Diante de condições catastróficas, Gaza precisa urgentemente de um volume massivo de ajuda

Apesar do prazo de 1º de março para que 37 ONGs deixem os Territórios Palestinos, MSF está comprometida a continuar prestando assistência médica essencial

Jabalia, no norte de Gaza, foi transformada em ruínas. Fevereiro de 2025. ©Nour Alsaqqa

A organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) faz um apelo pela ampliação massiva da assistência vital e por acesso humanitário sem restrições diante da catástrofe em curso em Gaza, onde vidas continuam sendo perdidas devido à violência persistente e às constantes restrições de ajuda impostas pelas autoridades israelenses.

Apesar dessas medidas, MSF está comprometida em continuar prestando assistência médica essencial nos Territórios Palestinos pelo maior tempo possível, trabalhando com o registro junto à Autoridade Palestina, que permanece válido.

As necessidades são imensas e as restrições drásticas têm consequências mortais.”

Christopher Lockyear, secretário-geral de MSF

De acordo com o direito humanitário internacional, na condição de potência ocupante, as autoridades israelenses têm a obrigação de assegurar a prestação de assistência humanitária na região. No entanto, novas regras restritivas, que exigem que 37 ONGs deixem Gaza e Cisjordânia até 1º de março de 2026, ameaçam reduzir drasticamente uma ajuda que já é insuficiente. Governos em todo o mundo devem garantir que as decisões da Corte Internacional de Justiça sejam respeitadas, incluindo a facilitação da prestação de ajuda humanitária.

“MSF está trabalhando para manter os serviços aos pacientes em um ambiente cada vez mais restrito”, afirma Christopher Lockyear, secretário-geral de MSF. “As necessidades são imensas e as restrições drásticas têm consequências mortais. Centenas de milhares de pacientes precisam de cuidados médicos e de saúde mental, e dezenas de milhares necessitam de acompanhamento médico, cirúrgico e psicológico de longo prazo.”

Apesar do plano de paz liderado pelos Estados Unidos, as autoridades israelenses continuam restringindo fortemente — e até negando — o acesso à água, a abrigo e a cuidados médicos. As condições de vida permanecem indignas, e a violência continua matando e ferindo palestinos diariamente. Nas últimas semanas, a ajuda humanitária que chega a Gaza diminuiu significativamente. Na Cisjordânia, as necessidades médicas e humanitárias continuam crescendo em meio a aumentos alarmantes de violência, deslocamentos forçados, ataques de colonos armados, demolições de casas, expansão de assentamentos e obstrução do acesso à saúde.

A suspensão da atuação de MSF pelas autoridades israelenses já está afetando o atendimento aos pacientes, pois agrava a pressão sobre um sistema de saúde devastado nos últimos dois anos e limitado por restrições contínuas ao fornecimento de equipamentos e suprimentos médicos essenciais. Desde o início de janeiro, MSF tem sido impedida pelas autoridades israelenses de enviar profissionais internacionais e suprimentos adicionais à Palestina, e até 1º de março de 2026 toda a equipe internacional da organização será forçada a deixar o território.

As atividades de MSF são essenciais para a sobrevivência de pacientes.”

Christopher Lockyear, secretário-geral de MSF

Os projetos de MSF já enfrentam escassez, e as equipes estão particularmente preocupadas com a capacidade de continuar oferecendo atendimento de emergência a traumas, serviços de reabilitação, cuidados pediátricos, serviços de saúde sexual e reprodutiva, tratamento de doenças crônicas e cuidados psiquiátricos. Há incerteza sobre a manutenção das atividades de MSF no longo prazo, que serão possivelmente inviabilizadas diante de condições tão restritivas.

“As atividades de MSF são essenciais para a sobrevivência de pacientes. Não é fácil substituir cuidados médicos e assistência humanitária nessa escala”, afirma Lockyear. “Diante da catástrofe humanitária em curso, MSF permanecerá nos territórios palestinos pelo maior tempo possível, fazendo tudo o que puder. Apelamos às autoridades israelenses para que permitam o acesso de ajuda humanitária em grande escala e à comunidade internacional para que garanta que os palestinos em Gaza e na Cisjordânia não sejam abandonados à própria sorte.”

MSF trabalha na Palestina desde 1988, prestando cuidados médicos e de saúde mental, além de recentemente ter começado a prover serviços de água e saneamento em grande escala. Em 2025, MSF apoiou um em cada cinco leitos hospitalares em Gaza, ajudou na realização de um em cada três partos, realizou 913.284 consultas ambulatoriais e distribuiu mais de 700 milhões de litros de água.

Em janeiro de 2026, a organização realizou 83.579 consultas ambulatoriais, tratou 40.646 casos de emergência e 5.981 pacientes com condições relacionadas a trauma. Diante das enormes necessidades, MSF havia planejado expandir seus programas em 2026, com um orçamento de €130 milhões (quase R$ 800 milhões), mas esse apoio está agora envolto em incertezas.

As exigências de registro restritivas, usadas como pretexto para bloquear a assistência, ocorrem ao mesmo tempo em que está em curso uma campanha global de ataques online contra MSF, promovida pelo governo de Israel.

“Uma campanha de deslegitimação, baseada em alegações falsas e não comprovadas, busca desacreditar MSF, silenciar a voz da organização e obstruir a prestação de cuidados de saúde”, afirma Lockyear.

“Em um contexto onde jornalistas internacionais são impedidos de entrar e jornalistas palestinos são frequentemente mortos, reduzir ainda mais o acesso das ONGs significa eliminar mais uma camada de testemunhas da violência contínua e de seus impactos duradouros sobre a população.”

 

Este texto, publicado em 27/02/2026, reflete as informações mais recentes disponíveis no momento de sua publicação. Por causa das condições administrativas e de acesso em constante evolução em Gaza e na Cisjordânia, o contexto operacional de MSF pode sofrer alterações constantes. 

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