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Desastre humanitário em Darfur: a ajuda que chega está longe de ser suficiente, diz MSF

27/07/2004
Presidente do Conselho Internacional de MSF passou um mês atendendo em clínicas e em campos na região e alerta para o fato de que uma enorme quantidade de pessoas pode morrer. Faltam alimentos, água, banheiros etc, e a violência tem sido contínua.

Apesar do interesse político e jornalístico em relação à crise em Darfur, oeste do Sudão, ser cada vez maior, a organização internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) informa que a condição de desespero vivida pelas pessoas na região não está melhorando.

O Presidente do Conselho Internacional de MSF, Dr. Rowan Gillies, que acaba de passar um mês trabalhando nas clínicas e nos campos em Darfur, diz: "o que se vê lá é um sofrimento generalizado, ajuda humanitária inadequada e violência contínua". Mesmo com um melhor acesso à área e com a chegada de mais organizações e profissionais de ajuda humanitária, as necessidades emergenciais ainda não estão sendo atendidas. "Quase ninguém está recebendo os cuidados que civis deveriam receber durante um conflito", diz Dr. Gillies. "A situação é de desastre e uma quantidade enorme de pessoas corre o risco de morrer".

"Estou bastante preocupado com a situação nutricional", continua Dr. Gillies. "Por exemplo, em um grande campo de deslocados próximo a El Geneina, apenas 35% das pessoas deslocadas possuem um cartão que lhes dá o direito de receber alimentos da ONU. E a última vez que eles receberam alguma comida foi no final do mês de maio – há mais de sete semanas".

A distribuição de alimentos é inadequada e irregular em Darfur. Uma pesquisa nutricional realizada em quatro campos de deslocados entre maio e junho mostra que os índices de desnutrição severa estão entre 4,1 e 5,5%. MSF acredita que mesmo com a distribuição de alimentos feita pelo Programa de Alimentação Mundial, recentemente, apenas metade das necessidades básicas por alimentos será atendida em julho. Crianças com menos de cinco anos de idade são as mais vulneráveis. Atualmente, MSF está tratando cerca de 8.000 crianças desnutridas na região de Darfur.

Os índices de mortalidade já estão bem acima dos índices considerados emergenciais. O que não é surpresa já que faltam água, alimentos, abrigos e banheiros, o que contribui para os altos níveis de diarréia em crianças, uma das principais causas de mortes.

Ao mesmo tempo, há informações contínuas de violência, estupro e intimidação contra a população. "Eu tratei uma mulher que havia sido estuprada e meninos que haviam sido espancados quando buscavam lenha do lado de fora dos campos de deslocados", diz Dr. Gillies. "Estamos extremamente preocupados com as informações de se transferir as pessoas dos campos para as cidades. Isto não deve ser feito sem o consentimento das pessoas. Muitas estão bastante assustadas e não querem retornar".

MSF acredita que a ajuda humanitária oferecida atualmente é insuficiente e teme que essa ajuda seja cada vez menor nos próximos meses. Ações urgentes são necessárias já que a situação é de emergência em toda a região de Darfur.

MSF vem trabalhando para ajudar as vítimas da violência e os deslocados em Darfur desde dezembro de 2003. No momento, temos cerca de 150 profissionais estrangeiros de ajuda humanitária e outros 2.000 profissionais locais em 17 áreas de Darfur.