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“A equipe médica está trabalhando além do seu limite no primeiro epicentro da COVID-19 na Itália”

03/04/2020
A médica Chiara Lepora, coordenadora do projeto de MSF em Lodi, norte da Itália, descreve a situação na região
“A equipe médica está trabalhando além do seu limite no primeiro epicentro da COVID-19 na Itália”

Foto: Lisa Veran/MSF

A doença causa pelo novo coronavírus, COVID-19, se espalhou para mais de 190 países em todo o mundo. As equipes de Médicos Sem Fronteiras (MSF) estão prestando assistência em várias áreas afetadas. Na Itália, apoiamos três hospitais no primeiro epicentro do surto no norte do país – com controle de infecções, atendimento remoto a pacientes e atividades de sensibilização da população – e lares de idosos no centro. A dra. Chiara Lepora é coordenadora do projeto em Lodi, no norte.

“Temos uma equipe de cerca de 25 pessoas trabalhando aqui na região da Lombardia, mais especificamente nos hospitais de Lodi, Codogno e Sant'Angelo. O sistema de saúde aqui é muito avançado, mas o novo coronavírus extrapolou todas as tentativas dos profissionais de saúde em lidar com o número crescente de casos. Os hospitais estão no seu limite. A emergência do hospital de Lodi agora tem 80 leitos. No entanto, mesmo com essa capacidade extra, a única possibilidade de que um novo paciente seja internado é se outro paciente se recuperar ou morrer.

Nosso trabalho principal é fornecer suporte à equipe médica dentro dos hospitais. Estamos fazendo todo o possível para manter os médicos e enfermeiros saudáveis, porque, se eles ficarem doentes, não haverá ninguém para tratar os pacientes. Temos muita experiência em prevenção e controle de infecções no combate às epidemias que enfrentamos em todo o mundo, por isso, estamos ajudando a criar fluxos e processos dentro dos hospitais para garantir que os funcionários estejam protegidos e as pessoas também não contraiam o vírus.

Estamos todos em uma curva acentuada de aprendizado com a COVID-19. Temos especialistas em doenças infecciosas, anestesista e um especialista em medicina de emergência trabalhando lado a lado e aprendendo com os médicos do hospital que estiveram envolvidos na resposta desde o início. Os médicos e enfermeiros aqui estão na vanguarda da epidemia e desenvolveram uma capacidade clínica extremamente valiosa. Podemos aprender com eles para estarmos mais bem preparados para combater esta doença em outros lugares. Já vimos novas abordagens de diagnóstico, como o ultrassom em vez de raios-X para exame pulmonar, que está se mostrando muito mais simples.

Fora dos hospitais, estamos realizando atividades fora de hospitais, junto à população, trabalhando com clínicos gerais e médicos de família para ajudar a tratar as pessoas em suas casas e em lares de idosos. Como todos os hospitais atingiram sua capacidade máxima, não há outra opção senão tratar alguns pacientes com sintomas menos graves em casa. A pneumonia, por exemplo, é uma doença grave, então, tratar um paciente em casa traz mais dificuldades.

Estamos colaborando com as autoridades de saúde locais também no uso de um serviço de telemedicina e tele-vigilância para monitorar pacientes e sua saturação de oxigênio, para intervir rapidamente se a situação se deteriorar.

Todo mundo aqui está trabalhando além do seu limite. Foi incrível ver os profissionais trabalhando o tempo todo, tentando se adaptar, tentando aprender, tentando colaborar para salvar o maior número de vidas possível, enquanto trabalhavam diante de tantas mortes.

Há uma pequena padaria perto da entrada do hospital de Lodi e ontem eu conversei com a padeira. Ela abre às 5 horas da manhã para poder dar um café e um croissant à equipe médica que sai do turno da noite. Ela me disse que muitos médicos e enfermeiras tomam seu café e depois se sentam em um canto e começam a chorar. Eles choram lá para conseguir colocar isso para fora e depois vão para casa, cuidar de suas famílias, sem mostrar o quão difícil está sendo.

Em uma crise como essa, em que as necessidades são esmagadoras, é preciso fazer escolhas difíceis. Em MSF, sabemos muito bem das situações críticas que enfrentamos em todo o mundo.
Continuaremos prestando suporte aqui pelo tempo que for necessário. Também estamos nos preparando para atuar em outras regiões, incluindo aquelas onde a epidemia está apenas começando e onde as medidas de prevenção podem ter um grande impacto.”

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