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Descoberta outra região devastada pela fome em Galangue

16/05/2002
Descoberta outra região devastada pela fome em Galangue

Uma nova avaliação de campo, conduzida em Galangue, a 37 quilômetros sul de Bunjei (província de Huila), onde Médicos Sem Fronteiras iniciou uma missão de caráter emergencial há um mês, relevou uma outra região devastada pela fome, na qual milhares de pessoas correm risco de vida. Nas últimas duas semanas, Galangue tem sido o local utilizado para a desmobilização de tropas da Unita e de seus familiares. Estes soldados, que têm chegado em Galangue pelo rio Cubango, trazem com eles aproximadamente 10 mil pessoas.

“Vejo todos os dias uma mulher chorando pelo filho que acabou de perder”, diz Tereza, de 20 anos, que chegou em Galangue.

A equipe de MSF contou 31 novas covas em duas semanas e estimou a taxa de mortalidade em 5 por 10 mil ao dia (cinco vezes mais maior que o limite de alerta). A maior causa de mortalidade é a desnutrição aguda. Nosso rápido inquérito nutricional, do qual participaram 538 crianças com menos de cinco anos, indicou que mais de um quarto das crianças entrevistadas e que ainda estão vivas sofrem de severa desnutrição, e que 18% sofrem de desnutrição moderada (42% da desnutrição global). Inclusive, quatro crianças morreram quando a equipe estava efetuando a pesquisa (um dia), enquanto 188 pessoas necessitaram de cuidados imediatos (130 crianças com menos de 5 anos, 50 com idades de 5 a 10 anos e 8 adolescentes e adultos). Um primeiro grupo foi transferido em caráter de emergência para Caala na madrugada de sábado, 11 de maio, para domingo, dia 12, e os outros estão sendo transportados para lá de caminhão. O centro de nutrição de Caala já está cuidando de 850 crianças severamente subnutridas.

Para lidar, nos próximos dias, com a recente situação de crise, MSF montou equipes médicas móveis em Galangue (que lidam com situações emergenciais e estabilização de pacientes antes de suas transferências). MSF logo começará a distribuição de alimentos para famílias com crianças menores de 10 anos. No período de poucas semanas, MSF iniciou missões em Bunjei, Chipindo, Chilembo (nas províncias de Huambo e Huila), Damba (província de Malange), Menongue (província de Cuando Cubango), Chitembo, Camacupa e Kuito (província do Bié), para proporcionar cuidados médicos a pessoas que estão próximas da morte.

Desde março, a equipe de Médicos Sem Fronteiras trabalhando em Angola descobriu dezenas de milhares de pessoas passando fome e doentes. Presas nas regiões disputadas pelos grupos em guerra, eles ficaram muitos anos sem acesso à assistência humanitária. Tendo sido aprisionados por lados antagônico alternadamente, eles têm vivido num estado de escravidão nos últimos 3 anos. Eles foram desalojados, através da força ou por ameaça da mesma, e suas vilas e casas foram queimadas e destruídas freqüentemente. Um modelo constante de ataque, represália e pilhagem sistemática os tem impedido de plantar e colher, desprovendo-os dos recursos básicos e condenando-os a uma vida de miséria.

Sem uma distribuição generalizada de comida, uma vasta e imediata mobilização por parte das autoridades e agências humanitárias, centenas de milhares de pessoas podem morrer dentro em breve.
Num esforço de lidar com estas crises, MSF triplicou sua equipe de expatriados nessas regiões. MSF está presente em Angola desde 1983. A organização tem mais de 150 expatriados e mais de 1000 empregados locais em 11 das 18 províncias do país.