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Enchentes na Somália: Doença após a devastação

07/12/2006
Médicos Sem Fronteiras está no Vale de Juba, uma das regiões mais destruídas, para levar alívio para as vítimas da tragédia

Depois de semanas de fortes chuvas, as enchentes provocaram destruição no sul e centro da Somália. A região do Vale de Juba, onde Médicos Sem Fronteiras (MSF) está lutando para oferecer alívio, foi particularmente afetada, segundo conta o chefe de missão no país, Colin McIlreavy.

Como está a situação da Somália atualmente?
Há algumas semanas, houve grandes enchentes ao longo de toda a região do Rio Jubba. Milhares de moradores tiveram suas casas destruídas. Algumas pessoas tiveram de deixar o local, mudando-se para áreas mais altas e algumas ainda estão nos vilarejos, que agora estão isolados e cercados pela água. Muitos desses locais são acessíveis agora apenas por barco e a população está vivendo ao ar livre, aglomeradas em diques e nos poucos locais mais altos que ainda sobram.

Até agora, conseguimos apurar que mais de 50 vilarejos entre Kaytoy (60 km ao norte de Marere) e Fungamoya (20 km sul) estão completamente ou parcialmente inundados. Oitenta porcento dos vilarejos estão isolados pela água e só podem ser alcançados de barco. Os vilarejos abrigam entre 50 a 600 casas. Nós também temos que ter em mente que a situação para os moradores do vale de Juba não era boa antes das chuvas. Estamos falando de um desastre que atingiu uma das populações mais vulneráveis da Somália.

Quais são as prioridades no momento?
Limpar a água é o assunto mais urgente hoje, uma vez que as fontes de águas que eram usadas foram contaminadas. As pessoas da área geralmente usam poços de pouca profundidade e eles foram inundados e ficaram cheio de todos os tipos de substâncias contaminosas. Isso significa que a única opção agora é beber a água suja da superfície. Por isso, há uma grande incidência de diarréia. MSF também está tratando alguns casos de cólera na cidade de Jilib e há ainda mais de 60 casos suspeitos, que foram tratados nas últimas duas semanas.

Também há problemas de escassez de comida, lenha e carvão, além de problemas para retirar os moradores dos vilarejos isolados. Abrigos também são um grande problema e as pessoas agora estão sendo atacadas por milhões de mosquitos, o que facilita o aumento do número de casos de malária.

O quão séria é essa escassez de alimentos e lenha?
Nessa parte da Somália, é comum a população estocar sua colheita em armazéns subterrâneos e esses locais foram amplamente destruídos devido à enchente. Agora muitas pessoas têm estoques limitados de comida, uma vez que muito que tinham foi destruído. Não poderia ter acontecido em pior hora, porque a colheita ocorreria em dezembro ou janeiro. Todas as pessoas que moram no vale agora não vão ter nada para colher ou apenas terão um mínimo, na melhor das hipóteses.

Nessa época do ano, nós normalmente recebemos um maior número de crianças em nossos programas de nutrição, porque é o período de fome do ano, quando os estoques de comida estão acabando, antes que a nova colheita aconteça. Estamos nos preparando agora para um aumento de crianças desnutridas. Tipicamente nesta época, entre dezembro a fevereiro, nós recebemos entre 150 a 200 crianças inscritas em nossos programas terapêuticos de alimentação a cada mês. Nós prevemos que neste ano o número provavelmente vai dobrar.

Vilarejos como Libanga ou Oramale estão afirmando que têm apenas uma ou duas semanas de suprimento de comida, então a fome vai se tornar um problema agudo muito rapidamente. Esforços para levar comida para a área são muito difíceis, devido a vários problemas de logísticas representados pelo desafio de levar grandes quantidades de comida para milhares de famílias.

O que MSF está fazendo para ajudar as vítimas das enchentes?
Nós estamos tentando oferecer ajuda médica nos vilarejos através de nossa equipe de enfermeiros somalis. Nós os colocamos em alguns dos vilarejos mais isolados com pequenos suprimentos de medicamentos. Mas é uma assistência muito rudimentar. Nós também estamos usando alguns barcos que temos para sair e dar alguns consultas, trazendo de volta a maioria das pessoas com caso de desnutrição e alguns dos doentes mais graves, para serem enviados a nosso hospital na cidade de Marere.

No momento, também temos cerca de 25 pacientes em nosso programa de alimentação terapêutica e cerca de 16 pacientes internados. Nós realizamos entre 40 a 50 consultas curativas, o que é uma mera fração do que fazemos normalmente e temos consciência de que existem vários pacientes que simplesmente não têm como chegar até nós. Nós vamos tentar aumentar nossos esforços nas próximas semanas para ter mais clínicas móveis funcionando, para ter mais ambulâncias trazendo os doentes para nossas unidades de saúde e também vamos torcer para que o nível das águas abaixem para que as pessoas possam vir até nós.

Quais são os desafios de realizar ajuda humanitária nessa área?
A segurança sempre é um problema em um contexto instável como o da Somália. As Cortes Islâmicas recentemente tomaram o controle da região e eles estão começando a organizar sua administração. As Cortes têm cooperado bastante e ajudaram a garantir a segurança dos projetos humanitários, mas temos que reconhecer que a região viveu muitos anos de instabilidade. Até agora, no entanto, não tivemos nenhum problema de segurança. Os maiores problemas são as dificuldades em se locomover devido às enchentes.

As estradas foram parcialmente danificadas, então o acesso a alguns desses vilarejos remotos, que estão isolados, é restrito a apenas barco ou helicóptero. A água também é muito suja e de difícil navegação. É bem complicado, porque não dá para dizer se a profundidade da água é de 30 centímetros ou cinco metros e sem saber onde existem árvores, casas, aterros ou arbustos em baixo dos barcos. Estamos gastando muito tempo e até mesmo noites inteiras para chegar até os vilarejos que pelas estradas levaríamos apenas uma hora para alcançar.

Também estamos operando em barcos adicionais, mas é um desafio. As equipes de MSF têm visitado vilarejos em pequenos botes infláveis nas últimas duas semanas. Essa foi uma solução de urgência, mas não é o ideal. Na verdade, alguns foram perfurados e estamos tentando usar barcos mais fortes, feitos de fibra.

Qual é a expectativa para as próximas semanas?
É muito incerto, uma vez que há diferentes relatos sobre se as chuvas vão continuar ou não. No entanto, é necessário que a ajuda humanitária na área aumente, outros atores têm que vir para cá, não apenas em termos de uma resposta de emergência a curto prazo, mas também preparados para avaliar o que serão meses de dificuldades para os moradores do Vale de Juba. Independentemente do que aconteça, a situação vai continuar ainda muito difícil e mais ajuda é necessária. Também estamos preocupados porque com o aumento da tensão entre a União das Cortes Islâmicas (ICU, na sigla em inglês) e o Governo de Transição Federal (TFG, na sigla em inglês), as oportunidades para que as agências humanitárias intercedam vão ser ainda mais limitadas.