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Estudo mostra que antiretrovirais são eficazes para crianças

15/08/2006
Dois estudos apresentados na XV Conferência Internacional de Aids em Toronto indicam bons resultados no tratamento infantil, mas MSF alerta que preço de medicamentos ainda é abusivo

Dois novos estudos divulgados por Médicos Sem Fronteiras (MSF) na XVI Conferência Internacional de Aids em Toronto revelam bons resultados no tratamento com antiretrovirais para crianças com HIV/Aids em uma grande área de países com poucos recursos. No entanto, a organização alerta que os medicamentos infantis ainda estão excessivamente caros, custando até seis vezes mais do que os equivalentes indicados para os adultos.

Globalmente, cerca de 2,3 milhões de crianças vivem com HIV, a maior parte na África Subsaariana. Nove entre dez crianças recém-infectadas adquirem o vírus por transmissão vertical (de mãe para filho), em grande parte porque os esforços para prevenir esse tipo de contágio são insuficientes.

Pouquíssimas crianças têm acesso ao tratamento – apenas 5% das 660 mil que têm necessidade urgente de remédios – e não há testes apropriados para realizar o diagnóstico infantil e também poucas ferramentas adaptadas para o tratamento. MSF afirmou que as organizações internacionais demoraram a responder às necessidades de um crescente número de crianças vivendo com HIV/Aids e alertaram que a ampliação do tratamento infantil vai ser impossível sem uma ação imediata.

Resultados do estudo realizado com a participação de 3.754 crianças com menos de 13 anos de programas de tratamento de MSF em 14 países mostraram que elas podem ser tratadas com eficiência: 80% estavam vivas e continuavam a receber medicamentos após 24 meses de tratamentos, com poucos efeitos colaterais. Ganhos significantes em contagem de CD4 e peso foram observados. Na falta de remédios infantis adequados, a maioria das crianças foi tratada com metade das doses dos adultos.

"Nós sabemos que o tratamento infantil funciona, mas com ferramentas melhores poderíamos tratar muito mais crianças", afirmou o médico Moses Masaquoi, de MSF em Malawi. "Nós vemos o número de crianças que nascem com HIV crescendo constantemente na África porque as gestantes não têm acesso a tratamento pré-natal e os filhos de mães soropositivas não conseguem ser acompanhados". Isso explica o fato das crianças com menos de um ano e meio representarem apenas entre 5% e 2% dos pacientes em tratamento com antiretrovirais nos projetos MSF. Sem tratamento, metade das crianças que adquiriram o HIV através de contágio vertical morre antes de completar dois anos.

O diagnóstico e tratamento de crianças continua a ser um dos maiores desafios. Diagnosticar é difícil em ambientes de poucos recursos porque os testes de detecção de anticorpos, geralmente usados em adultos, não são precisos para essa faixa etária. O tratamento é difícil porque há poucas dosagens pediátricas apropriadas de remédios antiretrovirais, forçando os médicos a partir em dois as cápsulas adultas, que não foram elaboradas para serem parcialmente ministradas – uma opção longe de ser a ideal.

Para crianças que pesam menos de dez quilos, até essa estratégia é impossível, uma vez que a única forma de tratamento se dá através do uso de xaropes, que são difíceis de medir, têm gosto amargo, freqüentemente precisam de refrigeração e são muito caros. Como grande parte das crianças infectadas vive em países pobres, a maioria das indústrias farmacêuticas investe pouco na criação de medicamentos infantis.

Dados apresentados por MSF sobre o preço dos medicamentos mostram que as indústrias farmacêuticas estão cobrando acima do mercado por medicamentos antiretrovirais infantis nos países em desenvolvimento. Esses custos não são justificados pela quantidade de ingrediente farmacêutico ativo (API, na sigla em inglês) usado nas drogas. O API é o principal fator determinante do custo de produção do remédio e, conseqüentemente, de seu preço final. Geralmente, é responsável por mais da metade do custo para produzir um remédio.

Por exemplo, a dose de zidovudine necessária para tratar um adulto custa US$ 175 por ano. A quantidade de API na dose infantil, para o tratamento de crianças com peso abaixo de dez quilos, equivale a menos de um terço do que compõe uma dose adulta. O preço calculado com base na quantidade de API deveria ser US$ 40. No entanto, o medicamento é vendido por US$ 215, cinco vezes mais que o preço de custo.

A OMS e a Unicef precisam se pronunciar sobre os medicamentos para as crianças, para que sejam criadas diretrizes claras para os fabricantes. Por falta dessa orientação, duas companhias começaram a produzir uma dose combinada há muito esperada, mas em dosagens diferentes.

"A falta de orientação da OMS está tornando o tratamento das crianças ainda mais confuso. A criação de diretrizes claras há três anos poderia ter evitado isso", defendeu Fernando Pascual, farmacêutico da Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais de MSF.

MSF oferece tratamento antiretroviral para mais de 60 mil pacientes, entre os quais quatro mil crianças, através de 65 projetos realizados em 32 países. MSF tem dado assistência a pacientes com HIV/Aids em países em desenvolvimento desde meados da década de 90 e começou a disponibilizar tratamentos com antiretrovirais em 2000 (na Tailândia e na África do Sul).