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As dez maiores crises humanitárias de 2009

21/12/2009
Médicos Sem Fronteiras lança 12º lista das crises humanitárias mais negligenciadas pela mídia

Cinco guerras anteriores no governorato Saada no norte do Iêmen levaram a um sexto conflito em 2009, o mais intenso já registrado. O Exército do Iêmen aumentou sua ofensiva contra um grupo rebelde representante da comunidade dominante na região, com perdas humanitárias sem precedentes. Civis e alvos não-militares, como hospitais, foram afetados pelos confrontos. Centenas de milhares se deslocaram e a assistência teve de ser virtualmente suspensa. Uma emergência nutricional foi descoberta entre crianças deslocadas. Pela primeira vez, um vizinho estrangeiro, a Arábia Saudita, foi envolvido no conflito, complicando ainda mais a vida dos civis.

Seguidores do movimento Al Houti em Saada promoveram várias guerras contra o Estado desde 2004, alegando marginalização social, econômica, política e religiosa. O governorato é lar para 700 mil pessoas. Ainda que a mais recente “sexta” guerra tenha começado em agosto de 2009, confrontos esporádicos em Saada deixaram dezenas de civis feridos. Equipes de MSF que trabalham na cidade de Razeh trataram homens, mulheres e crianças. O próprio hospital e a casa de MSF não ficaram incólumes à violência, com a primeira sendo atingida por balas e a última quase atingida por foguetes errantes. Combates na área restringiram o acesso dos pacientes ao hospital, tornando mais lento os serviços diários da unidade de emergência, cirurgia e nutrição.

A violência aumentou consideravelmente em agosto, uma vez que as Forças Armadas do Iêmen deram início a ataques aéreos e assaltos de artilharia contra os rebeldes Al-Houti. Confrontos foram registrados em 13 governoratos de 15 distritos, afetando quase toda a população.  Em novembro, as forças sauditas envolveram-se no conflito, realizando ataques aéreos contra posições rebeldes dentro do Iêmen, depois que um guarda na fronteira saudita foi morto.

Na cidade de Al-Talh, a equipe de MSF realizou 195 cirurgias em agosto e setembro, 135 das quais em pessoas com ferimentos devido ao conflito. Mas a violência recentemente forçou MSF a suspender seu trabalho no hospital da cidade. Em meados de outubro, foguetes atingiram o Hospital Razeh, forçando seu fechamento, a suspensão das atividades da organuzação e a retirada da equipe. Essa era a última unidade de saúde funcionando fora da cidade de Saada. Milhares de pessoas por mês haviam sido tratadas nas duas unidades e agora a grande maioria da população está sem nenhum acesso à saúde.

Como outro resultado da violência, milhares de civis fugiram do norte para Saada e dezenas de milhares para os governoratos vizinhos de Hajja, Amran, e Al-Jawf, todos eles com pouquíssimo ou nenhum serviço de saúde. Enquanto 35 mil pessoas foram registradas como deslocados internos em províncias vizinhas, e 45 mil em Saada, números totais e os locais exatos de aglomeração eram difíceis de ser estabelecidos porque a violência restringiu os movimentos das agências de ajuda. Muitos deslocados internos ficaram hospedados com famílias.

MSF interveio em meados de agosto em Mandabah, no distrito Baqim, nas fronteiras da Arábia Saudita, para oferecer cuidados de saúde e água potável a milhares de deslocados na região. Em meados de novembro, a organização implementou um hospital na cidade que serve aos residentes e às populações de deslocados internos.

Também em novembro, em resposta a um surto de desnutrição entre as crianças deslocadas no acampamento de al-Mazraq, no governorato de Hajjah, MSF realizou um levantamento na região, encontrando um índice de 8% de desnutrição severa entre as crianças com menos de cinco anos, o que levou à abertura de uma intervenção de nutrição na área.

As consequências de outra crise humanitária continuaram a atingir a costa do Sul do Iêmen em 2009. Mais de 50 mil refugiados somalis e imigrantes etíopes atravessaram o Golfo de Áden em busca de segurança e uma vida melhor no Iêmen, configurando um aumento de 50% em relação a 2008. Passageiros pagam contrabandistas e contam que mais de cem pessoas são rotineiramente embarcadas em transportes para entre 30 a 40 pessoas. Muitos apanham, outros sufocam e vários se afogam antes de chegar à costa. No fim do ano, pelo menos 266 pessoas haviam se afogado tentando realizar a travessia e outras 153 desapareceram no mar. As equipes de MSF no sul do Iêmen ofereceram assistência humanitária para mais de 5,6 mil pessoas que chegaram às praias em 2009.

O Paquistão foi convulsionado por intensa violência durante todo o ano de 2009. Conflitos entre o Exército do Paquistão e grupos de oposição armados na Província Fronteira do Noroeste (NWFP, na sigla em inglês) e nas Áreas Tribais Federalmente Administradas (FATA, na sigla em inglês) deslocaram mais de 2 milhões de pessoas, enquanto inúmeros bombardeios nas principais cidades paquistanesas mataram centenas e deixaram outros milhares feridos. Na província do Baluquistão, um antigo conflito permaneceu longe da atenção da mídia. Em todo o país, as pessoas sofrem de uma falta de atendimento de saúde genérica, e o Paquistão tem o maior índice de mortalidade materno e infantil na região.

