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De refugiado a profissional internacional de MSF

07/06/2019
A história do sul-sudanêsl Thok Johnson Gony, coordenador médico de Médicos Sem Fronteiras (MSF)
De refugiado a profissional internacional de MSF

Foto: Dirk-Jan van der Poel/MSF

Um campo de refugiados não é o lugar ideal para uma criança crescer. Comida insuficiente, abrigo e assistência médica inadequados, bem como falta de educação, são comuns em um campo de refugiados. Foi em um deles que eu cresci.

Meu nome é Thok Johnson Gony. Eu nasci em Bor, na região do Alto Nilo no Sudão, em 1975, três anos após a assinatura de um acordo de paz, que pôs fim à primeira guerra civil do Sudão. Sem a certeza de que a paz seria mantida, minha família mudou-se para o campo de refugiados de Itang, na Etiópia, onde comecei minha educação primária.

Quando era uma criança refugiada, quase perdi a vida por causa do sarampo. Viver hoje é em si um milagre. Eu passei por muito sofrimento. Meus olhos lacrimejam sempre que me lembro da minha infância. Foi cheia de angústia, miséria e desesperança no campo de refugiados. Nós dependíamos de agências humanitárias para alimentação e abrigo. Para a coesão social, procurávamos receber comunidades que às vezes eram hostis a nós. Muitas vezes a vida o joga como uma corrente agitada, movendo-se entre pedras rochosas. Uma criança não merece uma vida assim.

Em face de todos esses sofrimentos com pouca idade, aprendi que deveria ter um propósito na vida. Limpei a mente da angústia que me consumia. Como resultado, comecei a me destacar na escola, um nível após o outro.

Crescer vendo profissionais médicos salvando vidas no campo de refugiados, incluindo o meu, me emocionou profundamente. Sua empatia me inspirou muito. Naquele momento, decidi que seria um profissional da área médica. Eu acreditava que, através da prática médica, eu retribuiria aquilo que foi feito por mim quando eu mais precisava de ajuda. O enorme desejo de ajudar diretamente as pessoas que necessitam de cuidados médicos tornou-se minha maior motivação.

Depois de obter meu diploma de bacharel em enfermagem, comecei a trabalhar com MSF em 2000, no hospital Akobo, na fronteira com a Etiópia. Eu trabalhei em vários departamentos, incluindo intervenções epidemiológicas, nutrição e departamento de emergência médica.

Depois, comecei a trabalhar com MSF em outros locais. Uma das experiências mais notáveis de que me lembro foi a atividade médica em Maban, logo após o Sudão do Sul conseguir sua independência do Sudão. Lembro-me do fluxo de repatriados e da diversidade de casos médicos que tivemos que atender.

Trabalhar ao lado de profissionais de diferentes partes do mundo aumentou minha experiência e me ensinou a beleza da humanidade. Eu queria viajar para longe para ajudar aqueles que precisam.

Em 2010, candidatei-me a fazer parte da equipe internacional de MSF. Quando chegou a notícia de que eu tinha conseguido, tive sentimentos contraditórios. Primeiro, não pude acreditar que meu trabalho duro havia superado meu sofrimento na infância. Em segundo lugar, fiquei empolgado porque sabia que levaria a bandeira do Sudão do Sul para o mundo humanitário internacional como provedor de serviços de saúde - meu sonho de infância. O dia inteiro um sorriso brilhou no meu rosto, como o sol sobre uma flor.

A ânsia de ir para a minha primeira missão começou a crescer. Eu imaginava como profissional como seria a vida em um país estrangeiro e como eu me relacionaria com colegas expatriados de outras partes do mundo. Como a comunidade local me perceberia? Todas essas questões que permaneciam em minha mente aumentaram meu nervosismo.

Desde 2012 venho realizando trabalhos em diferentes projetos ao redor do mundo, crescendo dentro da organização como membro da equipe médica para me tornar agora coordenador médico no Afeganistão, onde entre outras atividades abrimos um projeto que oferece cuidados a pessoas com tuberculose resistente a medicamentos (TB-DR).

Minha experiência em todos os países onde trabalhei é uma verdadeira manifestação de que o Sudão do Sul está cheio de profissionais, que podem trabalhar em qualquer parte do mundo.

De uma criança refugiada a um coordenador médico internacional. Não é uma ótima jornada?  
 

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