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Desnutrição no Paquistão: “Eu falo para todos os pais que as crianças devem ser adequadamente alimentadas, para que fiquem fortes e resistam às doenças”

03/08/2016
Pediatra de MSF fala sobre o trabalho com crianças desnutridas em centro de saúde na cidade de Dera Murad Jamali, no Paquistão

Sahar Iftikhar, pediatra paquistanesa, fala sobre o seu trabalho com crianças desnutridas em centro de saúde apoiado pela organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) na cidade de Dera Murad Jamali, no Paquistão. A médica faz um apelo para que pais e responsáveis sejam atentos à boa nutrição dos filhos.

Se uma mulher perde o marido, ela é viúva. Uma criança que não tem pais é chamada de órfã. Mas quando alguém perde um filho, que palavra usamos para definir essa pessoa depois de sua perda?

A pediatra de MSF Sahar Iftikhar (Foto: MSF)Eu, pelo menos, não conheço nenhuma palavra para isso.

Eu sinto que a perda é tão imensa e a dor tão perturbadora que as pessoas ainda não conseguiram criar nenhuma palavra que descreva fidedignamente o sentimento de um pai que encara a morte de um filho.  

Como médica pediatra, lidar com pais que perderam filhos é muito comum para mim. Somos treinados a dar a notícia ruim da melhor forma possível e oferecer um lenço ou mesmo um abraço. É meu dever deixar claro que fiz o meu melhor, que usei o máximo de recursos, recorri a toda a assistência possível e, mesmo assim, não consegui salvar a criança.  

Mas uma coisa que eu nunca digo a eles é que eu também sinto a dor da perda. Para mim, o sentimento é de fracasso pessoal.

Em Dera Murad Jamali, onde trabalho no hospital distrital central, minha lista de fracassos pessoais está ocupando muitas páginas. Infelizmente, é difícil que passe um dia sem que eu declare algum horário de morte, causa de morte ou modo de morte.  Às vezes, eu sinto que também deveria descrever as circunstâncias que cercaram a morte.

O mais chocante que eu já presenciei aqui é um sentimento de apatia indefinível. Os que já perderam um ou dois filhos simplesmente dizem que “foi a vontade de Deus”, talvez como forma de lidar com as notícias ruins que continuam recebendo. Sem lágrimas, sem questionamentos, sem sensação de culpa, sem nada. Também há aqueles que acreditam que “Deus vai nos dar mais”. Eles levam o corpo e saem do hospital silenciosamente. Alguns poucos perguntam: “O que aconteceu?”

Para a maioria deles, eu dou a mesma explicação. Devido à deficiência nutricional grave e já avançada, o corpo do bebê não pôde reagir adequadamente. Também digo a eles que uma boa nutrição é a chave e uma maneira de prevenir problemas, já que eles provavelmente têm outros filhos que ainda podem ser salvos.

Muitas vezes eu ouvi pais dizerem que o bebê estava perfeitamente bem até dar entrada no hospital. Pode ser que sim. Pode ser que eles nunca percebam que era apenas a calmaria antes da tempestade. Uma questão importante em Dera Murad Jamali e na região é a pobreza.  Já vi pais esperarem até a madrugada para levarem o corpo dos filhos do hospital porque poderiam pagar por um riquixá mas não por uma ambulância. Houve algumas ocasiões, de cortar o coração, em que famílias não podiam pagar nem pelo riquixá.

Muitas crianças nessa região sofrem de desnutrição aguda grave. A doença é definida quando se atinge um peso muito baixo para a altura ou pela presença de edema nutricional (um tipo de inchaço provocado por insuficiência de proteínas na dieta).

Quando uma criança entre seis e 59 meses passa muita fome, se ela não for tratada tem mais chances de morrer do que uma criança saudável na mesma situação e é considerada portadora de desnutrição aguda grave. Isso é o que acontece aqui. Esse tipo de desnutrição também enfraquece o sistema imunológico e a capacidade de combater possíveis vírus. Desse modo, uma enfermidade simples pode acabar sendo fatal.

Aqui em Dera Murad Jamali, classificamos dois grupos de crianças portadoras de desnutrição aguda grave: as que têm até seis meses e as que têm entre seis e 59 meses de idade. Uma das principais causas de desnutrição antes dos seis meses é a falta de aleitamento materno. O leite materno satisfaz todas as necessidades nutricionais da criança.

Depois dessa idade, quando começa o desmame, muitos pais deixam de introduzir outros alimentos na dieta dos filhos. Eu tentei entender por quê. Há muitas razões. Muitas crianças em casa para pouca quantidade de comida é uma delas. Outra razão: mães que trabalham no campo o dia inteiro, sem ter meios de cuidar da própria saúde e da dos filhos. A falta de conscientização sobre aleitamento materno e boa nutrição também contribui para a situação piorar. Por último, mas não menos importante, está o fato de a comida ser algo inacessível para muitas pessoas. 

MSF já trabalha aqui há seis anos. Todos os dias, na ala de alimentação terapêutica do hospital distrital central de Dera Murad Jamali, temos sete ou oito crianças com desnutrição aguda grave. Algumas sobrevivem e outras não, porque normalmente elas já chegam ao atendimento em condições críticas.  

Uma dessas crianças era Amanullah. Ele tinha um ano e meio e chegou até nós com desnutrição aguda grave e suas complicações – a receita perfeita para o desastre. Ele estava definhando e sofrendo de malária já avançada. Começamos ministrando medicamentos contra a malária e dando a ele alimentação terapêutica. Porém, quando os parasitas da malária começam a morrer, eles provocam reações. Amanullah teve aumento na frequência respiratória, o que fez com que descontinuássemos a alimentação por causa do risco de aspiração do alimento.

Amanullah passou a receber terapia intravenosa, e também passou por uma transfusão de sangue. Ao que tudo indicava, ele estava desenvolvendo uma complicação da malária chamada edema pulmonar, quando os pulmões se enchem de fluido. Amanullah ainda pedia por água. Mesmo com a máscara, os fios intravenosos e os tubos de alimentação no nariz, ele conseguia comunicar o que queria. Nossos esforços valeram a pena, e ele foi melhorando. Sua demanda por oxigênio foi diminuindo lentamente de massivos 10 litros por minuto para cerca de dois litros. A mãe de Amanullah já parecia menos preocupada. Na manhã seguinte, quando fomos vê-lo, eu percebi que ele ainda tinha alguma dificuldade de respirar, mas já melhorando. Eu atualizei a mãe dele, que me disse: “Deus trouxe você para cuidar de nós”. Eu sorri e respondi: “De fato”.

Eu digo a todos os pais que as crianças devem ser adequadamente alimentadas, para que fiquem fortes e resistam às doenças. Isso é o que todos os pais precisam saber. Prestem muita atenção à nutrição de seus filhos, assim eles terão força suficiente para enfrentar doenças – e nos ajudem, como médicos, a salvar suas vidas.