Em Gaza, cada momento de esperança conta

Em Histórias de MSF, Katrin Glatz, especialista em saúde mental, fala sobre sua experiência com crianças em extremo sofrimento emocional em Gaza

Katrin Glatz Brubakk, especialista em saúde mental de MSF em Khan Younis, sul da Faixa de Gaza, Palestina ©MSF

A especialista em saúde mental Katrin Glatz Brubakk trabalha há dez anos com vítimas de guerra e sobreviventes de tortura. Ao longo desse tempo, atuou em diferentes projetos com Médicos Sem Fronteiras (MSF). Mais recentemente, esteve na Faixa de Gaza, onde prestou cuidados a crianças em profundo sofrimento psicológico. Em seu relato, Katrin descreve que tipo de ajuda é possível oferecer em meio à violência e à destruição em massa.

 

Cada momento de esperança conta

“Ouço um grito agudo. Larguei tudo e corri. O que ouvi foi o grito em pânico de uma criança; um grito que perfurou todo o meu corpo.

Todos os dias – e muitas vezes ao dia –, testemunho esse intenso sofrimento emocional aqui na unidade ortopédica e de queimados do Hospital Nasser. Em agosto de 2024, passei cinco semanas trabalhando pela primeira vez na clínica em Khan Younis, no sul da Faixa de Gaza. Muitos de nossos pacientes são crianças que ficaram gravemente feridas na guerra. Elas têm queimaduras, ossos quebrados, feridas infectadas e algumas tiveram membros amputados. A maioria delas perdeu vários familiares em ataques com bombas. Todas estão gravemente traumatizadas.

Crianças aguardam ao lado de seus galões de água vazios pela chegada de um caminhão-pipa na Cidade de Gaza. 07/07/2025. ©/MSF

 

O que podemos oferecer é humanidade

O imenso trauma também se aplica ao menino de 12 anos de idade que ainda grita e está completamente desorientado quando entro na sala de atendimento. Ele sofreu graves queimaduras em um ataque explosivo. Hoje, veio ao nosso hospital para tratamento ambulatorial de feridas, o que só é possível com anestesia local. Uma enfermeira tenta injetar o anestésico em seu braço, mas isso é extremamente estressante para o menino.

O pânico é tão grande que ele não consegue mais distinguir o perigo representado pela agulha do perigo representado pela bomba que recentemente destruiu sua casa e quase matou toda a sua família. Apenas ele e seu pai sobreviveram.”

Peço à enfermeira que interrompa o tratamento imediatamente e peço ao pai que se aproxime do filho, faça carinho e converse com ele. Também falo com o menino de forma amigável e tranquilizadora. Leva algum tempo, mas ele lentamente se acalma. Concordamos que a enfermeira dará a ele um sedativo antes de aplicar a injeção e que seu pai estará presente o tempo todo.

Não há muito que eu possa fazer pelo menino aqui na Faixa de Gaza. Mas posso evitar que o tratamento o traumatize novamente, o que teria sérias consequências psicológicas. Algumas semanas depois, o pai me visita novamente na clínica apenas para me agradecer. Suas palavras expressam o quanto meu pequeno ato de ajuda foi valioso para o pai e o filho: na guerra, eles perderam grande parte da fé na bondade do mundo. Um gesto de humanidade em meio a todo horror deu a eles um pouquinho de esperança.

 

As mudanças no cérebro

Para mim, a parte mais difícil do meu trabalho na Faixa de Gaza é que minhas possibilidades de oferecer ajuda são limitadas. Não posso oferecer às crianças terapia para traumas e luto; não posso nem mesmo dizer a elas que agora estão seguras. Mas há uma coisa que posso fazer com minha equipe de psicólogos, assistentes sociais e conselheiros: podemos oferecer às crianças primeiros socorros psicológicos para ajudá-las a lidar com o presente.

Pessoas traumatizadas precisam de estabilidade, segurança, previsibilidade, um espaço seguro e estruturas sociais confiáveis. As pessoas na Faixa de Gaza não têm nada disso.”

Elas foram privadas do que todos nós precisamos para viver uma vida mentalmente saudável. Isso representa um perigo imenso, especialmente para as crianças. Se elas forem expostas a tensão e medo extremos por um longo período, essa condição corre o risco de se tornar crônica, com efeitos negativos no desenvolvimento de seus cérebros. A amígdala cerebral, área do cérebro responsável por impressões emocionais fortes, continua a crescer; ao mesmo tempo, o hipocampo, parte do cérebro importante para o pensamento racional e a aprendizagem, não se desenvolve como deveria.

