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Enfermeira gaúcha fala sobre sua primeira missão na Somália

08/04/2008
Ana Lúcia Silva passou dois meses trabalhando na unidade de MSF em Huddur, tratando de pacientes com tuberculose

Devido à grande instabilidade política e constantes ondas de violência, a atuação de atores humanitários na Somália tem se tornado cada vez mais difícil. A enfermeira gaúcha Ana Lúcia Silva, de 26 anos, pôde vivenciar o problema. Recrutada para trabalhar na cidade de Huddur por nove meses, viu sua missão ser suspensa no segundo mês devido a um ataque realizado contra um veículo de Médicos Sem Fronteiras (MSF), no qual três integrantes da organização foram mortos.

Apesar dos problemas, ela afirma que os esforços valem a pena. "Atendemos uma paciente que estava muito doente, muito magra. Um mês depois de iniciar o tratamento, ela tinha ganhado quatro quilos. Isso é muito gratificante. A recuperação de um paciente é o que importa", conta. De volta ao Brasil, ela se prepara agora para ir para o Camboja. Abaixo, ela fala sobre sua experiência com MSF.

Como era o dia-a-dia na Somália?
Foi uma experiência curta, pórem intensa. Cheguei em Huddur em um momento de bastante tensão e insegurança. A rotina na Somália é bastante restrita e faz com que sua dedicação ao trabalho seja total. A gente ía às 7h para o hospital e voltava às 14h para o acampamento, sempre em comboio. E não podíamos sair mais. Isso forçava uma convivência com os colegas da equipe. Por isso, acabavamos trabalhando sem parar. A energia elétrica era limitada, fornecida por geradores com horário para funcionar. A hora das refeições era a mais esperada, pois era o momento em que fazíamos algo diferente e nos desligávamos um pouco do trabalho.

Você foi para o projeto onde estava a enfermeira brasileira Kelly Cavalete. Você realizava as mesmas atividades que ela?
A Kelly pegou um período de transição. Ela fazia todas as atividades ligadas à parte de enfermagem. Eu cheguei em um momento em que um cargo novo estava sendo criado. Fui a primeira enfermeira exclusiva para tratar dos casos de tuberculose (TB). Todo o meu tempo era para tratar os pacientes com essa doença. Além disso, ajudei no processo de seleção de novos profissionais para atuar junto aos internos. Montamos uma nova estrutura para o tratamento da TB, com salas de curativo e outras três tendas para acomodar os pacientes, que eram muitos. Grande parte morava distante do hospital, então ficava inviável ir e voltar todos os dias. Com um espaço maior, as pessoas podiam passar a noite no centro de saúde e não corriamos o risco deles abandonarem o tratamento.

Antes de viajar, você disse que estava com muitas idéias para ajudar na realização do trabalho. Você conseguiu expó-las e executá-las?
Isso foi uma coisa que me surpreendeu muito. Achei que encontraria resistência por ser jovem e nova na equipe, mas o outros profissionais aceitaram muito bem as minhas idéias. Além de implementar as minhas sugestões, também tentavam melhorá-las. Isso foi muito legal. Fizemos educação continuada, visitas domiciliares, fisioterapia respiratória e corporal, exercícios matinais, coisas que não aconteciam antes.

Encontrou dificuldades para se adapatar na Somália?
Já fui com o pensamento de trabalhar. Então, quando você vai com um foco não tem como pensar em outras coisas. Quando cheguei e vi a quantidade de trabalho que tinha para se feito, pensei: "O que eu estou fazendo aqui". Mas respirei fundo e voltei para começar a fazer o que era necessário. Muitas vezes, o que as pessoas precisam é de um pouco de atenção, de serem ouvidas.

Como você lidava com as diferenças culturais?
Dentro do centro e do acampamento tinha que usar lenço na cabeça. Mas não foi nenhum sacrifício. Para eles, é muito importante. É um sinal de respeito a cultura local. Uma coisa que me marcou muito é que lá um homem não aperta a mão de uma mulher, a não ser que ele a respeite muito. Então, quando cheguei ninguém apertava minha mão. Mas eu já esperava por isso, sabia que era o costume. Depois de dois meses, quando tivemos que ir embora, houve uma reunião no acampamento e um dos supervisores, que é somali, me agradeceu pelo trabalho, apertou minha mão e me deu um abraço, que é o ponto máximo de confiança e respeito que se pode ter pelo outro. Isso pra mim valeu todo o tempo em que passei lá. Recompensou todo o trabalho realizado. Senti muito em ter que ir embora.

Como era a relação com a população somali?
A integração com a população foi muito legal. Eles queriam mostrar as músicas, as danças. Era muito tranquilo. Eles me respeitavam bastante, queriam conversar. Foi muito bom. O povo somali é muito batalhador.

Qual foi o momento mais tenso durante a missão?
Tivemos dois incidentes graves no ínicio do ano. Por isso, a gente fica um pouco tenso. Mas a última semana foi a mais tensa. O clima estava bastante estranho. Todos os dias, eu chegava no hospital preocupada em passar orientações para os profissionais nacionais, caso houvesse a necessidade de sair do pais rapidamente. Quando a situação ficou extremamente insegura e tivemos que sair, o chefe de missão chegou e disse que tinhamos dez minutos para fazer as malas e ir embora. Foi bastante triste ter que deixar um trabalho que estava sendo feito. Há também um sentimento ruim de estar indo embora e deixar para trás os colegas nacionais, que continuaram a trabalhar na unidade. Gostaria de ter tido tempo para me despedir dos pacientes. Poder falar com eles, dar mais uma palavra de incentivo para que eles não abandonassem o tratamento. É uma sensação de vazio. Apesar da saída repentina, a Somália deixou boas recordações.


O que mais te marcou durante a missão?
A confiança da população, a liberdade que eu tive para trabalhar e a cooperação com a equipe. As crianças também me marcaram bastante. Na Somália, é sinal de respeito você tirar foto com uma outra pessoa e teve uma mulher que me entregou o filho dela e pediu para que eu tirasse uma foto com ele. Isso me surpreendeu muito, muito mesmo.

Você já tem outros trabalhos planejados com MSF?
Sim. Dia 14 de abril, embarco para o Camboja. O trabalho será em um projeto HIV e tuberculose. É uma situação bastante diferente da Somália, outra cultura, novas pessoas. Acredito que não terei dificuldades para me adaptar.