Difíceis condições de vida nas mais remotas regiões do Paquistão tornaram-se ainda piores devido à violência, que aumentou nos últimos dois anos. Insegurança e restrições de viagem limitaram a provisão de serviços médicos às pessoas que mais precisam. MSF não conseguiu oferecer apoio médico durante os conflitos em Kurram, Swat, e Waziristan Sul.

O aumento da violência no NWFP do Vale do Swat fez com que MSF suspendesse suas atividades de emergência na região em abril. A organização era a única internacional presente no local, com uma equipe estrangeira oferecendo apoio ao hospital da cidade de Mingora e oferecendo serviços de ambulância na região. Em fevereiro, dois trabalhadores médicos de MSF – Riaz Ahmad e Nasar Ali – foram mortos a tiros enquanto passavam em uma ambulância identificada para retirar civis feridos em um confronto na cidade de Charbagh.  Enquanto mais de um milhão de pessoas fugiram de uma ofensiva do governo contra militantes baseados no Swat em maio, muitos outros continuaram presos entre o tiroteio ou imobilizados por toques de recolher. Muitos não conseguiram ter acesso à comida, água e atendimento médico.

À medida que os civis continuaram a fugir do Swat e Buner e a chegar em outras partes do NWFP, a maior parte se abrigou com famílias residentes. Oferecer assistência foi extremamente desafiador devido às dificuldades de acessar as áreas inseguras e identificar os que procuraram refúgio nas maiores cidades, apesar de MSF ter conseguido atender muitas pessoas que procuraram abrigo em escolas, centros comunitários e casas particulares. Alguns deslocados foram abrigados em duas dúzias de acampamentos implementados pelo governo do Paquistão. MSF montou acampamentos para milhares de pessoas em Mardan e Lower Dir. Muitas pessoas sofreram de exaustão devido ao calor e cólera.

Antes que muitas pessoas começassem a voltar para casa, milhares foram tratados em hospitais de MSF, clínicas de saúde e acampamentos de deslocados nos distritos de Mardan, Malakand, Peshawar e Lower Dir. Mas os hospitais estavam todos sobrecarregados. Muitos pacientes em Lower Dir sofriam de ferimentos relacionados ao conflito, entre eles crianças feridas por balas ou por explosivos. No fim de outubro, o Exército do Paquistão reabriu uma frente contra militantes na Agência Bajaur, fazendo com que a maior parte da população local voltasse a fugir para Lower Dir. MSF atende 1,5 mil dessas famílias.

Em meados de outubro, o Exército do Paquistão atacou militantes entrincheirados em Waziristan Sul, um distrito montanhoso no Fata, que faz fronteira com o Afeganistão. Cerca de 300 mil pessoas fugiram para o distrito vizinho de Dera Ismael Khan. Enquanto equipes de MSF identificaram necessidades significantes nos principais hospitais do distrito, as autoridades ainda recusavam autorizar a presença de equipes internacionais até o fim do ano. Confrontos na Agência Kurram do Fata levaram ao quase colapso do sistema de saúde. Desde 2004, MSF tem trabalhado em Kurram e desde 2006 oferece consultas pediátricas e serviços de atendimento materno em Sadda e Alizai. Desde dezembro, houve uma intensificação aguda dos confrontos, fazendo com que milhares se desloquem. Um cessar-fogo diário permite apenas que a população chegue ao hospital de Saada duas horas por dia, reduzindo enormemente o acesso a tratamento. Pela segunda vez em seis meses, um foguete atingiu o Hospital de Sadda, no dia 9 de dezembro. MSF pediu que todas as partes envolvidas no conflito respeitassem a segurança do hospital para garantir o acesso a um tratamento seguro para os pacientes.

Conflitos e sofrimentos continuaram em Baluquistão, onde os residentes têm sido negligenciados e marginalizados há tempos. A capacidade do sistema de saúde da região Leste é mínima, por assim dizer; os índices de mortalidade materno e infantil são muito altos. Até o fim de novembro de 2009, MSF tratou mais de 3.509 crianças desnutridas em seus programas nutricionais de emergência. No lado Oeste do Baluquistão, MSF ofereceu atendimento de saúde aos refugiados afegãos e muitos baloques perto de Quetta e da Fronteira Afegã, e ofereceu apoio ao atendimento materno-infantil, com entre cem a 150 bebês nascidos a cada mês.

Em uma região onde os poderes ocidentais envolvidos em operações de contra-insurgência também são os principais doadores, a provisão de ajuda humanitária tem sido altamente associada com objetivos políticos. Em todas as zonas de conflito, MSF, uma organização de ajuda médica humanitária independente de objetivos políticos, religiosos e econômicos, se desassocia dessas políticas. No Paquistão, MSF não aceita financiamento de nenhum governo, contando apenas em doações privadas do público em geral.

Em 2005, os líderes mundiais reuniram-se na Escócia em um encontro do G8 e prometeram apoio para a cobertura universal de tratamento de Aids até 2010, uma promessa que encorajou muitos governos africanos a lançar ambiciosos programas de tratamento e que ajudou a expandir a cobertura para mais de 4 milhões de pessoas em países em desenvolvimento. Agora, esses mesmos líderes estão voltando atrás, deixando governos e milhares de pessoas com HIV/Aids sob o risco de uma perigosa perda.

