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Etiópia: Assistência médica 24 horas para tratar desnutrição no sul do país

09/07/2008
Mais de 9,5 mil crianças gravemente desnutridas já foram tratadas em centros de estabilização de Médicos Sem Fronteiras

As atividades de emergência de Médicos Sem Fronteiras nas áreas do sul da Etiópia estão aumentando para responder ao alarmante número de crianças desnutridas que tomaram parte nos programas. Até o momento, mais de 9,5 mil crianças com desnutrição severa foram tratadas na região de Oromiya e nas Regiões Populares Nacionais e Nações do Sul (SNNPR, na sigla em inglês). Infelizmente, 96 crianças morreram após serem internadas nos centros de estabilização.

"A maioria das pessoas aqui depende da agricultura para conseguir comida e para ter uma renda básica", explica Jean de Cambry, coordenador de emergência de MSF. "Mas em muitas regiões, as chuvas deste ano começaram muito tarde e muito fracas. Isso, combinado com a inflação alta, o aumento do preço dos alimentos, a redução do poder de compra e outros fatores fizeram com que para muitas pessoas a situação se tornasse extremamente difícil.".

As equipes de MSF estabeleceram cinco centros de estabilização em Kuyera e Sembete, na região Oromiya, e em Shinshicho, Gocho, e Mudulla na região SNNP. Essas estruturas oferecem atendimento 24 horas por dia para as crianças severamente desnutridas que sofrem de complicações como malária ou pneumonia. Até o momento, 1.538 crianças foram admitidas nesses centros, entre as quais 320 continuam recebendo atenção médica.

Muitas crianças registradas nos centros de MSF apresentam edemas, que são um sintoma de kwashiorkor, um tipo de desnutrição severa. Em algumas áreas do distrito de Kambata, na região SNNP, 9% de nossos pacientes desnutridos têm mais de 14 anos de idade, uma constatação claramente preocupante.

As crianças gravemente desnutridas que não sofrem complicações estão sendo tratadas sem internação, nos chamados programas clínicos terapêuticos (OTPs na sigla em inglês). Eles recebem alimentos terapêuticos ricos em nutrientes semanalmente, mas podem ficar em casa com suas famílias. A cada semana, eles voltam aos OTPs para serem acompanhados pela equipe médica de MSF e podem ser transferidos para um centro de estabilização, caso seja necessário. No total, 8.046 crianças já foram atendidas em 42 OTPs, que funcionam em vários distritos de Oromiya e das regiões SNNP.

Levando-se em conta o número total de pacientes gravemente desnutridos tratados até agora em todas as nossas estruturas e o número total da população infantil com menos de cinco anos nesses distritos, entre 1% e cerca de 10% da população infantil apresentou algum sinal de desnutrição severa aguda.

"Tem sido um verdadeiro desafio dar início a essas atividades de emergência rapidamente em termos de logística de suprimentos alimentares e qualidade de ajuda médica", afirma Jean de Cambry. "Um centro de estabilização geralmente pode atender dez pacientes, mas nós tivemos inicialmente que tratar 150 pacientes em nosso centro em Kuyera.".

No fim de junho, MSF fechou seu centro de estabilização em Ropi, na região Oromiya, e começou a transferir as crianças com complicações médicas para o centro de estabilização Sembete. Ao mesmo tempo, as equipes de MSF abriram novos OTPs para adaptar constantemente suas atividades às necessidades.

Para as equipes de MSF, o próximo desafio será incluir as crianças moderadamente desnutridas nos programas. "Até agora, nossas equipes tiveram apenas capacidade de cuidar das crianças gravemente desnutridas.", conta Jean de Cambry. "Mas em nossas áreas de trabalho, nós esperamos receber muito mais crianças sofrendo de desnutrição moderada. Eles estão sob risco e precisam de apoio nutricional urgente.". As equipes continuam a realizar levantamentos e exames em crianças pequenas de outras regiões. Onde for necessário, eles vão dar início a programas alimentares e distribuirão rações alimentares para as famílias.

"Nós não vemos a situação melhorar, uma vez que a próxima colheita não vai acontecer antes de dois ou três meses na maioria das áreas afetadas.", acrescenta Jean de Cambry. "Por isso, nessas áreas muito afetadas, centros terapêuticos curativos e medidas de prevenção, como distribuição de comida, são urgentemente necessários.".

MSF trabalhou na Etiópia desde 1984. Além da emergência nutricional, MSF mantém programas de longa duração em várias regiões do país. Na região do leste da Somália, MSF trata pacientes que sofrem de tuberculose e oferece acesso a cuidados de saúde primárias em Cherrati. MSF também administra um programa de saúde primária, em Deghabur e Wardher, incluindo um componente nutricional. No norte do país, MSF trabalha em Humera, na região Tigray, oferecendo atendimento e tratamento para pessoas com kalazar. Mais além, em Abdurafi, região Amhara, MSF mantém um programa de prevenção, atendimento e tratamento de kalazar e HIV/AIDS.