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Entrevista com um brasileiro que coordena o programa de saúde mental de MSF na Caxemira

24/06/2003
O paulista Renato Souza conta como é o dia-a-dia de uma população que vive sob forte e constante stress. Há 14 anos, a Caxemira é o pivô de uma disputa entre Índia e Paquistão. Conflitos na região já mataram mais de 30 mil pessoas na última década.

Renato Souza nasceu em Santos, SP. Médico psiquiatra formado pela USP, trabalhou em hospitais psiquiátricos de São Paulo e coordenou o serviço de saúde mental de um hospital privado. Há 8 meses, Renato coordena o programa de saúde mental desenvolvido por Médicos Sem Fronteiras na Caxemira, região situada na Cordilheira do Himalaia. Pivô de uma disputa entre Índia e Paquistão, a região vive um conflito que já matou pelo menos 30 mil pessoas na última década.

Como você começou a trabalhar com MSF?

Fiz entrevistas nos escritórios de MSF-França e MSF-Holanda e vi que o estilo de trabalho de MSF-Holanda é mais parecido com o que acredito como saúde mental deve ser implementada, treinando pessoas locais a ajudar sua própria população. Desta maneira aceitei trabalhar com MSF-Holanda num programa de saúde mental na Caxemira administrada pela Índia.

Como é o dia-a-dia da população em uma região sob tanta tensão como a Caxemira?

A população vive num clima de medo e insegurança. A vida está em risco a cada minuto do dia. Quando um pai de família vai trabalhar pela manhã, sua esposa teme que ele não volte no final do dia. Há o risco de estar no lugar errado na hora errada. Há também o total desequilíbrio na economia da região. Conhecida como um dos lugares mais bonitos do planeta, e sobrevivendo principalmente de turismo, nos
últimos anos as pessoas não tem emprego. Sair nas ruas à noite é algo praticamente impossível.

De que forma a tensão na região afeta a saúde física e mental dos moradores?

Afeta não somente o individuo mas também a estrutura comunitária. No nível do indivíduo, as pessoas vivendo neste clima de medo e insegurança apresentam vários sintomas da esfera psicológica. Sintomas de ansiedade como tremores, taquicardia, sudorese e ataques de pânico;sintomas de depressão como tristeza, desânimo e apatia são muito freqüentes também. Dores de cabeça tensionais, dores pelo corpo, dificuldade para dormir, pesadelos e reações de alarme são encontrados em quase todas as vilas que visitamos. Ao nível da comunidade, nós podemos presenciar também alterações influenciadas direta ou indiretamente pelo conflito na Caxemira. No passado era muito freqüente que vizinhos se reunissem no final do dia e discutissem os fatos do dia e seus problemas, as celebrações religiosas eram também compartilhadas por todos. Apos 14 nos de conflito, as pessoas passaram a se isolar e não expressar seus problemas para amigos, familiares e vizinhos. Casamentos que eram comemorados por vários dias e durante a noite toda tiveram que ter sua duração limitada. A alteração na estrutura comunitária limita a maneira que as pessoas podem expressar seus problemas e como conseqüência os níveis de tensão no indivíduo e na comunidade também aumentam. Há um aumento de disputas entre vizinhos e familiares também. Não há mais válvula de escape.

O que MSF faz para lidar com esta situação? Como é o trabalho desenvolvido?

Tentamos atuar em ambos os níveis. Num primeiro momento tentamos informar a população sobre a causa e os fatores que influenciam o stress e a tensão presentes nos indivíduos e na comunidade. Só de receber informação, muitas pessoas já se sentem bem melhor, pelo simples fato de saberem que esta reação em nosso sistema psicológico é normal, o ambiente no momento é que e anormal. Num segundo nível, também oferecemos aconselhamento para pessoas que não conseguem controlar os sintomas psicológicos. Isto é feito por pessoas locais treinadas e supervisionadas pela equipe de MSF. Tentamos também restabelecer a harmonia nas comunidades. Trabalhamos com um grupo teatral local e os levamos para vilas onde pessoas podem se entreter e também se divertir com o teatro local que transmite a mensagem de bem-estar psicossocial. Temos também um programa no radio que tenta informar a população sobre os problemas psicológicos mais prevalentes na Caxemira e como uma pessoa pode se ajudar com técnicas bem simples como técnicas de respiração e relaxamento. Como somos uma equipe de saúde mental também tentamos melhorar as condições dos pacientes que vivem no único hospital psiquiátrico da região. Trabalhamos com os pacientes em atividades ocupacionais e tentamos implementar alguns protocolos clínicos com os psiquiatras trabalhando neste hospital. O objetivo é que os pacientes tenham melhores condições no ambiente que eles vivem e também que o tratamento clínico seja coerente e de acordo com padrões aceitáveis.

Qual é o seu papel no projeto?

Coordeno do ponto de vista clínico todo este trabalho da equipe aqui em Srinagar, capital da Caxemira administrada pela Índia. Sou responsável pela implementação do projeto psicossocial e dou supervisão clínica às pessoas que oferecem aconselhamento psicológico. Sou editor do programa de rádio e tento, a todo momento, adaptar o trabalho psicológico levando em conta a riqueza cultural desta região.