A crise está longe de acabar. Cerca de dez milhões pessoas que vivem com HIV/Aids nos países em desenvolvimento precisam urgentemente de terapia antirretroviral (ARV). O HIV/Aids é a principal causa de morte entre mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo e é responsável por mais de 40% das mortes de crianças com menos de cinco anos nos seis países com maior prevalência de HIV, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). Oitenta por cento de todas as mortes em Botswana e dois terços de todas as mortes em Lesoto, Suazilândia e Zimbábue são devido à Aids.

O Plano Emergência para Aids da Presidência dos Estados Unidos (Pepfar, na sigla em inglês), que ofereceu financiamento para o tratamento de duas milhões de pessoas desde seu início em 2003, e que prometeu tratar um total de 4 milhões de pessoas até 2013 –  oferecerá financiamento apenas por mais dois anos. MSF e outros estão começando a perceber sinais perturbadores de retração da comunidade internacional com relação à expansão do tratamento de HIV/Aids. Em alguns países africanos afetados desproporcionalmente pela pandemia HIV/Aids, as pessoas que procuram tratamento estão sendo recusadas pelas clínicas. Os pacientes já recebem a terapia antirretroviral estão sendo obrigados a interromper o tratamento porque já não podem pagá-lo, aumentando assim suas chances de adoecer e desenvolver resistência aos medicamentos. Apenas na Cidade do Cabo, África do Sul, 3 mil pessoas com HIV/AIDS morreram quando problemas de financiamento levaram a uma moratória sobre o tratamento

O aumento da falta de financiamentos para o fornecimento de tratamento para milhões de pessoas vivendo com HIV/Aids acontece em um momento em que as equipes médicas de MSF, que fornecem terapias antirretrovirais a 140 mil pacientes em 30 países, estão testemunhando uma necessidade urgente de aumento de financiamento, para expandir o acesso ao tratamento, oferecer aos pacientes terapias mais robustas e tolerantes,  amplamente disponíveis nos países ricos, e de proporcionar uma melhor adaptação a formulações pediátricas.

Em um dos serviços de tratamento público para Aids mais antigos da África, uma parceria entre MSF e o Departamento de Saúde em Khayelitsha, África do Sul, 16% dos pacientes experimentaram falência do tratamento em regime de primeira linha em cinco anos. Um quarto desses pacientes que trocou para um regime de segunda linha apresentou falhas nesse tratamento alternativo em dois anos. Sem um regime de terceira linha disponível na África do Sul – como em muitos outros países em desenvolvimento – esses pacientes agora sofrem o risco de morrer.

Além disso, as novas orientações da OMS para prevenir e tratar a doença reconhecem, entre outras recomendações, os benefícios de saúde para os pacientes de começar cada vez mais cedo o tratamento com ARV. Com poucos sinais da comunidade internacional de fazer essas recomendações uma realidade, há poucas esperanças do que o que se tornou uma doença crônica em países em desenvolvimento deixe de significar uma sentença de morte para a maioria dos que vive com HIV/Aids nos países mais pobres.

MSF está pedindo a todos os governos que cumpram o compromisso de oferecer acesso ao tratamento de Aids para cada pessoa que precise e para financiar inteiramente a luta contra a Aids, inclusive através do Fundo Global contra Aids, Tuberculose e Malária. Financiamentos adicionais são necessários para responder a um número de prioridades. Mecanismos de financiamentos inovadores, como taxas e transações de moedas, podem ser usados para proteger a saúde pública em todo o mundo.

Milhares de feridos durante o estágio final das longas décadas de guerra no Sri Lanka

Em decorrência dos combates ocorridos no início deste ano entre o Exército do Sri Lanka e os Tigres de Libertação da Pátria Tâmil, no nordeste do país, dezenas de milhares de civis ficaram presos por meses em uma zona de guerra, limitados a uma estreita faixa de floresta e praia, sem acesso a ajuda e a cuidados médicos. Poucos meses antes da fase final das longas décadas de guerra civil no Sri Lanka, agências de ajuda humanitária, incluindo MSF, tiveram de deixar as áreas mais afetadas pelos combates a pedido do governo. Somente o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) poderia continuar a oferecer algum tipo de assistência médica essencial, transferindo alguns dos feridos para os hospitais do Ministério da Saúde. Uma equipe cirúrgica de MSF trabalhava desde fevereiro de 2009 em um desses hospitais, nas proximidades de Vavuniya.

Em abril, milhares de pessoas conseguiram escapar da zona de guerra, muitas necessitando ajuda médica por causa de feridas causadas por estilhaços, tiros ou minas. No dia 21 de abril, em apenas um período de 36 horas, mais de 400 pacientes foram tratados em condições de risco de vida no hospital de Vavuniya. No total, de fevereiro até o fim de junho, quase 4 mil feridos de guerra foram submetidos a suas principais intervenções cirúrgicas nesse hospital. Os outros hospitais de referência na região também tiveram que operar no mínimo duas ou três vezes mais pacientes do que têm capacidade.

Em maio, logo após o fim do último ataque do governo, MSF abriu um novo hospital de emergência multifuncional, com dependências para cirurgias, em frente ao campo de Menick Farm e reforçou as unidades cirúrgicas e de cuidados pós-operatórios do Ministério da Saúde no Hospital Geral de Vavuniya e Pampaimadhu. A equipe médica também cuidou de 60 pacientes com problemas na medula espinhal necessitando de reabilitação.

