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Darfur: Cólera aparece após saída de agências humanitárias

31/08/2006
Nas últimas duas semanas, oito pessoas morreram devido à doença, entre elas uma criança de menos de cinco anos. Médicos Sem Fronteiras já tratou mais de 60 pacientes no Sudão

Oito pessoas – entre as quais uma criança com menos de cinco anos – morreram vítima da cólera em Mornay, oeste de Darfur, nas últimas duas semanas. A equipe de Médicos Sem Fronteiras (MSF) já tratou mais de 60 pacientes. Essa situação trágica ocorreu depois que várias agências humanitárias pararam de dar assistência aos moradores de campos de deslocados em Darfur.

Todos os fatores que contribuem para o aparecimento do cólera estão presentes em Mornay. Em 2003, o local era um pequeno vilarejo com cinco mil habitantes. Hoje, mais de 75 mil pessoas se refugiam lá, para fugir de assassinatos e violência. Por mais de dois anos, as pessoas estão aglomeradas em acampamentos provisórios. A multidão, falta de latrinas, saneamento precário e drenagem inadequadas formam uma combinação que deixa os deslocados particularmente vulneráveis.

MSF implementou o sistema de distribuição de água em 2004. Mais tarde, sua manutenção passou a ser administrada pela Oxfam e agora é feita por WES, uma organização local criada pela Unicef. Hoje, esse sistema apresenta falhas – tanto em termos de quantidade quanto de qualidade. Enquanto um mínimo de 20 litros de água são necessários para atender às necessidades básicas de uma única pessoa, os deslocados têm acesso a apenas 12 litros. Além disso, dois poços artesanais foram substituídos por um sistema que bombeava água de um poço, que estava cheio de lama e contaminado por bactérias (coliformes fecais). A lama dificulta o tratamento da água. Várias torneiras quebradas também não foram trocadas.


CAPTAÇÃO DE RECURSOS EM QUEDA LIVRE

"A cólera apareceu e oito pessoas já morreram", contou Hiam El Zein, chefe de missão de MSF no oeste de Darfur. "Essas mortes são o resultado de ajuda inadequada para as pessoas deslocadas. Em Mornay, como em outros locais onde dezenas de milhares de deslocados se aglomeraram, algumas organizações estão parando de oferecer serviços vitais. Isso pode ter acontecido porque governo e instituições doadoras reduziram seu financiamento ou porque esses grupos se envolveram em atividades de desenvolvimento. Em Mornay, a Unicef não manteve sua promessa devido à falta de verbas". De fato, em junho de 2006, a Unicef anunciou ter recebido apenas 3,1% do dinheiro pedido aos doadores (basicamente governos ocidentais). Dos US$ 89 milhões necessários, apenas US$ 2, 81 milhões foram pagos.

Como resultado, em Mornay, a WES não está recebendo verbas suficientes da Unicef. A falta de manutenção adequada e regular dos sistema de abastecimento de água – somada às precárias condições de saúde na qual os deslocados estão sendo obrigados a viver por mais de dois anos – é crucial para explicar por que a cólera surgiu no acampamento.

A equipe de MSF em Mornay tratou os pacientes e rapidamente estabeleceu um programa de tratamento da doença. Oito centros de hidratação satélite também foram criados. Em um acampamento como Mornay, mais de dois mil casos devem ser registrados. Tudo está preparado para que, caso seja necessário, o centro de tratamento aumente sua capacidade de atendimento para 180 leitos, se o número de pacientes aumentar de maneira significativa.

CONSEQÜÊNCIAS TRÁGICAS PARA OS DESLOCADOS

"Nós também temos que investir no sistema de distribuição de água de novo porque WES não tem equipe ou todo o financiamento da Unicef necessário para isso", contou El Zein. "Nós vamos instalar um sistema que vai nos permitir usar a água da superfície, que está limpa, e vamos descontaminá-la e tratá-la. Nossas equipes também ajudaram a aplicar spray de cloro nas áreas contaminadas".

Em 2005, quando muitas organizações chegaram em Darfur, MSF deixou de administrar o sistema de distribuição da água para voltar a focar em atividades médicas, dando assistência a novas emergências. A necessidade de assistência era, e continua a ser, muito grande entre as pessoas que vivem nesses campos. Eles dependem totalmente de ajuda externa para sobreviver. Apesar da situação em Darfur ter uma natureza mais crônica agora, pontuada por episódios violentos, ainda há um estado de emergência.

As pessoas têm a mesma necessidade de assistência e a redução de ajuda pode ter um impacto trágico para suas condições de vida. Em maio passado, MSF ficou preocupada com os efeitos da redução de distribuição de comida por parte do Programa Mundial de Alimentação durante o período mais crítico do ano, resultante da falta de verbas. Hoje em Mornay, MSF testemunha os efeitos reais da saída das agências humanitárias sobre as populações deslocadas.