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Enfrentamento da tuberculose precisa ser acelerado, afirma relatório

05/07/2017
Documento de MSF e da Stop Tb Partnership analisa políticas para a doença em 29 países, incluindo o Brasil; tuberculose é doença infecciosa mais mortal do mundo
Enfrentamento da tuberculose precisa ser acelerado, afirma relatório

Foto: Giorgos Moutafis

Dois dias antes na cúpula do G20 na Alemanha, a organização médico-humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) e a Stop TB Partnership divulgaram hoje a terceira edição de “Out of Step” (Descompasso, em tradução livre), um relatório que ressalta a necessidade de os governos aumentarem seus esforços de combate à tuberculose. O relatório examina as políticas e práticas para a tuberculose em 29 países [1] – que correspondem a 82% da carga global da doença, segundo classificação da Organização Mundial da Saúde (OMS) – e mostra que os países podem fazer mais para prevenir, diagnosticar e tratar pessoas afetadas pela tuberculose.

Apesar de a tuberculose ser evitável e tratável, ela continua sendo a doença infeciosa mais mortal do mundo. Apenas em 2015, 1,8 milhão de pessoas morreram de tuberculose. Em 2015, 54% das 10,4 milhões de pessoas com tuberculose viviam em países representados no G20. Apesar disso, a maioria dos países está atrasada na implementação das novas ferramentas disponíveis para enfrentar a tuberculose. Na cúpula do G20, os governos devem incluir a tuberculose nos seus esforços para lidar com o problema mais amplo das infecções resistentes a medicamento.

“A tuberculose mata há muito tempo, mas temos o conhecimento e as ferramentas para enfrentar essa doença; muitos países não estão fazendo uso desses avanços, e as pessoas estão morrendo por isso”, disse Lucica Ditiu, diretora executiva da Stop TB Partnership. “Pedimos aos líderes do G20 que acordem e façam alguma coisa para parar as mortes desnecessárias e a disseminação da tuberculose, incluindo na forma resistente a medicamentos.”

A lacuna no diagnóstico continua enorme. Dos 29 países analisados, apenas 7 [2] tornaram amplamente disponível o Xpert MTB/RIF – um teste molecular rápido para diagnosticar a tuberculose e testar a resistência aos medicamentos de primeira linha contra a doença. Isso significa que a maioria das pessoas nos 29 países ainda é examinada com um método que não detecta muitos casos, ou que exige uma esperar de vários meses para confirmar a doença. Essa lacuna explica por que tanta gente continua sem diagnóstico e tratamento; em 2015, com base na diferença entre a incidência estimada de tuberculose e os casos notificados, estimou-se que 4,3 milhões de pessoas com a doença nunca foram diagnosticadas.

“Como se espera que as pessoas sejam tratadas se elas nem sequer conseguem ser diagnosticadas?”, perguntou o dr. Issac Chikwanha, assessor médico para HIV e tuberculose da Campanha de Acesso a Medicamentos de MSF. “Se os países não fizerem mais para garantir que as pessoas tenham acesso a exames, será impossível reduzir as mortes evitáveis por tuberculose.”

Houve progresso na direção de fazer com que as pessoas com tuberculose tenham acesso a novos tratamentos que são mais eficazes e mais fáceis de suportar.

A hospitalização por períodos extensos pode limitar a capacidade da pessoa de ter uma vida normal e deve ser reservada somente para os pacientes com tuberculose resistente em estado mais grave. O relatório mostrou que 34% dos países pesquisados ainda exigem longas internações para o tratamento da tuberculose resistente. Novos medicamentos para o tratamento da tuberculose resistente tiveram resultados melhores do que os atuais regimes de tratamento, que oferecem índices de cura de apenas 28% no caso da tuberculose ultrarresistente e de 52% no caso da tuberculose multirresistente. Dos países analisados, 79% incluíram a nova droga bedaquilina nos seus protocolos nacionais, e 62% incluíram a delamanida; globalmente, entretanto, apenas 5% das pessoas que poderiam ter se beneficiado desses medicamentos tiveram acesso a eles em 2016.

O tratamento da tuberculose resistente, que em alguns casos exige que o paciente tome 15 mil comprimidos num período de dois anos, pode ser reduzido agora para nove meses. Tratamentos mais curtos ajudam as pessoas a retomarem sua vida normal mais rápido. Porém, apenas 13, ou 45%, dos 29 países [3] analisados tornaram disponíveis os tratamentos mais curtos.

“O relógio está correndo rápido, porque a cada 18 segundos uma pessoa morre de tuberculose. Temos que mudar isso”, disse Sharonann Lynch, assessora de políticas para HIV e tuberculose da Campanha de Acesso. “O número de pessoas diagnosticadas nos últimos quatro anos estagnou, enquanto o número de mortes aumentou em vez de diminuir. Os países precisam usar ferramentas novas para aumentar o ritmo de sua resposta.”

Os governos do G20 são os maiores contribuintes da resposta global à tuberculose, com mais de 1,6 bilhão doado para o Fundo Global de Combate a Aids, Tuberculose e Malária em 2016. Os líderes do G20 precisam agora mobilizar seus recursos para que mais pessoas sejam diagnosticadas, recebam tratamentos eficazes e para que as mortes por tuberculose sejam reduzidas.

MSF e a Partnership Stop TB lançaram uma campanha para que os governos ajustem suas políticas e práticas para a tuberculose de acordo com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), chamada #StepUpforTB (www.stepupfortb.org).

