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Enfermeiro carioca coordena atividades médicas em Darfur

02/06/2008
Na região desde abril deste ano, Mauro Nunes conta em Diário de Bordo quais são os desafios enfrentados para levar assistência em um contexto instável

Viciado em trabalho humanitário. Assim se define o enfermeiro sanitarista Mauro Nunes, que em abril assumiu o posto de coordenador médico do projeto de Médicos Sem Fronteiras no Sudão. "Nosso principal desafio é dar conta do trabalho e planejar a longo prazo em cima de uma situação instável que muda a cada dia", explica o profissional.

Com longa experiência na organização, Mauro participou do primeiro projeto realizado no Brasil, na região amazônica em 1991. Agora, coordena uma equipe de mais de 300 funcionários, entre estrangeiros e sudaneses, que leva cuidados de saúde a uma população que enfrenta uma das mais terríveis crises humanitárias atuais. Em seu Diário de Bordo, ele conta mais sobre a experiência. Abaixo, uma entrevista com o profissional.

Como é o projeto no qual você está?
Mauro Nunes - Atualmente estou trabalhando como coordenador médico de MSF no Sudão. A missão tem como objetivo principal atender às necessidades humanitárias básicas resultantes do crônico conflito armado em função da instabilidade causada pela luta pelo poder entre o governo, diversos grupos políticos e rebeldes. Meu trabalho consiste em coordenar todas as atividades médicas no país, desde a elaboração e controle da política médica de intervenção, vigilância epidemiológica e preparação para emergências, ao apoio e suporte técnico e operacional aos profissionais do terreno, passando pela seleção dos Recursos Humanos da área de saúde (nacionais e estrangeiros), até a supervisão do desenvolvimento dos projetos e mesmo o acompanhamento da saúde dos funcionários e seus dependentes.

Que tipo de serviços MSF fornece à população em Darfur?
Nunes - A intervenção é baseada nas necessidades de saúde de uma forma ampla e abrangente. Em Darfur, temos um trabalho de clínicas móveis com uma equipe que faz atendimento médico, de enfermagem, consultas pré-natal, apoio a vítimas de violência de gênero e/ou sexual no chamado Corredor Norte (região ao norte de Darfur Oeste, fronteiriça com o Chade). Uma outra equipe está apoiando o Hospital de Golo e o Centro de Saúde de Killin na região montanhosa de Jebel Marra, com consultas ambulatoriais, serviço de internação, centro nutricional de tratamento intensivo e maternidade. Em breve, estaremos pondo em funcionamento também o setor cirúrgico no Hospital de Golo. O que vale ressaltar é que em ambos os projetos atendemos a população civil de várias origens étnicas e forças políticas diferentes (árabes, Massalits, Fur, áreas governamentais, sob controle de rebeldes, Janjaweeds, etc) de forma a estar sempre demonstrando a neutralidade e a imparcialidade de nossa atuação.

Essa é sua primeira vez como coordenador médico no terreno?
Nunes - Não. Quando trabalhei na Nigéria, acumulava as funções de coordenador nacional e coordenador médico. No Brasil, estive à frente da coordenação médica de MSF por quase seis anos.

Quais são seus principais desafios?
Nunes - Dar conta do trabalho e planejar a longo prazo em cima de uma situação instável que muda a cada dia. Você nunca sabe o que o dia seguinte te reserva... Mas ainda assim tem que planejar tudo e estar preparado pra seja lá o que for. Outro desafio importante é a língua (a maioria do país só fala árabe)

Quantas pessoas você administra?
Nunes - Varia muito, mas são em torno de 40 profissionais estrangeiros e 300 nacionais. São tantas nacionalidades diferentes! Aqui tem profissionais da Suíça, França, Alemanha, Áustria, Inglaterra, USA, Espanha, Austrália, Etiópia, Canadá, Kenya, e está chegando gente do México e mais uma brasileira.

Qual foi sua maior dificuldade no terreno?
Nunes - Entender como um ser humano pode se comportar de certa maneira com outro, sendo capaz de inflingir tanta dor e sofrimento à pessoas inocentes. Na maioria das vezes, por nada ou sem mesmo saber porquê.

Tem algo no Sudão que particularmente te marcou?
Nunes - A passividade com que a população local e a comunidade internacional encara o conflito. É quase “natural” se preparar para a “época da fome”, estar preparado para a epidemia de cólera, de meningite. Outra coisa que me marcou muito é o calor escaldante do deserto, combinado com a proibição de bebidas alcóolicas. Encarar 45o graus sem uma gelada é muito difícil! (risos)

Como um brasileiro é visto no Sudão?
Nunes - No Sudão, como no restante do mundo, assim que sabem que você é brasileiro, perguntam logo pelo futebol. Em geral, todos são muito fãs do futebol brasileiro. E todos querem saber se a gente conhece o Ronaldinho...

Você já trabalhou em outros projetos de MSF. Qual achou mais interessante? E por quê?
Nunes - Apesar de já ter passado em muitos países, os projetos mais longos foram em Moçambique, Angola, Nigéria, Indonésia, Sudão e aqui mesmo no Brasil. Todos os países são interessantes. Cada um a seu modo, com sua cultura, sua história, seu povo. É sempre uma experência gratificante e edificante, tanto como profissional, quanto como pessoa. A gente sempre tem o que aprender. Eu particularmente sempre “trago um pouquinho” de todas as culturas com as quais tive oportunidade de conviver pra minha vida cotidiana. Mas se tenho que escolher, os projetos onde achei mais interessante trabalhar foram em Angola e na Nigéria, por encontrar tantos traços e raízes da cultura brasileira na sua origem. Na Nigéria, acabei sendo até agraciado com um título de “nobreza”. Fui condecorado com toda a pompa como “Chief” (algo assim como “Sir” na Inglaterra) Ba’Wosan de Apapa & Imoorè, que quer dizer: Pai dos Cuidados de Saúde da Comunidade, pelo rei Haruna Okikiola II, em Lagos.

Que conselho daria a alguém que quer ingressar em MSF?
Nunes - Não perca a oportunidade! Além de ser um trabalho gratificante, como todo trabalho humanitário e social é, simplesmente pelo bem que se pode levar a outra pessoa, e de grande satisfação profissional, ainda se tem a chance de visitar lugares e países distantes, culturas riquíssimas e exóticas, conhecer diversos tipos de povos e pessoas, se tornar um verdadeiro “cidadão do mundo”. O único (e maior!) perigo, é se tornar, como eu e a maioria dos meus amigos de MSF, “viciado” no trabalho humanitário. Chegar ao cúmulo de, ao tirar as tão merecidas férias, ao invés de ir procurar uma praia tranquila no Nordeste pra ir descansar embaixo dos coqueiros...se candidatar pra uma missão de coordenador médico no Sudão!