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“É praticamente impossível conseguir atendimento obstétrico de emergência na Síria”

25/09/2013
Obstetriz de Médicos Sem Fronteiras fala da necessidade de oferecer cuidados a mulheres com complicações na gravidez, especialmente em contextos estressantes

Margie é uma obstetriz que recentemente passou sete semanas trabalhando no hospital de Médicos Sem Fronteiras (MSF), no norte da Síria. O hospital inclui um centro cirúrgico para tratamento de grandes queimaduras e ferimentos de guerra, um setor de emergência e a maternidade, onde Margie trabalhou.

Por que MSF montou uma maternidade?
Criamos a maternidade porque as mulheres não têm acesso a atendimento de saúde adequado nessa área. Para mulheres que enfrentam complicações na gravidez, é praticamente impossível obter atendimento obstétrico de emergência. Ainda há algumas parteiras na comunidade oferecendo apoio aos partos normais, mas quando ocorrem complicações, fica difícil encontrar alguém para o encaminhamento das mulheres. Algumas clínicas foram destruídas no conflito e as que restaram não funcionam adequadamente. Há alguns hospitais particulares, mas nem todas as pessoas têm condições de arcar com esses custos. Havia uma rede de parteiras oferecendo cuidados pré-natais, mas agora parece que muitas mulheres grávidas não recebem qualquer atendimento durante a gravidez. O conflito também reduziu o acesso das mulheres à alimentação apropriada e muitas delas foram deslocadas. Tudo isso cria um estresse que por si só pode causar impacto sobre a gravidez.

Que tipos de serviços a maternidade oferece?
Prestamos serviços de parto, incluindo atendimento obstétrico emergencial, e encaminhamos pacientes que precisam de cesariana para a equipe cirúrgica. Muitas mulheres já tiveram muitos filhos, às vezes 10 ou 11, e muitas já passaram por uma cesariana antes, o que dá uma ideia do padrão de atendimento de saúde oferecido antes do conflito. A maternidade também realiza o atendimento pré-natal, incluindo tratamento profilático para anemia durante a gravidez, por exemplo, e atendimento imediato e de acompanhamento após o parto. Mas não atuamos apenas em obstetrícia: também trabalhamos com consultas ginecológicas, cujo acesso é bastante difícil para as mulheres na Síria. O conflito reduziu os tipos de serviços de saúde disponíveis e, devido ao contexto islâmico, se as mulheres não conseguem encontrar uma profissional de saúde do sexo feminino, podem não procurar atendimento de espécie alguma.

Provavelmente, cerca de metade das pacientes que atendemos vêm dos povoados vizinhos. As mulheres frequentemente chegam a nós acompanhadas por uma paciente que tenha sido atendida em nossa maternidade, e muitas delas recebem indicação para nos procurar.

Você trabalhou com profissionais sírios?
Sim, eu trabalhava com uma equipe maravilhosa de quatro obstetrizes sírias. Fazíamos até 12 partos por semana e de 50 a 60 consultas. Minhas colegas faziam os partos normais, mas quando havia complicações eu as ajudava e trabalhava com elas, de acordo com o atendimento médico necessário. Elas tinham níveis variados de formação e experiência, portanto eu também oferecia treinamento e atualizações às obstetrizes sírias. Elas ficaram muito gratas pela oportunidade de aperfeiçoamento, já que, com o conflito, muitas delas foram obrigadas a interromper seus cursos. Devido à escassez de mão de obra qualificada, uma das parteiras que recrutamos havia concluído o curso de enfermagem, mas ainda estava no meio do curso de atendimento materno. Essa parteira era como uma esponja absorvendo conhecimento: tudo que eu falava, ela colocava em prática. Foi inspirador ver tanta dedicação.

Você presenciou algum caso particularmente desafiador?
Auxiliamos diversos partos normais, mas havia alguns casos difíceis. Por exemplo, uma mulher já havia parido quatro bebês saudáveis, mas perdeu um bebê totalmente a termo. Como muitas mulheres que vimos, ela foi deslocada pelo conflito e estava morando com toda a família na sala de aula de uma escola. Quando chegou à maternidade, estava grávida e sofrendo de pré-eclâmpsia grave, o que indica pressão sanguínea muito elevada. Evidentemente, ela já sofria disso há algum tempo, pois seu bebê havia crescido pouco. O bebê morreu enquanto tentávamos salvar a vida dela. Ela foi um exemplo da falta de acesso ao atendimento necessário durante a gravidez, e o resultado disso foi trágico. Como sua vida estava em risco potencial, a vida do bebê veio em segundo lugar para ela, um dilema muito difícil de enfrentar. Mas o que ficou guardado para mim foi sua resiliência; ela sofreu muito, mas ainda assim estava agradecida pelo atendimento e pelo apoio que recebeu. Isso foi muito impressionante.

Outra mulher que me impressionou bastante foi uma que chegou em busca de atendimento pré-natal. Quando perguntei sobre os partos anteriores, ela contou que havia tido sete filhos, mas quatro deles haviam morrido em um bombardeio na cidade vizinha. Mas conseguimos ajudá-la a parir um bebê saudável. Foi muito compensador vê-la carregando o bebê depois de tudo que passou.

MSF está administrando seis hospitais no norte da Síria. De junho de 2012 até agosto de 2013, as equipes de MSF realizaram mais de 66.900 consultas médicas, 3.400 procedimentos cirúrgicos e 1.400 partos. Os profissionais de MSF também realizaram mais de 200.240 consultas para refugiados sírios em países vizinhos.

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