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Desnutrição no Baluchistão: entrevista com Raj Batra, médico de MSF

09/01/2015
“Leite materno é uma nutrição completa. Ele oferece os anticorpos que as crianças precisam”

Uma boa nutrição é fundamental nos primeiros anos de vida. Sem ela, o risco de contrair doenças oportunistas e infecções aumenta. A desnutrição resulta em falta de concentração, o corpo para de processar os alimentos e isso afeta o crescimento e o bem-estar geral da criança. O dr. Raj Batra trabalha com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) como responsável médico no programa de nutrição da organização no leste do Baluchistão desde 2013. Ele explica alguns dos fatores e consequências em volta da desnutrição e por que a solução às vezes é tão simples como amamentar um bebê.

Você pode explicar o conceito de desnutrição?
Desnutrição é um nível inadequado de nutrientes no corpo. Nos contextos onde MSF atua, ela refere-se à falta de nutrientes como minerais, níveis calóricos e vitaminas. No Paquistão, há diferentes níveis de desnutrição: desnutrição aguda e desnutrição aguda grave (precisa repetir “desnutrição” nesses casos?). A diferença é calculada com base no grau em que o peso da criança difere do de uma criança “normal”.

Quais são os efeitos da desnutrição nos seres humanos?
A desnutrição afeta o sistema imunológico e aqueles que estão desnutridos têm dificuldade em lutar contra a doença. Isso acontece porque doenças como infecções do trato respiratório podem aparecer. O corpo não consegue funcionar bem e fica mais vulnerável. A desnutrição prejudica o crescimento das crianças e essa é uma razão pela qual focamos no tratamento de crianças com menos de cinco anos. Esses pacientes têm um nível de peso desproporcional. Eles têm menos do que deveriam ter para sua idade. Algumas crianças ficam muito fracas para processar o alimento, então também temos que dar medicamentos a elas.

Que tipos de pessoas procuram pelos serviços de MSF?
A maioria de nossos pacientes são mulheres e crianças, e vivem predominantemente de condições sócio-econômicas precárias. Elas normalmente trabalham na agricultura e no campo, e estão muito distantes da cidade, então o alimento não é facilmente acessível.
 
A desnutrição é um problema no Baluchistão?
A situação aqui é pior do que em outros lugares no Paquistão. Os níveis de desnutrição no leste do Baluchistão são inaceitavelmente altos. Nós vemos muitos casos em áreas ao redor de Dera Murad Jamali. Uma vez, eu vi uma criança que tinha por volta dos quatro anos e meio de idade e pesava apenas 4kg.

Quais são as causas que levam à desnutrição generalizada?
Acesso a cuidados de saúde é o maior problema na maioria dos lugares onde a desnutrição é generalizada. No leste do Baluchistão, a situação de segurança alimentar não é boa e também houve enchentes devastadoras em 2010 e 2012 que tiraram o sustento de muitas pessoas. A falta de educação também é um fator importante e os hábitos de amamentação estão ligados a isto. Nós recomendamos que as mulheres amamentem durante os seis primeiros meses de vida de seus bebês, mas o que vemos é uma tendência em usar fórmula. O índice de infecção aumenta com o uso de fórmula. O leite materno tem propriedades benéficas e oferece uma nutrição completa à criança. Ele oferece ao bebê os anticorpos necessários para lutar contra doenças. Também temos visto disparidade de gênero no comportamento de saúdeAs pessoas buscam por cuidados de saúde menos ativamente se tiverem uma menina.

Por que algumas mulheres param de amamentar?
As mães geralmente trabalham nos campos e muitas vezes as avós cuidam das crianças. Tenho visto muitas mulheres trabalhando nos campos até pouco tempo antes de terem seu bebê, e muitas delas voltam só duas horas depois de darem à luz. É dado aos bebês leite de búfala ou de vaca e eles também começam a comer alimentos sólidos após o primeiro mês. Isso é muito ruim para a criança e afetará seu crescimento.

É importante criar consciência entre a população?
Nossos promotores de saúde trabalham o tempo todo para encorajar mães a amamentarem. Sem educação e promoção de saúde nós não podemos mudar os padrões. Instruímos mães sobre como amamentar e nossos profissionais vão de porta em porta para falar com elas. Também estamos pensando em ir às escolas para abordar a questão.

Escrito por Igor G. Barbero, assessor de imprensa de MSF

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