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Darfur: 'Uma crise de sofrimento humano'

14/11/2006
O presidente do Conselho Internacional de MSF, Dr. Rowan Gillies, fala sobre sua recente visita ao Sudão

Neste ano que passou, MSF registrou mais de 40 incidentes de segurança graves, que forçaram a organização a fechar ou reduzir suas equipes na maioria de seus programas de assistência na região de Jebel Marra.

No oeste de Darfur, MSF não pode mais encaminhar pacientes cirúrgicos e teve de suspender as ações humanitárias voltadas para cerca de 160 mil pessoas que já vivem com pouco acesso à assistência ou tratamento médico na cidade de Seleia. No sul de Darfur, equipes de MSF tiveram de deixar as cidades de Muhajariya e Shariya em várias ocasiões.

Dr. Gillies se encontrou com autoridades do governo do Sudão para externar as preocupações de MSF com relação à deterioração da segurança em Darfur, assim como para discutir as necessidades humanitárias na região. Nesta entrevista, ele fala sobre a situação atual.

Você trabalhou na cidade de Mornay, oeste de Darfur, em julho de 2004, e esteve lá em outubro passado. O que mudou?

A situação com certeza mudou desde que estive em Darfur dois anos atrás. Naquela época, havia pessoas que tinham se deslocado em até seis meses atrás. Havia um grande índice de violência e assassinatos de grande parte da população. As pessoas nos acampamentos precisavam de assistência imediata – comida e água. Houve surtos de doenças como hepatite E. Havia uma necessidade de uma resposta humanitária maciça e, naquele estágio, a resposta só estava começando a aumentar.

Hoje, a situação é bem diferente. MSF teve de reduzir suas atividades devido ao aumento dos confrontos e crescente insegurança em toda região de Darfur. Quando se trata de dados médicos, nas chamadas ilhas de assistência – os maiores acampamentos de deslocados internos situados nas cidades controladas pelo governo – que de fato conseguimos ter acesso, alguns parâmetros estão bem, em termos de nutrição e mortalidade. No entanto, há um grande sofrimento humano.

Essas pessoas ficaram presas nesses acampamentos por mais de 30 meses. Eles não podem deixar os acampamentos para coletar itens básicos para sua sobrevivência, como alimentos e água porque há um grande risco de serem mortos ou estuprados. E esses são supostamente os de sorte, ou seja, os que podem ter acesso a alguma assistência.

A insegurança existe em vários níveis em Darfur. Há muitos lugares onde MSF não pode chegar devido à grande insegurança e nós simplesmente não sabemos como essa população está conseguindo sobreviver. Nós recentemente respondemos a uma deslocamento de 35 mil pessoas em Muhajariya, no sul de Darfur. Essas pessoas haviam se deslocado nas últimas três semanas. Eles têm necessidades agudas de água e comida. E se continuarem deslocados, vão continuar a enfrentar os mesmos problemas que as pessoas que deixaram suas casas em 2004. Você pode descrever a situação das pessoas como clinicamente estável, mas humanamente completamente inaceitável.

MSF têm trabalhado em Darfur há mais de dois anos, e somente neste ano foram registrados 40 incidentes de segurança graves envolvendo a equipe de MSF em Darfur – a maioria dos quais aconteceu em estradas e em cidades controladas pelo governo do Sudão. Nós somos alvo?

Houve um grande número de ataques violentos contra MSF, que variam de assaltos a agressões que são obviamente voltados contra trabalhadores humanitários. Nós não achamos que é especificamente contra MSF, mas certamente contra trabalhadores humanitários. Um grande número deles aconteceu em áreas controladas pelo governo, assim como em outras partes de Darfur.

Quem está no comando, e especialmente o governo, deve assumir a responsabilidade sobre o que acontece nas áreas que eles controlam.

Esses ataques direcionados nos fizeram suspender atividades, o que significa que, como médicos humanitários, fomos forçados a tomar a difícil decisão de deixar as populações que precisam de assistência porque é simplesmente muito perigoso para tentar chegar até eles. E isso aconteceu recentemente nas montanhas da região de Jebel Marra, em meio a um surto de cólera, de onde tivemos de tirar nossas equipes.

Nós tivemos de retirar nossas equipes quando devíamos estar as aumentando para proporcionar ajuda médica para salvar vidas. Hoje na área rebelde de Jebel Moon, ainda continua difícil saber qual é a situação das pessoas deslocadas devido aos recentes confrontos.

Esses ataques são parte de uma estratégia para limitar a ajuda?

É difícil saber. Há muitas pessoas dizendo que essa estratégia existe e outras que não. O resultado final é que a ajuda para estas pessoas está diminuindo. Há certas pessoas que precisam de assistência médica e não a estão recebendo, e nós não sabemos o que está acontecendo em grande parte de Darfur. Esse é o resultado, independentemente de qual seja a estratégia.

Recentemente, você esteve com autoridades do governo do Sudão em Cartum para discutir nossas preocupações. Qual foi a resposta deles? Eles estão preparados para fazer alguma coisa?

Os ministros que encontrei deixaram claro que eles são responsáveis pela seguranças dos trabalhadores humanitários nas áreas que eles controlam. Houve uma resposta positiva dessas autoridades no que diz respeito a garantir a segurança dos trabalhadores humanitários e nossa habilidade para nos movimentar livremente para atender às necessidades das populações afetadas.

Mas resta ver se as garantias deles vão ser combinadas com ações no terreno e isso significa a existência de uma habilidade de se locomover através das estradas de Darfur. Hoje, isso não é possível.
MSF tem vários programas que, até recentemente, foram desenvolvidos com base em um sistema de referência para pacientes que precisam de cirurgias, mas não podemos mais transferir os pacientes gravemente doentes porque as estradas estão muito perigosas. Em 2004, eu percorri a maioria das principais estradas de Darfur. Hoje, todas as principais estradas, com a exceção de apenas uma, são muito perigosas para se viajar. Todos os deslocamentos das equipes têm de ser feitos por avião.

Algumas organizações humanitárias se manifestaram sobre a permanência das tropas de paz da ONU em Darfur. Qual é o perigo representado por uma decisão como essa?

È frustrante trabalhar em Darfur e ver a violência contra civis. Você vê mulheres chegando às clínicas depois de terem sido estupradas e você vê uma guerra horrível acontecer e uma habilidade limitada de prover assistência. Há um desejo de encontrar uma solução e a tentação de sugerir uma 'maneira rápida' para resolver a situação, por mais ilusória que ela possa ser. No entanto, a responsabilidade das organizações humanitárias é de atender a população e descrever o que eles vêem. É assim que vemos nossa responsabilidade.

Uma vez que as organizações humanitárias se envolvem em negociações de paz ou assinam pedidos de intervenção militar, elas deixam o terreno de responsabilidade humanitária. Algumas organizações humanitárias pediram uma intervenção armada em Darfur.

O problema é que essas organizações estão prejudicando – realmente comprometendo – a neutralidade das organizações humanitárias, o que é essencial para trabalhar em zonas de guerra e crucial para a segurança dos trabalhadores humanitários. MSF precisa manter nossa neutralidade para nos permitir negociar com combatentes de todos os lados de um conflito para poder te acesso às populações em perigo.

Uma vez que você comece a recomendar intervenção armada – especialmente a que poderia ter início sem o consentimento do governo – você está recomendando essencialmente que outra parte deva entrar em guerra. Como uma agência humanitária, isso é algo que não devemos recomendar de maneira alguma. Não é nosso papel tomar partido em um conflito uma vez que isso pode por nossa equipe em grande perigo e ainda negar o princípio de neutralidade que nos permite trabalhar.

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