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Cuidados interrompidos: enfrentando a COVID-19 em Bangladesh

08/07/2020
Unidades de saúde reduzem ou encerram serviços médicos habituais para se concentrarem em casos emergenciais
Cuidados interrompidos: enfrentando a COVID-19 em Bangladesh

Foto: Daniella Ritzau-Reid/MSF

Noor Haba é uma jovem mãe que vive em Bangladesh. Ela puxa seu lenço para o rosto com uma das mãos, enquanto com a outra acaricia as costas de sua filha Shahara, de 7 anos. A menina está semiconsciente na cama do hospital e recebendo tratamento para a talassemia, um distúrbio genético do sangue.

"Eu tenho medo o tempo todo", diz Noor Haba. “Me preocupo com meus filhos e minha família. Rezo para que essa situação melhore e para que eles fiquem bem”.

Em Bangladesh, o número de pessoas que sofrem com a COVID-19 vem aumentando persistentemente desde março. No momento da redação deste artigo, já eram mais de 149 mil casos. Mas, como na maior parte dos países, esses números mostram apenas uma pequena fração da história. A pandemia está tendo um efeito catastrófico em todos os aspectos da vida das pessoas: do aumento do desemprego ao acesso limitado aos cuidados básicos de saúde.

Isso não poderia ser mais evidente na enfermaria de pediatria do hospital materno-infantil Goyalmara de Médicos Sem Fronteiras (MSF) em Cox's Bazar. A enfermeira de MSF insere uma agulha no braço de Shahara e extrai sangue com uma seringa. Quando a criança grita e se contorce na cama, sua mãe a acalma. "É para encontrar um sangue compatível", explica a enfermeira.

As pernas e os braços de Shahara são finos e sua barriga é estufada pelo baço inchado por causa dos efeitos da desnutrição. A talassemia causa diminuição dos níveis de hemoglobina e pode ser fatal se não for tratada com transfusões de sangue regulares.

Shahara é a segunda dos cinco filhos de Noor Haba que sofre com a doença. A mãe deve levá-los ao hospital a cada dois meses para transfusões de sangue. Como não há banco de sangue na unidade, precisam de doadores voluntários. Mas, devido à pandemia, elas já estão esperando por um doador há três dias.

"Estamos pesquisando em todos os lugares", informa Noor Haba. “Normalmente, podemos encontrar facilmente alguém para doar sangue. Mas, desta vez, não consigo encontrar nenhum doador devido à situação da COVID-19. Ninguém quer vir ao hospital porque sente medo”.

Além do medo de contrair o vírus em uma unidade hospitalar, as pessoas têm dificuldades para se deslocar por causa dos bloqueios e sofrem com o valor das passagens do transporte público, que triplicaram.

Noor Haba e sua família enfrentam um dilema sombrio. O marido de Noor Haba perdeu o emprego como diarista durante a pandemia. Para manter suas filhas vivas, ela precisa fazer regularmente uma viagem de 90 minutos até o hospital, mesmo que a família mal possa comer. Quando a encontramos, ela tinha conseguido um empréstimo de 300 taka [cerca de 18 reais] para pagar a passagem de ônibus.

"É tão difícil", afirma Noor Haba. "Não tenho dinheiro para ir para casa. Temos cinco filhos e não sei como vamos alimentá-los”.

Antes da chegada da COVID-19 em Bangladesh, MSF havia finalizado acordos para enviar pacientes com talassemia a um centro cirúrgico próximo para realizar esplenectomias (remoção completa ou parcial do baço), reduzindo a necessidade de transfusões regulares de sangue e melhorando a qualidade de vida das pessoas. Mas a unidade não pode oferecer esse serviço durante a pandemia.

Diante da escassez de pessoal e da falta de suprimentos médicos essenciais e equipamentos de proteção individual, como máscaras, muitas unidades de saúde, incluindo as administradas por MSF, tiveram que tomar a difícil decisão de reduzir ou encerrar os serviços. Em Cox's Bazar e na capital Daca, MSF reduziu seus serviços médicos para se concentrar apenas em atividades que salvam vidas. O departamento ambulatorial do hospital Goyalmara está atualmente fechado.

O pediatra de MSF Ferdyoli Porcel analisa que o maior problema é que as pessoas começarão a morrer não pela COVID-19, mas por outras doenças. “Doenças normais que poderíamos tratar".