O objetivo dos primeiros socorros psicológicos em zonas de guerra é, portanto, proporcionar às crianças pausas em que elas estejam livres do medo e possam respirar profundamente. Cada um desses momentos é importante para evitar que o medo se torne crônico, e foi essa certeza que me fez voltar ao Hospital Nasser em janeiro e fevereiro de 2025.

Pouco depois da minha chegada, havia a promessa de um cessar-fogo* temporário. Fico feliz em ver que o estresse e os ataques de pânico estavam diminuindo um pouco para as crianças. No entanto, muitas agora apresentam sintomas de transtorno de ansiedade generalizada. Elas estão constantemente tensas e ansiosas, e até mesmo as coisas cotidianas as assustam.

Com a ajuda de um desenho, uma criança expressou a violência que sofreu durante a guerra. Nossa equipe usa a arteterapia para ajudar as crianças a processar suas experiências © Katrin Glatz Brubakk

 

O primeiro sorriso após quatro meses

Quando conheci a pequena Maria, ela tinha tanto medo de mim e do meu colete branco de MSF que começava a gritar. No hospital, tudo parecia perigoso para ela, porque cada detalhe da clínica a fazia reviver a dor do ataque a bomba que a feriu tão gravemente.

Várias vezes ao dia, abro a porta do quarto dela, olho para dentro e digo “olá” com uma voz amigável. Depois de alguns dias, Maria permanece calma quando me vê pela primeira vez. Só então me aproximo da cama dela, passo a passo, no ritmo que ela permite. Finalmente, consigo me sentar ao lado dela e de sua mãe. Tiro um potinho de bolhas de sabão da minha bolsa, que é uma ferramenta verdadeiramente mágica para mim.

Maria reage com medo no início. Mas então ela toma coragem e pega o recipiente. Quando ela sopra, sua respiração se aprofunda e sua atenção é atraída para algo bonito e despreocupado. O sistema nervoso de Maria relaxa. Por um momento, ela consegue sentir alegria e deixar o medo de lado. Naquele instante, a menina sorri pela primeira vez em quatro meses, me contou sua mãe. É um momento que enche meu coração de alegria.

Katrin sorri enquanto faz bolhas de sabão com Maria, a paciente de três anos de idade. A brincadeira aprofunda a respiração da menina e acalma seu sistema nervoso © MSF

Nas semanas seguintes, Maria e eu nos tornamos cada vez mais próximas. Durante nosso tempo juntas, sua mãe percebe o que faz bem para a filha e a ajuda a superar o medo. Ela fica cada vez mais confiante em lidar com o trauma da menina. Isso também permite que a mãe relaxe mais e esteja mais presente.

Fornecer conhecimentos psicológicos básicos aos familiares também é o objetivo das sessões em grupo que ofereço com minha equipe no Hospital Nasser todas as semanas. Explicamos, por exemplo, que crianças submetidas a experiências traumáticas apresentam algumas reações típicas, como episódios de urina involuntária, puxar o cabelo ou deixar de falar.

 

Meu único desejo: estar presente

Quando o governo israelense rompeu o cessar-fogo, em março de 2025, e retomou os bombardeios na Faixa de Gaza, eu já estava de volta à minha casa, na Noruega. Entrei em contato com meus colegas palestinos várias vezes ao dia. Eu os admiro muito por irem à clínica dia após dia cuidar de nossos pacientes com grande dedicação, sem saber se verão seus próprios filhos vivos novamente.

O cessar-fogo havia dado a eles esperança novamente, apesar de todas as perdas e destruição. Mas agora o medo voltou. Mais uma vez, eles estão sendo orientados a evacuar do lugar onde vivem. Alguns me escrevem dizendo que estão no limite e exaustos demais para fugir novamente. Eu mesma tenho apenas um desejo: estar lá e apoiar meus colegas e as crianças na Faixa de Gaza. Desejo voltar a Khan Younis com MSF em agosto, se nosso hospital ainda estiver lá.”

 

Pouco depois de nossa conversa com Katrin Glatz Brubakk, o Hospital Nasser foi atingido por um ataque de mísseis, em 23 de março de 2025. A ala cirúrgica foi gravemente danificada e duas pessoas morreram. Meses depois, em 25 de agosto de 2025, o Hospital Nasser foi bombardeado e mais de 20 pessoas morreram.

A campanha genocida das forças israelenses tem arrasado instalações médicas e soterrado milhares de civis e profissionais de saúde. Médicos Sem Fronteiras apela para que Israel deixe as pessoas em Gaza viverem!

*O frágil cessar-fogo, anunciado em 19 de janeiro de 2025 e rompido dois meses depois, permitiu o início do retorno de algumas famílias ao Norte do território. Mas a destruição deixada pelos ataques é profunda, e novos bombardeios implacáveis continuam a atingir o que restou.

 

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