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Crise na República Centro-Africana já afeta países vizinhos

17/02/2014
MSF inicia atividades médicas voltadas para refugiados em Camarões, no Chade e na República Democrática do Congo

Na medida em que o ciclo de violência como forma de retaliação continua crescendo na República Centro-Africana (RCA), o número de pessoas fugindo do país nas últimas semanas também cresce. Estima-se que entre 80 e 100 mil refugiados estejam em Camarões, no Chade, no Congo e na República Democrática do Congo (RDC).

Além dos programas de emergência realizados na própria RCA, a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) mobilizou equipes de emergência nesses três países e está, atualmente, avaliando a situação em campo no Congo.

No leste dos Camarões, mais de 22 mil refugiados cruzaram a fronteira nas últimas semanas; cerca de 9 mil deles chegaram ao país nos primeiros dez dias de fevereiro. Os refugiados chegam exaustos, tendo caminhado por quilômetros e se alimentado apenas do que encontram pelo caminho.

“As pessoas que vemos aqui estão muito fracas física e mentalmente, e estão traumatizadas”, afirma Sylvain Mathieu, coordenador de emergência de MSF em Camarões. “Por vezes, os pacientes começam a chorar durante as consultas médicas.”

MSF acaba de dar início à provisão de cuidados de saúde primária aos refugiados que cruzam a fronteira por Garoua-Boulaï. No momento, há cerca de 4.500 refugiados ali. Outros grupos grandes estão espalhados por diversos locais e MSF espera que mais pessoas continuem a cruzar as fronteiras na medida em que o conflito na RCA tem continuidade. As equipes estão conduzindo aproximadamente 900 consultas por semana e muitos casos de malária entre as crianças estão sendo observados, bem como infecções respiratórias.

Em parceria com o Ministério da Saúde de Camarões e outras organizações, MSF está também tratando casos de desnutrição severa. Em breve, as equipes iniciarão atividades em um acampamento transitório em Borgoné, a 45 km de Garoua-Boulaï. Dois outros acampamentos transitórios estão também sendo estruturados na região de Adamaoua, ao norte de Garoua-Boulaï.

No sul do Chade, cerca de 35 mil pessoas, a maioria mulheres e crianças, que viajavam de caminhão ou a pé chegaram ao país nas últimas semanas. Muitos viajaram mais de 200 km e chegaram exaustos. MSF começou a oferecer cuidados médicos em Bitoye, cidade localizada a dez quilômetros da fronteira. Bitoye cresceu 50% em tamanho desde a chegada dos refugiados e os serviços estão no limite. Houve apenas uma distribuição de alimentos em mais de uma semana e não há latrinas; o estoque de água potável também é escasso. Em apenas três dias, MSF atendeu 19 crianças com desnutrição aguda grave. As principais doenças apresentadas pelos pacientes são a malária, a diarreia e as infecções respiratórias. Casos graves estão sendo encaminhados ao hospital de Baibokoum, a 25 km dali.

“Os refugiados que tinham recursos vieram de caminhão, com poucos pertences pessoais, e os demais caminharam”, conta Anthony Thouvenin, coordenador de emergência de MSF na fronteiras entre a RCA e o Chade. “Eles não têm nada. Há também aproximadamente 50 crianças que chegaram sozinhas.”

MSF está também trabalhando mais ao leste, em Sido, onde 8.500 refugiados estão reunidos e espera-se a chegada de outros milhares. No dia 9 de fevereiro, MSF recebeu150 pacientes. A equipe já identificou, também, 12 vítimas de violência sexual.

No norte da RDC, refugiados estão chegando a Zongo desde março, fugindo da violência na capital da RCA, Bangui. Segundo dados oficiais, há, atualmente, 60 mil refugiados da RCA no país, a maioria deles na fronteira das províncias de Equator e Orientale. Cerca de metade deles vive em quatro acampamentos de refugiados e a outra metade com famílias locais.

“É difícil encontrar comida aqui, mas tenho sorte, porque uma família recebeu a mim e a meus três filhos”, conta Paulette, uma mulher de 27 anos que fugiu da RCA. “Eu conheço esta família há muito tempo. Eles foram à nossa casa em Bangui quando houve confrontos na RDC, em 1996. Aqui, trabalho no campo e, eventualmente, faço dinheiro o suficiente para comprar comida. Precisamos de comida. Temos problemas de saúde e eu não tenho dinheiro para ir ao médico com meus filhos.”

Após ter prestado suporte ao hospital geral de referência em Zongo, com a doação de medicamentos realizada em março, MSF está, agora, prestando suporte ao departamento pediátrico. Entre 27 de janeiro e meados de fevereiro, MSF tratou 167 crianças, a maioria delas com malária grave ou desnutrição. As equipes também conduziram clínicas móveis pelo Rio Ubangui, próximo a Bangui. Em suas clínicas móveis em Sambolola, MSF proveu cuidados médicos a 810 pacientes em sete dias – 40 % dos pacientes eram de Bangui.

No Congo, estima-se que entre 10 e 20 mil refugiados tenham cruzado a fronteira e se juntado às comunidades na mata. MSF está avaliando a situação para determinar qual a resposta apropriada.

Em resposta à recente violência na RCA, MSF agora conduz seis projetos de emergência em Bangui, Bouar, Bozoum, Bossangoa, Bangassou e Berberati. A organização também administra oito projetos regulares em Batangafo, Boguila, Carnot, Kabo, Ndéle, Paoua, Bria e Zémio e conta com cerca de 240 profissionais internacionais e mais de 200 locais atuando no país.

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