Estigma

Muitas pessoas que sofrem dos sintomas da COVID-19 enfrentam o duplo desafio de combater o vírus, juntamente com as consequências sociais de serem diagnosticadas como positivas.

Mohammad, um pai rohingya que vive em um dos muitos campos de refugiados em Cox's Bazar, foi diagnosticado com COVID-19 e levado ao hospital de MSF em Kutupalong, onde foi isolado e recebeu tratamento.

Embora as diretrizes globais de saúde afirmem que contatos próximos de um paciente infectado com a COVID-19 podem ficar em quarentena com segurança em casa, a família de Mohammad foi pressionada pela comunidade a deixar sua residência e realizar a quarentena em um local remoto. Mohammad ficou aterrorizado com o fato de sua família ser levada de casa contra a vontade.

"As pessoas estavam ameaçando, dizendo que iriam queimar nossa casa se minha família não entrasse em quarentena", diz ele. “Foi tão vergonhoso. Eles se sentiram extremamente assustados”.

Como MSF observou em surtos de doenças infecciosas em todo o mundo, do Ebola à difteria, a confiança é grande na resposta da saúde pública. As pessoas devem confiar que qualquer tratamento médico que receberem será respeitoso e humano, e que elas e suas famílias poderão se salvar se procurarem atendimento.

Pacientes com COVID-19 disseram à equipe de MSF que suas famílias são levadas para centros de quarentena contra a vontade, são ameaçadas de despejo de suas casas, e estão sujeitas à linguagem agressiva e ameaçadora. Tais experiências podem impedir que pessoas com sintomas busquem testes ou tratamento, aumentando ainda mais a disseminação do vírus.

Como Mohammad explica: "São experiências como essa que desencorajam as pessoas a irem a clínicas de saúde se tiverem sintomas de COVID-19".

Esperanças para o futuro

No entanto, em meio à pandemia, a vida continua. Mães dão à luz e famílias fazem planos para o futuro. MSF continua a administrar serviços de saúde reprodutiva em todas as suas instalações em Bangladesh, apoiando mulheres e crianças carentes. Mas, a pandemia de COVID-19 também afetou esses serviços.

A jovem mãe Syeda foi internada recentemente na ala de isolamento do hospital Goyalmara. Para falar com ela, primeiro você deve usar equipamento de proteção pessoal completo - vestido da cabeça aos pés, máscara facial e escudo plástico. Syeda usa uma máscara cirúrgica e seus olhos acima da máscara estão assustados. Seu filho, com apenas alguns dias de vida, está respirando com a ajuda de um tubo de plástico acoplado a um cilindro de oxigênio.

"Estou com tanto medo pelo meu bebê e por mim", diz ela. "Eu me preocupo em saber quando poderemos ir para casa”.

Syeda viveu um pesadelo que nenhuma mãe poderia desejar. Depois de desmaiar durante o parto, ela foi levada às pressas para uma clínica e enfrentou uma cesariana de emergência. Logo depois, ela e o recém-nascido foram diagnosticados com COVID-19 e encaminhados ao hospital Goyalmara, onde agora estão recebendo tratamento.

"Este é o meu primeiro bebê", afirma Syeda. “Mas agora não consigo pensar em nosso futuro. Quando meu bebê estiver bem, eu poderei pensar sobre isso".

Felizmente, seus sintomas são leves. "Meu bebê está recebendo oxigênio e está melhorando", diz Syeda. "Ele está melhor do que antes".

A vários quilômetros de distância, na clínica Jamtoli de MSF, Shokutara, uma refugiada rohingya, está sentada ao lado de seu filho que nasceu há poucas horas. Incapaz de conter o prazer, ela dá um sorriso imenso. "Estou tão feliz".

Mas a realidade da COVID-19 também paira sobre sua família.

"Estou preocupada porque temos informações sobre o vírus", avalia Shokutara. “As pessoas nos dizem para mantermos a distância, mas isso não é possível porque vivemos juntos. Mas ainda tentamos da melhor maneira possível”.

No entanto, Shokutara ainda mantém suas esperanças para o futuro.

“Em Mianmar, enfrentamos muitas dificuldades e tivemos medo. Eles nos torturaram”, diz ela. "Portanto, estou feliz. Quero que meu filho e minha filha sejam educados para que possam ter um bom futuro”.

* Os nomes foram alterados para proteger as identidades das pacientes.

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