NOTAS

[1] Armênia, Afeganistão, Bangladesh, Belarus, Brasil, Camboja, República Centro-Africana, China, República Democrática do Congo (RDC), Etiópia, Geórgia, Índia, Indonésia, Cazaquistão, Quênia, Quirguízia, Moçambique, Mianmar, Nigéria, Paquistão, Papua Nova Guiné, Filipinas, Federação Russa, África do Sul, Suazilândia, Tajiquistão, Vietnã, Ucrânia e Zimbábue
[2] Armênia, Belarus, Brasil, Geórgia, África do Sul, Suazilândia e Zimbábue
[3] Afeganistão, Bangladesh, Camboja, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Quirguistão, Mianmar, Papua Nova Guiné, Filipinas, Suazilândia, Tajiquistão, Vietnã e Zimbábue

MSF é uma organização internacional médico-humanitária independente que presta cuidados de saúde a pessoas afetadas por conflitos armados, epidemias, dessas naturais e exclusão do acesso à saúde. Fundada em 1971, MSF tem operações em mais de 60 países e vem tratando pessoas com tuberculose nos últimos 30 anos. Em 2016, MSF tratou mais de 20 mil pessoas com tuberculose, incluindo 2.700 com tuberculose multirresistente.

A Stop TB Partnership e seus 1.600 parceiros são uma força coletiva que está transformando a luta contra a tuberculose em 110 países.
 
DESTAQUES DO RELATÓRIO “OUT OF STEP” (DESCOMPASSO)

A doença infecciosa mais mortal do mundo deve finalmente ter a atenção que necessita
 
•    Ainda que a tuberculose seja evitável e tratável, é a doença infecciosa mais mortal do mundo. Em 2015, 1,8 milhão de pessoas morreram da doença.
•    Muitos países estão atrasados no combate à doença, no que diz respeito à introdução de ferramentas modernas de tratamento e à implementação das políticas internacionalmente recomendadas.
•    Pela primeira vez, a saúde global está incluída na agenda da cúpula do G20, que acontecerá nos dias 7 e 8 de julho em Hamburgo. A Declaração dos Ministros da Saúde feita durante a preparação da cúpula reconheceu que a tuberculose deve estar no centro dos esforços contra as infecções resistentes a medicamentos.

O que é o relatório Out of Step

•    É um levantamento sobre políticas de prevenção, diagnóstico e tratamento da tuberculose em 29 países , que representam 82% da carga global de tuberculose, como definida pela OMS (uma combinação do número absoluto de casos e do número de casos proporcional à população).
•    Os relatórios Out of Step foram criados para identificar lacunas e monitorar o progresso na adoção de padrões internacionais para as políticas e práticas nacionais de tuberculose.
•    A primeira edição, publicada em 2014, monitorou oito países; a segunda, publicada em 2015, cobriu 24 países.
•    A edição de 2017 do Out of Step cobre cinco áreas essenciais: diagnóstico, modelos de cuidados, tratamento para tuberculose e tuberculose resistente a medicamentos, regulação medicamentosa e prevenção.

PRINCIPAIS CONCLUSÕES

40% das pessoas que vivem com tuberculose não são diagnosticadas ou tratadas

•    A lacuna nos diagnósticos é maciça: em 2015, mais de 4 milhões de pessoas viviam com tuberculose não diagnosticada.
•    15 (52%)  dos países analisados no relatório introduziram o Xpert MTB/RIF, um exame molecular rápido que pode detectar a forma resistente da doença, como teste inicial para diagnóstico da tuberculose; porém, apenas 7 desses países  aplicam esse exame de forma ampla.

Países estão demorando a introduzir novos tratamentos para tuberculose

•    Apenas quatro países  analisados introduziram, de forma ampla, medicamentos pediátricos em doses fixas combinadas, que são mais fáceis de serem usados e ministrados a crianças.
•    Em certas condições e para as pessoas elegíveis, a duração dos tratamentos de tuberculose multirresistente pode ser reduzida para nove meses. Apenas 13 países (45%)  do relatório recomendam esses tratamentos em seus protocolos; nenhum deles disponibilizou o tratamento amplamente.
•    79% (23)  dos países analisados no relatório incluíram o medicamento mais novo, a bedaquilina, em seus protocolos nacionais, e 62% (18)  dos países incluíram a delamanida.
•    Globalmente, apenas 5% das pessoas que vivem com tuberculose resistente têm acesso a regimes de tratamento que incluem os novos medicamentos.

Aproximar as pessoas do tratamento: um longo caminho a percorrer

•    Mais de 80% dos países (24)  analisados no relatório recomendam que pacientes com tuberculose sensível a medicamentos comecem o tratamento próximo a suas casas, na rede de cuidados primários de saúde; 20 desses países implementaram essa política amplamente .
•    19 dos países  incluíram em suas políticas nacionais o início do tratamento da tuberculose resistente em nível distrital, mas apenas 11  desses países implementaram essa recomendação de forma ampla.

Sobre os responsáveis pelo relatório

•    MSF vem tratando pessoas com tuberculose há cerca de 30 anos, e mantém projetos de tratamento em 24 países. Em 2016, MSF apoiou mais de 20 mil pacientes com tuberculose, incluindo 2.700 pacientes com formas resistentes a medicamentos. MSF é uma das organizações não governamentais que mais oferece tratamentos contra a tuberculose resistente.

•    A Stop TB Partnership foi fundada em 2001 e conta com uma rede de mais de 1.600 parceiros. Seus programas incluem o Global Drug Facility (Estrutura Global de Medicamentos), que oferece medicamentos e diagnósticos de tuberculose certificados, acessíveis e de qualidade para diversos países do mundo, e o TB Reach, que já ajudou a diagnosticar mais de 2 milhões de pessoas com tuberculose. A Stop TB Partnership opera por meio de um secretariado hospedado pelo Unops (Escritório das Nações Unidas para Serviços e Projetos) em Genebra, na Suíça, e é governada por um conselho de coordenação que define orientações estratégicas para a luta global contra a tuberculose.

 

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