Os campos organizados pelo governo acolheram 280 mil deslocados, sendo que o maior deles é o de Menick farm. Dentro dos acampamentos, o acesso à saúde foi sendo progressivamente melhorado, garantido pelo Ministério da Saúde. Pacientes que necessitavam de hospitalização foram referenciados para hospitais fora dos campos, incluindo estruturas montadas por MSF. A principais causas de hospitalização dentre os 3 mil pacientes atendidos no hospital de MSF em Menick Farm, entre junho e novembro, foram trauma e feridas. Nesse hospital, MSF tratou mais de 500 casos de trauma relacionados ao conflito, mais de 200 deles com necessidade de cirurgia.

A liberação de pessoas abrigadas nos campos começou lentamente desde agosto e famílias têm gradualmente saído dos campos de Vavuniya em direção a suas casas, na esperança de reconstruir a vida após a guerra. Muitos desabrigados ainda estão vivendo na casa de outras famílias em Vavuniya e dezenas de milhares continuam nos campos, que foram abertos desde primeiro de dezembro. MSF trabalha com o Ministério da Saúde para dar suporte à população, providenciando reabilitação física, incluindo cirurgia reconstrutiva e ajuda psicológica.

Com sua experiência anterior trabalhando nos distritos de Mannar, Mullaitivu e Killinochchi, MSF está preparado para apoiar sistemas de saúde durante o período de reabilitação em Vanni, para onde famílias começaram a retornar.

Ao longo de 2009, os civis sofreram violências continuas de diferentes grupos armados no Leste da República Democrática do Congo. Centenas de pessoas foram mortas, milhares de mulheres crianças, e, algumas vezes, homens foram violentados sexualmente e centenas de milhares de pessoas abandonaram suas casas. Campanhas de guerrilha substituíram os confrontos armados em Kivu Norte, onde combatentes espalharam terror saqueando e queimando casas em represália ao suposto apoio de comunidades a diferentes facções
Em 2008, os combates ocorreram principalmente entre o exército congolês (FARDC) e o grupo rebelde Congresso Nacional para a Defesa das Pessoas (CNDP na sigla em inglês). Neste ano que passou, o conflito mudou quando os exércitos do Congo e de Ruanda começaram uma ofensiva tanto no Norte quanto no Kivul Sul para acabar com os rebeldes ruandeses das Forças Democráticas para a Libertação de Ruanda (FDLR na sigla em inglês). Os militares congoleses receberam apoio logístico da missão de paz da ONU na RDC, conhecido como MONUC.

Em outubro, equipes de MSF vacinaram milhares de crianças contra sarampo em sete locais de um território na região de Masisi controlado pela FDLR – e com suporte do Ministério da Saúde Congolês –, quando o exército congolês abriu fogo, fazendo civis e trabalhadores de ajuda humanitária correrem em busca de proteção. Este ataque ocorreu apesar de ambos os lados terem dado garantias de segurança para que MSF operasse na região. Milhares de pessoas foram forçadas a fugir para localidades desconhecidas e MSF foi forçado a transferir suas equipes para a capital, Goma.

MSF denunciou imediatamente a ofensiva militar. “Nós sentimos que fomos usados como isca”, disse Luis Encinas, chefe dos programas de MSF na África Central. “O ataque foi um inaceitável abuso da ação humanitária para atingir objetivos militares.” A campanha de vacinação de MSF poderia continuar em outras áreas e atingir um total de 165 mil crianças
Apesar da insegurança crescente no Leste do Congo, MSF continuou a levar assistência médica a centenas de pessoas em uma de suas maiores intervenções de 2009, organizando clínicas móveis, campanhas de vacinação, programas de tratamento de cólera, distribuição de itens de ajuda humanitária, programas hospitalares e clínicas de tratamento para vítimas de violência sexual. MSF é a única organização humanitária internacional realizando cirurgias em Kivu Norte, fazendo em média 14 cirurgias de emergência por dia no Hospital de Rutshuru. De novembro de 2008 a outubro de 2009, MSF realizou cerca de 530 mil consultas médicas, cuidou de 10 mil crianças desnutridas, tratou quase 5 mil pacientes sofrendo de cólera e ofereceu cuidados médicos a aproximadamente 5 mil sobreviventes de estupros no Leste do Congo.

Ao mesmo tempo, a população do Alto-Ulélé e do Baixo-Ulélé, no norte da RDC, ficou presa em um dramático ciclo de violência ligado aos ataques perpetrados pelo grupo rebelde ugandês Exército de Resistência do Senhor (LRA na sigla em inglês), e as ofensivas ugandesas e congolesas contra o LRA. Civis também se enfrentaram um crescente banditismo. Centenas de milhares de pessoas foram deslocadas ao longo do ano. Ataques em curso continuam a fazer com que milhares de fugitivos busquem abrigo e segurança nas cidades. A população da cidade de Doruma triplicou. As cidades de Gangala e Banda estão abrigando cada uma cerca de 20 mil deslocados sem assistência. Esses locais se tornaram enclaves enquanto áreas periféricas e aldeias ficaram desertas.

Como uma das poucas organizações humanitárias no terreno providenciando cuidados cirúrgicos, nutricionais, psicológicos e básicos para milhares de pessoas desabrigadas, MSF convocou organizações humanitárias a responderem com uma maior presença nas áreas rurais mais afetadas por essa violência extrema. O aumento da violência fez com que MSF suspendesse o tratamento da doença do sono.

