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Enquanto a GAVI se reúne para avaliar progressos e olhar adiante, MSF aponta mudanças políticas necessárias

28/10/2013
Organização aponta quatro áreas-chave para que aliança beneficie populações vulneráveis no longo prazo

 28 de outubro de 2013 - Diversas mudanças políticas essenciais são urgentemente necessárias na Aliança Mundial para Vacinas e Imunização (GAVI) para ajudar na redução do número de crianças não beneficiadas por vacinas globalmente (22,6 milhões em 2012), afirmou a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF), antes do encontro a ser realizado para avaliação do progresso da aliança em Estocolmo.

“Nós apoiamos completamente a missão da GAVI de trazer novas vacinas para crianças de países em desenvolvimento, mas acreditamos que a aliança poderia melhorar seu trabalho em diversas áreas, de forma que mais crianças possam ser protegidas das doenças letais da infância”, declarou o Dr. Manica Balasegaram, diretor executivo da Campanha de Acesso a Medicamentos de MSF. “Os atores humanitários ainda não conseguem ter acesso às vacinas com os preços da GAVI para agirem rapidamente em emergências. Os preços de vacinas, em geral, ainda são muito altos para que os países possam adquiri-los no longo prazo, e a GAVI não está fazendo o suficiente para auxiliar as necessidades de vacinação de crianças mais velhas.”


MSF identificou quatro áreas-chave nas quais mudanças na GAVI poderiam fazer uma diferença importante:
 
• Tornando os preços da GAVI acessíveis para atores humanitários: atualmente, a GAVI não permite que atores humanitários, como MSF, tenham acesso aos menores preços globais para vacinar populações em situação de crise que, de outra forma, não seriam beneficiadas. Foram necessários 11 meses para que MSF encontrasse caminhos para superar os obstáculos burocráticos e obter, finalmente, a vacina pneumocócica para crianças em um campo de refugiados no Sudão do Sul, onde as taxas de mortalidade estavam altas. O fato de que a GAVI não inclui organizações não governamentais e humanitárias em suas negociações de preço fez com que refugiados não tivessem acesso ao benefício das novas vacinas. A GAVI deveria estender seus preços a ONGs e agir urgentemente para o desenvolvimento de uma política que facilite o uso de novas vacinas entre os refugiados e as populações afetadas por crises.
 
• Pressionando mais pela redução dos preços das vacinas: no melhor cenário, o custo para vacinar uma criança aumentou 2.700% desde 2001 (de US$1,38 em 2001 para os US$ 38,80 atuais). A preocupação de que não poderão arcar com os custos das vacinas e terão de pagar até 20 vezes mais pelas novas vacinas, uma vez que a GAVI suspenda seu suporte no início de 2015, está crescendo entre os países – muitos deles onde MSF tem projetos. Os altos preços prejudicam a sustentabilidade dos programas de imunização e poderiam forçar os governos a tomar importantes decisões acerca de para quais doenças serão destinados recursos para proteger as crianças. A GAVI deve fazer mais para baixar os preços por meio de negociações mais sagazes e transparentes com companhias farmacêuticas multinacionais e ajudando na rápida entrada de novas vacinas, produzidas por emergentes, no mercado.
 
• Estendendo a vacinação para crianças com mais de um ano: embora a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomende a vacinação de crianças com mais de 11 meses que não tenham tomado todas as vacinas necessárias, a GAVI somente adquire vacinas para programas de imunização de rotina para crianças com até um ano. Isso significa que uma criança com mais idade que chegue a uma clínica e não tenha concluído sua série de imunização não teria acesso ao benefício essencial das vacinas. Isso representa uma oportunidade perdida de proteger as crianças completamente contra essas doenças vilãs da infância, que frequentamente resultam em surtos fatais de doenças evitáveis. A GAVI deveria revisar o suporte que presta aos países para que eles possam implementar as recomendações da OMS.
 
• Incentivando o desenvolvimento de vacinas que não dependam integralmente da cadeia de frio: hoje, a vasta maioria das vacinas precisa ser mantida entre 2 e 8 graus Celsius até serem aplicadas. Isso demanda uma logística extremamente complexa de cadeia de frio para os Ministérios da Saúde e provedores de serviços médicos, como MSF, em lugares onde as temperaturas ultrapassam facilmente 40 graus Celsius, e onde o suprimento de eletricidade é instável ou não existente. A vacina MenAfriVac contra  meningite A foi reembalada, o que tornou possível mantê-la a até 40 graus Celsius por até quatro dias, facilitando enormemente as demandas logísticas em regiões quentes e remotas. É preciso mais pesquisa para investigar como as outras vacinas poderiam seguir o mesmo caminho, para facilitar a vacinação de crianças em locais de difícil acesso. A GAVI precisa desempenhar um papel mais ativo no incentivo de esforços como esse para que vacinas mais simples de usar tornem-se disponíveis.
 
“Acreditamos que a GAVI deva ser aplaudida por muitas de suas realizações durante a última década, mas também pensamos que é muito importante que a aliança avalie de forma mais crítica e próxima os aspectos que podem ser melhorados”, afirma Kate Elder, referente de políticas sobre vacinação da Campanha de Acesso a Medicamentos de MSF. “Acreditamos que uma GAVI ambiciosa e inclusiva que batalhe para moldar os mercados, produtos e preços, seja essencial para ajudar o mundo a atingir seus objetivos voltados para a imunização e para a prevenção de doenças para os mais vulneráveis.”
 
MSF vacinou cerca de 700 mil pessoas contra o sarampo e cerca de 500 mil contra meningite em 2012.