Você está aqui

Entrevista: Dra Marilza Soares fala sobre importância de se investir em saneamento básico

21/02/2005
Nessa entrevista, a pediatra Marilza Soares da Silva Rocha fala que o investimento em saneamento básico traz economias em internações e remédios, e sobre a importância do Programa de Saúde da Família. “É preciso ter uma visão mais ampla do paciente”.

A médica pediatra Marilza Soares da Silva Rocha, que trabalhou para MSF na Unidade Municipal de Assistência Médica Primária de Costa Barros (UMAMP), num projeto em conjunto com a prefeitura do Rio de Janeiro para revitalizar a unidade, entre 1998 e 2001, volta a trabalhar com MSF no Centro de Atenção Integral a Saúde de Marcílio Dias. Ela fala sobre a experiência de trabalhar com MSF, com o Programa de Saúde da Família (PSF), e sobre os problemas causados à população pela falta de saneamento básico em comunidades carentes como Marcílio Dias, no Complexo da Maré, Rio de Janeiro. O PSF é um programa do Ministério da Saúde criado em 1994 para levar cuidados de saúde para mais perto da família, e que tem como prioridade ações de prevenção, promoção e recuperação da saúde das pessoas de forma integral e contínua.

1 – Qual a diferença básica entre os centros implantados por MSF e outros postos de saúde que fazem parte do SUS?

R: Eu acho que a grande diferença é que nos outros postos e centros de saúde onde trabalhei não existia uma preocupação com a educação em saúde. Eles eram mais voltados para o assistencialismo. Só se pensava em tratar a doença e se esquecia do doente. Quando eu comecei com MSF, no final dos anos 90, numa unidade municipal de saúde que MSF ajudou a revitalizar na comunidade de Costa Barros, a visão de saúde era mais holística, mais pensando num paciente como um todo, sua família, sua casa. Depois, MSF repassou o centro para uma organização e eu acabei saindo de lá. Agora, quando MSF me convidou a voltar para Marcílio Dias, comecei a trabalhar da forma como eu trabalhava em Costa Barros. E, além disso, o PSF – Programa de Saúde da Família – que é um programa do Ministério da Saúde e é o que fazemos aqui, também é um programa diferenciado, que permite a você enxergar o paciente como um todo. Você tem uma educação continuada com os agentes comunitários de saúde, você faz visita domiciliar, você consegue entender a dinâmica do paciente: a casa, a família, o trabalho. Você começa a entender vários sintomas que o paciente está sentindo. Porque muitas vezes o problema não está nele, e sim no conjunto de problemas que enfrenta no seu dia-a-dia. Por isso, trabalhar com o PSF e num centro que já tem uma abordagem diferenciada por ser de Médicos Sem Fronteiras está sendo uma experiência muito enriquecedora. Gostaria que todos os médicos pudessem ter essa experiência para que eles pudessem mudar essa visão de saúde. Ter uma visão mais holística, mais ampla do paciente.

2 – E de que forma você acredita que isso afeta positivamente a saúde do paciente?

R: Em vários sentidos. Por exemplo: quando um paciente vem para você com sintoma de cefaléia – dor de cabeça – e você começa a pesquisar e não consegue ver nada físico que possa estar afetando aquele paciente, e você faz uma visita domiciliar, você pode perceber que ele está desempregado, que tem um filho recém-nascido ou uma esposa gestante, ou que tem uma pessoa idosa dependendo daquele paciente. Então, você identifica o porquê daquela cefaléia. Na verdade ele não tem nada físico. A cefaléia dele é preocupação, e aqui felizmente temos como encaminhar aquele paciente para a psicóloga, ou para a assistente social para tentar ajudá-lo a conseguir um emprego ou a inserir aquele paciente num curso profissionalizante. Essa dinâmica, que existe aqui por exemplo, é muito interessante para um médico acompanhar.

3 – Você que já trabalhou em outras comunidades carentes, além de Marcílio Dias e Costa Barros, já deve ter se deparado com uma outra questão que afeta bastante a saúde do paciente que é a falta de saneamento básico. Você acredita que saúde e saneamento básico deveriam vir de forma integrada?