Ituri, uma região que tem sido mais pacífica nos últimos anos, foi o cenário de tensões e violências crescentes entre a Frente de Resistência Patriótica de Ituri (FRPI na sigla em inglês) e as FARDC, levando mais de 50 mil pessoas a ficarem deslocadas. MSF é a única ONG presente na área para providenciar assistência.
Em outras regiões, o sistema de saúde continua seriamente deficiente, deixando muitos congoleses expostos a doenças. Ao longo do último ano, equipes de MSF continuaram a oferecer atendimento médico gratuito e a combater a epidemias de Ebola, Cólera e Sarampo. Ao longo do país, equipes de MSF vacinaram mais de 500 mil crianças contra sarampo em 2009.

Estima-se que entre 3,5 a 5 milhões de crianças morram a cada ano de causas relacionadas à desnutrição – uma morte a cada seis segundos. No entanto, a desnutrição infantil é uma condição médica fácil de ser tratada com a combinação certa de alimentos nutritivos, e é tratada de maneira eficaz com produtos terapêuticos existentes hoje. Nos anos recentes, foi observado uma grande melhora na nossa compreensão da desnutrição infantil, e um consenso internacional emergiu à respeito das provisões de alimentos terapêuticos prontos para uso – ricos em proteínas, vitaminas e minerais – para tratar a forma mais grave em crianças abaixo de cinco anos. Por que 55 milhões de crianças continuam a sofrer dessa condição devastadora?

A resposta está em parte na falta de um fundo adequado para programas nutricionais efetivos. Em novembro, MSF lançou um dossiê antes do Encontro Mundial de Alimentação, realizado em Roma, que apresentava um profunda análise das tendências de financiamento no domínio da desnutrição infantil e da ajuda alimentar. Apesar do grande número de mortes ao redor do mundo que poderiam ser evitadas, a contribuição conjunta das nações mais ricas do mundo para combater a desnutrição se manteve estável durante os últimos sete anos (2000 a 2007). A assistência internacional arrecada anualmente US$ 350 milhões dos US $ 11,8 bilhões que o Banco Mundial estima ser necessários para o combate adequado à desnutrição em 36 países com altos índices. De 2005 a 2007, MSF apenas gastou US$ 40,3 milhões por ano, excedendo a contribuição de uma série de governos doadores, em programas de nutrição baseados principalmente em tratamentos que seguem o protocolo de emprego dos alimentos terapêuticos prontos para uso, recomendado pela ONU. MSF está advogando para que haja um adicional de US $ 700 milhões, identificado pelo estudo do Banco Mundial, como o montante dos fundos necessários para atingir os 32 países com maior prevalência de desnutrição entre crianças menores de cinco anos.

Entretanto, bilhões de dólares da assistência internacional estão atualmente sendo gastos em “desenvolvimento de ajuda e segurança alimentares” ou “ajuda alimentar emergencial”. Quando observados de mais perto, MSF observou que menos de 2% dessa assistência é gasta em alimentos que incluam os nutrientes necessários para prevenir a desnutrição infantil. Uma realocação dos bilhões de dólares que atualmente estão sendo gastos em ajuda alimentar para adquirir alimentos apropriados para crianças abaixo de cinco anos seria de grande ajuda para reduzir os efeitos devastadores da desnutrição em milhões de crianças: reduzindo a alta vulnerabilidade a doenças e a morte.

Além disso, o sistema de ajuda alimentar está repleto de práticas ineficientes. O governo dos Estados Unidos, por exemplo, insiste na utilização de navios e que ajuda seja enviada pelo mar, o que custa aproximadamente US$ 600 milhões a mais do que adquirir a comida localmente. Além disso, a ajuda alimentar dos EUA, como a maioria das ajudas alimentares internacionais, é composta principalmente de farinha fortificada, na forma de misturas de soja e milho. O conteúdo mínimo nutricional desses produtos é mal absorvido por crianças e, portanto, pouco faz para evitar que se tornem desnutridas.

Em 2008, MSF tratou mais de 300 mil crianças desnutridas em 22 países, a maioria com alimentos prontos para usar com nutrientes densos, os quais, embora mais caros do que os alimentos atualmente usados pelo sistema de ajuda alimentar, de fato funcionam para prevenir e curar a desnutrição grave – e podem ser usados em uma escala muito larga. Medidas imediatas devem ser tomadas para aumentar os recursos disponíveis para programas que forneçam alimentação adequada às milhões de crianças que precisam desesperadamente de ajuda.

Emergências médicas humanitárias persistiram ao longo de 2009 em diversas partes do Sudão. Além da crise em curso em Darfur, populações do Sul do Sudão enfrentaram uma situação deteriorante marcada pela escalada da violência, surtos de doenças e pouco ou nenhum acesso a cuidados de saúde

Quase cinco anos depois do Acordo de Paz Compreensiva (APC) ter encerrado longas e brutais décadas de guerra civil, as necessidades médicas no Sul do Sudão continuam em níveis urgentes, e as crescentes tensões estão criando uma situação de segurança precária. Ao longo do ano, violentos confrontos entre comunidades em Jonglei, no alto do Nilo, em Warrap e nos Estados dos Lagos deixaram centenas de mortos e milhares de deslocados. Ataques esporádicos nos vilarejos perpetrados pelo grupo rebelde ugandês Exército de Resistência do Senhor (LRA na sigla em inglês), próximos à fronteira congolesa e também na própria República Democrática do Congo (RDC), fizeram milhares de sudaneses fugir de suas casas e refugiados congoleses cruzarem a fronteira em busca de refúgio no estado de Equatoria.
 

