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Enfermeiros estão na linha de frente em projeto contra doenças não transmissíveis no Zimbábue

28/09/2020
Profissionais são aptos a diagnosticar, iniciar tratamento e monitorar pacientes com diabetes e hipertensão
Enfermeiros estão na linha de frente em projeto contra doenças não transmissíveis no Zimbábue

Foto: Tsvangirayi Mukwazhi

As doenças não transmissíveis (DNTs) representam 31% do total de mortes no Zimbábue, sendo diabetes, hipertensão e asma as principais causas. O país tem enfrentado uma série de desafios que resultaram na deterioração de muitos setores, principalmente o sistema de saúde. Os profissionais estão sobrecarregados e os médicos, especialmente nas áreas rurais, são poucos. Milhões de zimbabuanos estão desconectados das redes de saúde, moram longe das grandes cidades e não podem pagar as despesas de viagem e até mesmo o tratamento.

Durante o último censo realizado pelo governo, em 2010, havia 1,6 médico e 7,2 enfermeiros para cada 10 mil pessoas.  Na província de Manicaland, como em todas as áreas rurais do Zimbábue, as equipes de enfermagem estão na linha de frente do sistema de atenção primária à saúde (APS).   

Desde 2016, MSF colabora com o Ministério da Saúde e Cuidado Infantil (MoHCC) para testar um modelo de cuidado adaptado ao ambiente local para lidar com a dupla carga de diabetes, hipertensão e HIV na província rural de Manicaland. O projeto-piloto usou lições valiosas aprendidas com o sucesso do programa de HIV, em escala nacional e internacional, nas últimas duas décadas.

“Em Manicaland, as pessoas precisam de cuidados nas suas comunidades. Diabetes e hipertensão são tratáveis, mas precisávamos de um modelo de atendimento que refletisse as suas necessidades. Não é sobre o que nos falta. Trata-se de usar o que está disponível em Manicaland. Nesse caso, nos envolvemos com a comunidade e nos empoderamos”, diz o enfermeiro mentor de MSF, Munyaradzi Mapungwana.

Normalmente, as diretrizes de gestão de DNTs consideradas de melhor qualidade baseiam-se em modelos ocidentais de atendimento, como os dos Estados Unidos. Essa abordagem requer equipes multidisciplinares que ofereçam atendimento especializado e individualizado, com uso intensivo de recursos. Esse modelo é impossível de ser replicado no Zimbábue.

No projeto-piloto, por meio de orientação intensiva estruturada, incluindo protocolos e treinamentos simplificados, os enfermeiros em sete unidades de Atenção Primária à Saúde (APS) e um hospital desenvolveram o conhecimento e as habilidades para diagnosticar, iniciar tratamento e monitorar pacientes com diabetes e hipertensão.

Um dos médicos envolvidos no projeto é Brian Nyagadza. “No Zimbabué, os médicos normalmente fazem a gestão das DNTs. MSF viu o desafio desse modelo, já que há poucos médicos nessas áreas. Assim, pretendíamos mostrar que é possível ao enfermeiro diagnosticar e controlar diabetes e hipertensão. Os 35 enfermeiros, incluindo os de MSF e do Ministério da Saúde, envolvidos em nosso programa provaram que este modelo é um sucesso para Manicaland.”

Estudo de gerenciamento de DNTs conduzido por enfermeiros de MSF

No geral, mais de 3 mil pacientes estão registrados em um sistema dedicado. Durante a duração do projeto, MSF forneceu medicamentos gratuitos, incluindo recargas periódicas, e monitoramento regular da pressão arterial e da glicose no sangue.

A adaptação de modelos de tratamento de HIV para estabelecer programas de DNTs liderados por enfermeiros não é nova. No entanto, persistem lacunas significativas no que diz respeito à implementação prática de uma abordagem de saúde pública na gestão de DNTs. MSF viu uma oportunidade de melhorar e desenvolver novas políticas de saúde coerentes e procedimentos operacionais padronizados. Parte dessa meta é garantir o acesso a medicamentos e criar estratégias que maximizem o envolvimento da comunidade.

“Para MSF e o Ministério da Saúde, esse foi um projeto inovador. Isso marcou o primeiro modelo de tratamento de DNTs liderado por enfermeiros a ser testado no Zimbábue”, afirma Marthe Frieden, médica de MSF, uma das autoras do estudo que acompanhou as descobertas e os sucessos do programa-piloto. “Nosso objetivo foi preencher a lacuna entre saber e fazer, colocando em prática a ideia de uma abordagem de saúde pública no controle do diabetes e da hipertensão, seguindo o exemplo do programa HIV/ART, simplificando e padronizando a abordagem. Agora, temos a prova de que aqui no Zimbábue os enfermeiros podem ter autonomia para fornecer cuidados de qualidade para as DNTs, da mesma forma que aprenderam a tratar o HIV anos atrás”.

Oportunidade para o Zimbábue

MSF incentiva o Ministério da Saúde e Cuidado Infantil a manter e replicar esse modelo de assistência médica para DNTs em todo o país. Nossa experiência mostra que os profissionais de saúde estão prontos, capazes e dispostos a participar. Hoje, com as DNTs no topo da agenda internacional, MSF acredita firmemente que o governo deve desenvolver essa história de sucesso. Durante uma época em que as pessoas com doenças crônicas correm um risco maior de morte devido à COVID-19, o governo tem ainda mais motivos para desenvolver as capacidades das comunidades rurais para integrar totalmente enfermeiros e pacientes no gerenciamento de cuidados de DNTs.
MSF está em Manicaland desde 2016, oferecendo tratamento, cuidado e suporte para pacientes com DNTs, como diabetes e hipertensão, principalmente em Chipinge e Mutare, usando um modelo liderado por enfermeiros, introduzindo modelos de prestação de serviços diferenciados (DSD) e analisando onde algoritmos simplificados podem ser aplicados. O projeto será entregue ao Ministério da Saúde e Cuidado Infantil em dezembro de 2020.

 

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