R: Sem dúvida. Uma coisa está ligada à outra. Sem saneamento básico, sem esgoto, sem o tratamento dos dejetos que a casa elimina, a criança vai brincar na vala, vai beber aquela água, e começa a apresentar problemas de pele e outros problemas de saúde. E com o lixo nas ruas vêm os ratos, e com os ratos vem a leptospirose. E o que estamos tentando aqui em Marcílio Dias, onde esse problema é muito comum, é fazer reuniões com as lideranças comunitárias e os nossos agentes comunitários de saúde para ver como podemos limpar essa área. Conversar com a Secretaria de Desenvolvimento Social, com a companhia de limpeza urbana... Mas a comunidade tem que entender que ela também tem que agir. Nós mostramos o caminho, mas são eles que têm que se movimentar para exigir o saneamento básico. Então, muitas patologias como verminose, escabiose e pediculose (sarna), você encontra muito por aqui, porque essas crianças não têm uma praça, um parquinho para brincar, e acabam brincando naquela vala, naquela lama.

4 – Você acredita que não se pode pensar em desenvolver projetos de saúde para comunidades carentes sem projetos de saneamento básico?

R: Sem dúvida nenhuma que não. Porque a própria comunidade tem que aprender a importância disso. Aprender que ela não deve estar jogando o lixo na rua. Aqui, por exemplo, tem coleta de lixo duas vezes na semana. Só que ao invés da comunidade deixar o lixo na porta de casa nos dias em que a coleta vai passar, não. Eles jogam, muitas vezes, o lixo no terreno baldio ao lado de casa. Portanto, você tem que mudar a mentalidade da comunidade. E isso só com um trabalho de educação continuada. Com palestras. Com agentes comunitários de saúde visitando residências, conversando sobre a coleta de lixo, mostrando a importância disso. E isso é uma coisa simples que as unidades públicas deveriam estar fazendo e que Médicos Sem Fronteiras faz.

5 – E você acredita que ainda há um grande problema de saneamento básico no Brasil?

R: Com certeza. Mas se você informar aquela comunidade, mostrar os caminhos, as coisas andam. Porque ela começa a exigir os seus direitos. Aí, o governo começa a ser cobrado de uma coisa que já deveria ter sido feita. E os nossos governantes começam a mudar também a sua mentalidade.

6 – Saneamento básico é um investimento que traz ganhos para a saúde da população e conseqüentemente um investimento que fará com que o governo economize adiante com gastos em saúde?

R: O gasto vai ser grande para fazer o saneamento? Vai. Muitos governantes não fazem pensando nisso. Mas eles se esquecem que o gasto que os governos têm com as internações em hospitais, com os atendimentos nos postos, com remédios, é muito maior do que o gasto que ele vai ter com saneamento básico. Muitas vezes até paga o gasto que o governo teve com as obras de saneamento.

7 – Em nível pessoal, qual o ganho que você teve ao vir trabalhar com comunidades carentes?

R: Eu diria que estou ganhando desde que comecei a trabalhar com Médicos Sem Fronteiras e com esse programa do Ministério da Saúde que é o programa de Saúde da Família. Não só pessoal, mas também profissional. Porque eu consigo ver o paciente de uma outra forma. Antes, quando eu fazia pediatria, eu me importava apenas com aquela criança e com aquela mãe. Mas hoje eu me importo também com o pai, com o avô, com a irmã adolescente. Então, eu consigo ter uma visão mais ampla e consigo dar um melhor diagnóstico. Você vai para casa mais satisfeita. E fico com a certeza de que aquela mãe que eu atendi também está mais satisfeita, porque eu estou me preocupando com a família dela. E essa troca de carinho é uma coisa muito boa. Só quando nós fazemos o Programa de Saúde da Família é que você pode fazer a comparação e perceber que o PSF é uma das principais soluções para a saúde no Brasil e no mundo.