Esses níveis crescentes de violência no sul ocorrem num contexto de pessoas que lidam com as consequências devastadoras de uma guerra civil que terminou em 2005. Hoje, quase três quartos da população não têm acesso nem mesmo aos serviços de cuidados de saúde mais básicos. Ao longo do ano, os 1,2 mil integrantes de MSF que estão no terreno trataram milhares de desnutridos, tuberculosos e pessoas infectadas com malária e providenciaram uma ampla rede de cuidados obstétricos e ginecológicos em diversas partes do país. Surtos de Meningite, sarampo, cólera e malária são comuns. Em 2009, MSF respondeu combateu a cólera no norte dos estados de Bahr-el-Ghazal, Jonglei e Warrap e na capital Juba. MSF também está respondendo a um surto de kalazar – uma doença parasítica fatal, caso não seja tratada – em Jonglei e nos estados do alto Nilo.

A população de Darfur também encara uma situação precária. Milhões continuam internamente deslocados e pedem ajuda de fora, enquanto violências esporádicas ligadas à guerra e aos confrontos associados aos recursos continuam causando um custo humano ao longo do ano. Providenciar comida, água e ajuda médica para a população de Darfur se tornou muito mais difícil após o governo sudanês ter expulsado 13 agências internacionais de ajuda – incluindo duas seções de MSF – e três organizações sudanesas pedirem junto a Corte Criminal Internacional (CCI) a acusação do presidente sudanês Omar Al-Bashir por crimes de guerra e crimes contra a humanidade.

Desde a criação da CCI, todas as seções de MSF adotaram uma política interna obrigatória determinando a abstenção de qualquer cooperação com o CCI. Essa política é baseada no reconhecimento de que atividades humanitárias devem permanecer independentes do risco de pressão política ou judicial de modo a serem capazes de providenciar assistência médica para populações em situação de violência.

Trabalhadores de ajuda humanitária que continuam atuando lutam para oferecer assistência humanitária significativa para aqueles que precisam, mas como a insegurança geral e seqüestros de pessoal de ajuda reduzem as possibilidades de acessar novas necessidades, muitas áreas, particularmente as rurais, estão excluídas da assistência. Respondendo às necessidades em curso de aproximadamente 2 milhões de pessoas em campos de deslocados também é extremamente desafiador. MSF continua totalmente comprometida com assistência médica imparcial e atualmente trabalha em diversas localidades de Darfur.

Mais de 400 milhões de pessoas correm o risco de contrair as doenças tropicais negligenciadas (DTN) como leishmaniose visceral (Kalazar), doença do sono, doença de Chagas e úlcera de Buruli. As três primeiras estão entre as mais mortais doenças tropicais negligenciadas, e todas as quatro foram destacadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como especialmente problemáticas devido ao fato do tratamento e diagnóstico serem antigos, ineficazes, ou pior, simplesmente não existentes, e com os pacientes presos em áreas remotas ou inseguras com pouco ou nenhum acesso à saúde. Ainda pior, pesquisa e desenvolvimento (P&D) de novos medicamentos e diagnósticos são lamentavelmente pouco financiados. A não ser que haja um aumento substancial dos recursos disponíveis para programas nacionais de controle, desenvolvimento de disgnóstico e tratamentos ativos para os pacientes, investimentos em iniciativas de prevenção, assim como P&D dedicados a desenvolver novas ferramentas, as vítimas dessas doenças vão permanecer negligenciadas.

Cerca de 500 mil novos casos de kalazar são registrados a cada ano, e a doença tem crescido como uma infecção oportunista para pessoas infectadas com HIV/AIDS. Anfotericina Lipossomal B (AmBisome) é um tratamento altamente eficaz, mas o seu custo e logística têm restringido um uso mais amplo. Por exemplo, em Bihar, na Índia, MSF paga US$18 por frasco desta droga. O tratamento em curso pode chegar a custos que variam de US$ 200 a US$ 300 por paciente, tornando-o demasiado caro para uma ampla implementação por ministérios da saúde e para ser pago pela maioria das pessoas. A única outra opção para a maioria dos pacientes é passar por 28 dias de injeções intramusculares extremamente dolorosas de estibogluconato de sódio (SSG), uma droga desenvolvida na década de 30.

A fatal e parasítica doença do sono (trypanosoma humano africano) é encontrada na África subsaariana e os pacientes são especialmente vulneráveis em regiões de conflito armado onde a doença é endêmica e os serviços de saúde são mínimos. MSF atualmente organiza programas em dois países com esses problemas, A República Democrática do Congo (RDC) e a República Centro Africana (RCA). MSF recentemente testou com sucesso uma nova combinação de tratamento, uma terapia de nifurtimox com eflornitina (NECT). A fórmula veio da Iniciativa Medicamentos para Doenças Negligenciadas (DNDi, na sigla em inglês), e é mais fácil de administrar, além de ter duração mais curta que os esquemas de tratamento mais antigos. A combinação é consideravelmente mais segura do que o tratamento padrão existente, melarsoprol, um medicamento à base de arsênico que mata até 10% dos pacientes. NECT já foi adotada por alguns países, mas os esforços para uma maior aplicação devem continuar.

