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Entrevista: Médico brasileiro conta como foi seu primeiro ano de trabalho com MSF

29/09/2006
Prestes a partir em sua quinta missão com MSF, desta vez na Somália, Dr Otávio Omati conta como é a vida de um médico de MSF entre projetos. A partir de hoje, os interessados poderão acompanhar suas atividades por meio do seu 'Diário de Bordo', neste site

Trabalhar em países em situação de emergência, que enfrentam problemas com violência, fome e epidemias, é sabidamente uma tarefa árdua. Mas, quem diria!, ser brasileiro pode ajudar a abrir portas e conquistar a confiança de pacientes. É o que conta o médico anestesiologista Otávio Omati, que acaba de voltar do Sudão. "Sou recebido sempre com muita alegria onde quer que eu vá. Todos adoram o Brasil, principalmente por causa do futebol", afirma.

Com 33 anos, Omati já pôde presenciar os estragos causados por duas catástrofes naturais de proporções gigantescas: a tsunami, que matou 275 mil pessoas na Indonésia em 2004, e o terremoto do Paquistão, que provocou a morte de 57 mil pessoas no ano passado. " Fiquei impressionado com a força da natureza e principalmente com a força do ser humano. As pessoas, que perderam quase tudo, ainda assim queriam dividir conosco o pouco que tinham", lembra o médico paulista.

Prestes a partir em sua quinta missão, desta vez na conturbada Somália, ele conta nesta entrevista como é a vida de um expatriado de MSF entre projetos. Desde a partida do Sudão, último país onde esteve, até a preparação para a missão, que inclui planos de levar feijoada enlatada. Para os que ficarem com gostinho de 'quero mais', basta acessar neste site o 'Diário de Bordo' do médico, que tem início hoje.

Como é a vida de um médico de MSF entre missões? O que você costuma fazer durante este período?
Voltar para casa é sempre um grande prazer. Durante esse período procuro descansar, desfrutar dos momentos com a família e amigos, matar a saudade da comida brasileira e refletir sobre os acontecimentos da última missão. Evito trabalhar, mas às vezes é inevitável.

Quando entrou para Médicos Sem Fronteiras e por quê?
Eu estudava engenharia, mas depois de três anos e desiludido, decidi mudar de rumo e fazer algo que eu achava que me daria maior satisfação pessoal. Entrei para a faculdade de medicina e desde então sonhava em um dia poder trabalhar com os Médicos Sem Fronteiras.
Minha primeira missão com MSF foi em agosto de 2005.

Sua família apoiou sua decisão?
Sim, minha família foi totalmente a favor da minha decisão.

Qual foi sua primeira missão e como foi?
Minha primeira missão foi na Indonésia, em Banda Aceh, região afetada pela tsunami de 2004. Cheguei quase seis meses depois da catástrofe e mesmo assim a destruição na região ainda era visível. É impossível imaginar o quão assustador deve ter sido o dia em que tudo aconteceu. Mesmo assim, meio ano depois, as pessoas estavam sorrindo novamente. A população era muito acolhedora e por isso tive um contato muito próximo com a comunidade local. Éramos convidados para comer, para casamentos tradicionais, para jogar bola ou simplesmente para conhecer suas casas. Fui muito bem recebido e foi muito difícil dizer adeus quando chegou a hora de partir. Dizem que a primeira missão a gente nunca esquece e com certeza nunca esquecerei a minha.

Você esteve recentemente em missão no Sudão, país que está devastado pela violência. Como foi sua experiência?
Foi uma experiência muito enriquecedora, apesar de todas as dificuldades. O povo sofreu muito com a guerra, as pessoas perderam entes queridos, passaram por enormes dificuldades, crianças e mulheres eram vendidas como escravas. Tudo isso se reflete hoje em dia no comportamento das pessoas. A princípio, era difícil manter um contato com as pessoas, mesmo com os pacientes. Não havia empatia ou havia muita desconfiança. Mas na medida em que fomos conquistando a confiança da população, pouco a pouco, a situação foi melhorando e o trabalho foi ficando mais prazeroso. E trabalho não faltava.

Qual foi a experiência mais marcante com MSF até agora?
Estar na Caxemira logo depois do terremoto do ano passado. Fiquei impressionado com a força da natureza e principalmente com a força do ser humano. As pessoas, que perderam quase tudo, ainda assim queriam dividir conosco o pouco que tinham. E nós, vivendo numa sociedade onde o individualismo impera...

A cada missão, uma nova equipe. Como é a relação com seus colegas?
Até agora não tive nenhum problema de relacionamento com meus colegas, que sorte!!! Quando chegamos numa missão, vemos caras novas e algumas já conhecidas. Leva um tempo até que nos acostumemos com o novo ambiente, mas depois de algumas semanas sentimos que somos como uma família. Tive a oportunidade de fazer muitos bons amigos nas missões nas quais trabalhei.

