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Do inferno para o limbo: civis que fogem da guerra na Líbia sobrevivem em condições desumanas na Europa

30/06/2011
Essas pessoas não fazem “imigração ilegal”. Elas lutam pela sobrevivência, segurança e proteção.

Enquanto os confrontos na Líbia continuam forçando civis a deixar o país, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) faz um apelo aos países envolvidos neste conflito para se comprometam com uma resposta humanitária efetiva e forneçam proteção mais eficaz para as pessoas que estão fugindo do conflito.

Em nome da luta contra imigrantes, os países Europeus estão negando a proteção e o tratamento humano que estas pessoas merecem, condenando-os a uma situação de incerteza, o que aumenta o sofrimento. O fluxo de pessoas que chegam de barco na costa italiana não constitui "imigração ilegal", mas uma luta pela sobrevivência, segurança e proteção.

Em um relatório lançado hoje, chamado "From a Rock to a Hard Place: The Neglected Victims of the Conflict in Libya" (Entre a cruz e a espada: as vítimas negligenciadas do conflito na Líbia) MSF chama atenção para as consequências das condições precárias de recepção e da proteção insuficiente que os civis têm recebido nos países onde buscam refúgio (o material está disponível no original inglês).

Mais de 600 mil imigrantes cruzaram as fronteiras da Líbia desde o início da guerra. Enquanto muitos já foram repatriados para seus países de origem, milhares estão ainda bloqueados e outros continuam a chegar nas instalações de trânsito na Tunísia, Egito, Itália ou Níger.

No campo de refugiados Shousha, na Tunísia, cerca de 4 mil pessoas – a maioria proveniente da África Subsaariana – não podem ser repatriadas, principalmente devido à falta de segurança em seus países de origem. Enquanto isso, 18 mil pessoas desembarcaram na costa italiana desde o início do conflito, arriscando suas vidas em barcos superlotados e impróprios para navegação no mar, numa tentativa desesperada de fugir da guerra.
 

Desde fevereiro, as equipes de MSF forneceram mais de 3.400 consultas de saúde mental às pessoas que haviam fugido do conflito, tanto na Tunísia como na Itália. As equipes escutaram inúmeras histórias de pacientes sobre suas jornadas em busca de refúgio seguro. Alguns já tinham sido vítimas de violência nos seus países de origem enquanto muitos enfrentaram situações extremamente perigosas a caminho da Líbia. Algumas pessoas passaram por várias experiências traumáticas na Líbia: fugiram dos bombardeios da OTAN, foram atacados ou detidos em prisões ou centros de detenções na Líbia – porque não tinham os documentos necessários – ou enviados de volta quando tentavam chegar à Europa.

Uma vez que a liberdade de ir e vir é extremamente limitada, o confinamento das pessoas em acampamentos transitórios e centros de recepção equivale a detenção.  "O processo de determinar quem preenche os critérios para receber asilo na Itália é extremamente lento e muitas pessoas se desesperam frente à idéia de passar meses, ou até mesmo anos, nestes centros”, diz Francesca Zuccaro, coordenadora geral de MSF na Itálila.

No campo de Sousha, as condições de vida são inadequadas para uma estadia de longa duração e a insegurança é uma preocupação cada vez maior, conforme demonstrado pelos violentos confrontos ocorridos no campo em maio. A violência extrapolou o sentimento de desespero entre os residentes do campo. Alguns deixaram o acampamento para tentar cruzar o mar Mediterrâneo, arriscando as suas vidas na esperança de uma recepção melhor na Europa.

"Como eles não têm nenhuma perspectiva, dezenas voltaram à Líbia nos últimos dias, prontos para arriscar suas vidas mais uma vez em uma desesperada busca por um futuro. Essa situação é extremamente preocupante”, diz Mike Bates, coordenador geral de MSF na Tunísia.

MSF lembra a todas as partes beligerantes e países vizinhos que eles têm a responsabilidade, sob a lei internacional, de manter suas fronteiras abertas e oferecer proteção àqueles que fugiram da Líbia, garantindo que refugiados e requerentes de asilo não deixem de buscar segurança por conta das precárias condições de recepção e proteção na Europa.

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