A doença de Chagas (trypanossoma americano) é endêmico em partes da América Latina, com até 15 milhões de casos ao redor do mundo, incluindo 300 mil nos EUA. Um número estimado de 30% dos pacientes desenvolverá complicações digestivas e cardíacas que podem causar a morte. Poucos tratamentos e diagnósticos existem para essa doença e MSF atualmente desenvolve três programas na Bolívia e na Colômbia. Uma resposta médica para Chagas requer testes ativos, tratamento com as drogas atualmente em uso – benzonidazol e nifurtimox – e pesquisa e desenvolvimento de novos diagnósticos e medicamentos.

Embora não seja mortal, a úlcera de Buruli, que é da mesma família da hanseníase e da tuberculose, pode causar deformidades e deficiência e às vezes infecções secundárias com risco de vida. MSF atualmente trata a doença em Camarões e, apesar de tratamentos simples e eficazes como antibióticos, tratamento adequado de feridas, fisioterapia e pequenas cirurgias existam, eles não estão disponíveis na quantidade suficiente.

Em termos humanos, o custo da negligência em curso para essas doenças é enorme. Os gastos com P&D para essas quatro doenças foi muito baixo, cerca de US$ 81,4 milhões, de acordo com uma análise de 2008. Novos mecanismos de financiamento e incentivo são urgentemente necessários para garantir que P&D sejam orientados por necessidades médicas e não apenas por mercados lucrativos.

A Iniciativa de Saúde Global, recentemente anunciada pelos EUA, focaliza algumas doenças negligenciadas, mas não inclui ainda essas quatro, ameaçando ainda mais a negligência em torno das doenças que têm impacto nas populações mais empobrecidas e marginalizadas do mundo. É preciso que pessoas sofrendo desses quatro males tenham acesso imediato aos tratamentos disponíveis, assim como são necessários maiores esforços para desenvolver tratamentos mais efetivos com menos efeitos colaterais e melhores diagnósticos para pacientes no futuro.


Quando a Guerra no Afeganistão se intensificou em 2009, os civis passaram por níveis crescentes de violência em todo país. A insegurança prejudicou o já frágil sistema de saúde, deixando apenas alguns poucos hospitais com funcionamento precário disponíveis nas capitais das províncias. Afegãos que necessitam de quaisquer cuidados médicos devem agora fazer uma escolha impossível: arriscar uma viagem de milhares de quilômetros através de uma zona de guerra para buscar ajuda médica ou esperar que a situação piore até que apenas chegar a uma estrutura de saúde onde os serviços foram enormemente diminuídos se torne um risco de vida.

MSF retornou ao Afeganistão depois de quase cinco anos de ausência devido ao assassinato de cinco membros da organização em junho de 2004. Naquele momento, muitos esperavam que o Afeganistão estivesse em uma situação de pós-conflito. Hoje, a esperança foi despedaçada e a necessidade de assistência médica emergencial continua aguda.

No leste de Cabul, MSF começou a apoiar uma ampla rede de serviços médicos no hospital de Ahmed Shah Baba, em uma área onde o afluxo de refugiados do Paquistão e de deslocados que fogem da guerra nas províncias quase que quadruplicou a população. Apesar das necessidades e da baixa cobertura médica, essa área tem sido negligenciada, pois não é uma prioridade nas políticas de ajuda contra-insurgência. MSF também começou a trabalhar no único hospital público geral que ainda funciona em Lashkargah, a capital da província de Helmand. Pelo fato de a maioria do pessoal do hospital trabalhar no setor privado, e os remédios serem muito caros, poucas pessoas tem buscado ajuda lá.

Infelizmente, conforme as necessidades aumentam, se torna cada vez mais difícil para organizações de ajuda neutras e imparciais convencerem todas as partes envolvidas que seu único objetivo é levar ajuda. A distinção que já foi clara entre exércitos, atividades de reconstrução e desenvolvimento e ajuda humanitária se tornou confusa a partir do momento em que ajuda médica se tornou parte do campo de batalha: forças de coalizão internacional cooptaram assistência para iniciativas de “corações e mentes”, ocuparam hospitais e prenderam pacientes em suas camas enquanto grupos armados de oposição fizeram de trabalhadores humanitários e estruturas de saúde alvos por causa da presença de forças internacionais.

Para ser aceito por todas as partes envolvidas no conflito, uma organização médica como MSF deve demonstrar, e comunicar claramente, completa imparcialidade, neutralidade e independência, por exemplo, não tomando nenhum partido no conflito, se recusando a aceitar fundos de qualquer governo que trabalhe no Afeganistão e no Paquistão e assegurando que nenhuma força militar, sejam elas nacionais, internacionais ou de oposição, entre no hospital com suas armas.

Em 2009, a população somali continuou a ser vítima de violência indiscriminada, enquanto uma grave seca atingiu várias partes do país. Milhares de pessoas necessitam urgentemente de serviços de saúde, no entanto a já enorme lacuna entre as necessidades dos somalis e a resposta humanitária no terreno continua a crescer. Raptos e assassinatos de trabalhadores humanitários somalis e estrangeiros estão comprometendo os esforços das organizações humanitárias para responder as necessidades, e o sistema público de saúde continua perto de um colapso total.

Isso ocorre apesar do momento político que começou no início do ano com a eleição do novo presidente, o xeque Sharif Sheikh Ahmed. Na capital Mogadíscio, confrontos foram registrados entre a União Africana e as Forças do Governo Federal de Transição, que tem apoio da Organização das Nações Unidas (ONU), e grupos de oposição. Continua impossível verificar o número de baixas humanas no conflito, mas grupos de Direitos Humanos e as Nações Unidas estimam que entre 20 mil e 25 mil pessoas tenham morrido devido aos conflitos e inúmeros outros ficaram feridos desde que em 2007, junto com a renovação do deslocamento de mais de 1,5 milhões de pessoas, conflitos pesados em Mogadíscio e outras parte da Somália Central e Sul nos últimos 12 meses.