Como é trabalhar com profissionais de todo o mundo? Há problemas culturais?
Este é outro ponto enriquecedor no trabalho com MSF. Aprendemos sobre os costumes e valores de outros países, além da cultura do próprio país onde estamos trabalhando. Trabalhar num ambiente com grande diversidade cultural nos ensina a respeitar e aprender com o outro.

E como é lidar com pacientes que em geral têm condições precárias de vida e valores culturais diferentes do seu?
São pessoas muito simples com quase nenhum conhecimento científico, e por isso tento explicar tudo que estou fazendo ou que vou fazer. Temos que tentar passar algumas noções básicas de higiene e alimentação. Também temos que pensar muito bem antes de dar algum tratamento e explicar muito bem como usar um determinado medicamento (horários e dose). Não adianta nada darmos um medicamento que precisa ser diluído em água, se sabemos que as pessoas não têm acesso à agua potável. No Sudão, todos queriam receber “injeção de penicilina” não importa o problema que tivessem e tínhamos que explicar que este não era o melhor tratamento para o problema que tinham no momento...

Você já foi impedido de realizar alguma operação ou tratamento porque a cultura do país no qual trabalhava não permitia?
Até o momento não, mas sei que isto pode acontecer, como por exemplo com transfusões de sangue.

Durante a missão, você procura conhecer os hábitos culturais locais?
Sempre. Isto é importantíssimo, já que se queremos ser respeitados e bem recebidos temos que respeitar os costumes locais. Além disso, é sempre enriquecedor aprender sobre outros povos e culturas.

Muitas vezes os meios de comunicação nos locais de trabalho apresentam problemas. Como faz para poder manter contato com a família e amigos?
Geralmente temos um telefone que funciona por satélite e podemos mandar e receber e-mails (mas sem acesso à internet). A conta do telefone sai cara no fim do mês, então a melhor maneira de nos comunicarmos é através do e-mail.

Durante as missões, você consegue se manter informado sobre o Brasil?
É um pouco difícil. As informações que recebo vêm da família e amigos.

Você já recebeu algum tratamento distinto por ser brasileiro?
Sou recebido sempre com muita alegria onde quer que eu vá. Todos adoram o Brasil, principalmente por causa do futebol.

Como você se prepara para a próxima missão?
Procuro estudar sobre o país para onde vou, sua história, povo, clima etc. Também estudo quais são os objetivos e as metas do projeto desenvolvido por MSF neste país.

Você recebe treinamento toda vez que é convocado para um novo projeto?
Depende do projeto. Há projetos que não necessitam de treinamento complementar, mas recebemos quando necessário.

Nas missões, você leva coisas brasileiras para matar a saudade do Brasil?
Levo músicas e fotos da família e amigos. Vou tentar levar feijoada em lata para a próxima missão, vamos ver se vai dar certo!

Você costuma 'documentar' suas viagens? Tira fotos ou mantém diário?
Sempre pensei em escrever um diário, mas nunca deu certo... Mas, em compensação, tiro muitas fotos!! Agora não vou ter escapatória e vou escrever um diário!

Como é o processo de volta?
Antes de sairmos da missão, fazemos “debriefings” com a equipe que coordena o projeto no próprio país. Depois passamos pelo escritório em Bruxelas, onde também fazemos os “debriefings”, mas desta vez com a equipe de coordenação geral. Tudo isto para darmos nossa opinião sobre o projeto, nossas impressões, o que fizemos, o que deveríamos ter feito, o que deu certo e o que não, se estamos satisfeitos ou não.

Você está indo para a Somália, outro país que enfrenta graves problemas, como a fome e a falta de segurança. Sente-se apreensivo com relação a isso?
Bastante, principalmente com a falta de segurança. Já sei que só vou poder sair acompanhado por seguranças armados e isto me assusta um pouco.

Como será seu trabalho na Somália? Você já sabe se vai ficar em clínicas fixas ou móveis?
Vou trabalhar num hospital numa cidade chamada Guri-el, perto da fronteira com a Etiópia. Trabalharei com as cirurgias de emergência e treinamento do pessoal local (centro cirúrgico, esterilização e pronto-socorro).

O trabalho com MSF trouxe alguma mudança pessoal para você? Qual?
Sim, aprendi que há coisas nesta vida muito mais valiosas que os bens materiais.

MSF está sempre convocando profissionais para trabalhar em seus projetos. Qual conselho você daria a um médico que quer entrar para a organização?
Não pense duas vezes, você vai ter uma das melhores experiências de sua vida!!!!!