadamente 70 novos refugiados ainda chegam diariamente aqui – um número muito menor do que os 23 mil que chegavam todos os meses no ano passado.

Leia mais sobre