Uma equipe médica cirúrgica que trabalha no Hospital Daynile, fora da capital, tratou mais de 2,4 mil feridos de guerra, demonstrando alto nível de violência na cidade. Em fevereiro, a equipe tratou civis feridos em uma dramática retomada de conflitos, recebendo 121 admissões em apenas um único dia. Quarenta e sete dos feridos eram mulheres e crianças com menos de 12 anos de idade.

A violência não se limita à capital, uma vez que uma equipe cirúrgica de MSF que estava na cidade de Galcayo, no norte, tratou mais de 320 vítimas de violentos traumas durante o ano. “A explosão aconteceu depois de meia-noite e o hospital ficou lotado de feridos”, contou o cirurgião de MSF Dr. Maslah. “Nós realizamos todos os tipos de cirurgia, no entanto, pacientes feridos de guerra compõem metade das pessoas que operamos”. No início de 2009, novos confrontos em Guri El e Dhusa Mareb, na Somália Central, fizeram com que milhares de civis fugissem de seus lares. MSF ofereceu suprimentos de água e atendimento médico para as pessoas deslocadas na área.

O impacto desses altos índices de violência e insegurança ultrapassa as unidades cirúrgicas de MSF, contribuindo para uma falta de acesso a cuidados de saúde básicos em todo o país. A habilidade de MSF em promover assistência diminuiu ainda mais quando, em abril, dois integrantes da equipe de MSF foram capturados em Huddur, na região Bakool, levando ao fechamento de seu maior centro de saúde do Sul e da Somália Central e de outros quatro postos de saúde. Em junho, um funcionário de MSF morreu em uma explosão em Belet Weyne, na região Hiraan, que provocou a morte de outras 30 pessoas.

Em julho, o alto nível de insegurança forçou MSF, pela primeira vez em 17 anos, a fechar suas atividades no hospital pediátrico e três outras clínicas de saúde no norte de Mogadíscio, uma vez que a equipe teve de fugir para garantir sua segurança.

Outro grande desafio é a falta de equipe médica qualificada na Somália, com muitos dos trabalhadores de saúde entre os que tiveram de fugir da violência e sem universidades médicas abertas. Em dezembro de 2008, havia um raio de esperança com a graduação de 20 médicos pela Universidade Benadir, em Mogadíscio – a primeira classe de novos médicos a se formar em duas décadas.  Essa esperança durou pouco devido ao bombardeamento da cerimônia da turma de graduação seguinte, no dia 3 de dezembro de 2009, provocando a morte de 23 pessoas, a maior parte graduandos, e ferindo mais de 50 pessoas.

A falta de atendimento médico gratuito em todo o país evidencia os problemas de saúde enfrentados pela população devido à pobreza crônica e a grave seca deste ano. Apesar de poucos dados confiáveis estarem disponíveis nacionalmente, os indicadores de saúde na Somália estão entre os piores em termos de imunização, mortalidade materna, desnutrição e acesso a serviços de saúde básicos. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, as mulheres têm uma entre dez chances de morrer durante a gravidez ou parto durante sua vida. Uma em cada cinco crianças com menos de cinco anos é gravemente desnutrida.

Essas estatísticas são testemunhadas pela comprometida equipe de MSF, formada por 1,4 mil somalis, que trabalham diariamente nos centros de tratamento nutricional e hospitais, com o apoio de uma equipe internacional baseada em Nairóbi, no Quênia. Eles oferecem atendimento de saúde gratuito para a população somali que não têm alternativas. Os pacientes às vezes viajam por milhares de quilômetros até chegar a uma clínica ou hospital de MSF, ou sofrem isolados devido a doenças altamente preveníveis, como sarampo. Entre abril e julho, um surto de sarampo se espalhou pela cidade de Guri El e arredores da região Galgaduud no Sul e Somália Central. MSF tratou 403 pacientes com complicações relacionadas ao sarampo na área, mas foi impedida de realizar uma campanha de vacinação em massa devido à insegurança. Em Hawa Abdi, onde milhares de pessoas que fugiram de Mogadíscio procuraram refúgio, MSF conseguiu vacinar 30 mil crianças contra o sarampo.

Uma seca e a morte de uma grande quantidade de animais domésticos provocaram uma emergência nutricional em Galcayo e arredores. “Sei que muitos morrem no vilarejo”, contou Ubah, uma mãe cujo filho foi uma das 1,3 mil crianças gravemente desnutridas que entrou no programa nutricional de MSF em Galcayo no início de dezembro, representado quase metade dos casos tratados no programa em 2008. “A viagem não é só longa, mas também cara, e muitos não têm dinheiro para fazê-la”.

Dezenas de milhares de Somalis continuam a fugir para os países vizinhos Djibouti,Quênia e Iêmen. MSF oferece assistência para refugiados nesses três países, assim como em Malta e até recentemente na Itália. No norte do Quênia, em 2009, cerca de 270 somalis se assentaram nos arredores do já lotado campo de refugiados de Dadaab, onde lutam para obter a assistência mais básica como comida, água e saneamento.