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Crise de refugiados na Tanzânia: sem fim à vista

24/03/2016
Líder de equipe médica de MSF fala sobre experiência com refugiados burundineses

Foto: MSF

Katy Brown está contando os projetos dos quais já fez parte. Ela sabe que são 11, mas parece pouco. Foram eles: Sudão do Sul três vezes, Chade, Congo duas vezes, Filipinas, Camarões duas vezes e agora Tanzânia. Ela parece confusa, mas acabou de passar quase 30 horas voando de volta para a Austrália. Ela olha para os seus dedos e conta novamente. Dez. O que está faltando? República Centro-Africana.

O Dr. Michael Arnegger examina uma criança desnutrida em recuperação na ala pediátrica no acampamento de Nduta (Foto: Melissa Pracht/MSF)Quando você já esteve em 11 projetos em campo, não é surpreendente que eles tenham se fundido em um. Mas, embora sejam todos diferentes, há um tema em comum. “Eles são sempre emergências, como nutrição, vacinação em massa, assistência em desastres naturais, ou novos projetos que estão sendo inaugurados”, diz Katy.

Apesar de dez de suas missões terem sido na África, essa foi a primeira vez de Katy na Tanzânia. Foi um turbilhão de emergências de dezembro a fevereiro, trabalhando como líder de equipe médica no campo de Nduta, assistindo refugiados que fogem da instabilidade no Burundi.

Essa instabilidade no país é resultante da reeleição do presidente Nkurunziza em 2015 para um terceiro mandato – um movimento que apoiadores da oposição consideram inconstitucional. Confrontos violentos estão acontecendo e estima-se que entre 200 e 250 pessoas cheguem à Tanzânia todos os dias.

MSF tem respondido à crise de refugiados na Tanzânia desde maio de 2015, oferecendo cuidados médicos, apoio de saúde mental e água e saneamento.

Profissionais de MSF na Tanzânia (Foto: MSF)Mas embora a experiência de Katy na Tanzânia tenha sido curta, durou tempo o suficiente para que ela visse o espantoso influxo de refugiados ao acampamento. “Quando cheguei em dezembro, havia 29 mil refugiados. Quando fui embora, em fevereiro, havia aproximadamente 43 mil”, disse ela.

A obstetrícia é parte essencial do trabalho de MSF. E com o aumento do número de refugiados, tem havido um aumento correspondente do número de partos.

“Nós fazíamos 11 partos por semana em nosso hospital quando cheguei aqui. Quando fui embora, eram 30”, disse Katy. “Muitas mulheres fugiram do Burundi enquanto estavam grávidas. Elas enfrentaram jornadas muito estressantes, com nutrição precária, pouco ou nenhum cuidado de pré-natal, e a ameaça constante de malária, infelizmente, resultou em partos prematuros.”

Infelizmente, os partos prematuros também aumentaram a taxa de mortalidade pediátrica. “Havia crianças que estavam nascendo incrivelmente abaixo do peso”, disse Katy. “Um bebê tem baixo peso ao nascer quando tem menos de 2.500 gramas, e estávamos lidando com bebês de baixo peso extremo, chegando a 900 gramas, cujas chances de sobrevivência eram muito reduzidas.”

Em um ambiente como um acampamento de refugiados, e especialmente quando tantas pessoas novas estão chegando todos os dias, doenças podem se espalhar rapidamente. Atividades preventivas, como vacinação, portanto, tornaram-se uma prioridade.

“Nós vacinamos todas as crianças com menos de cinco anos contra sarampo, rubéola e poliomielite na chegada ao acampamento. Depois, nós pudemos dar início ao EPI (programa de imunização ampliado) para garantir a imunização completa de todas as crianças com menos de um ano”, disse Katy.

Além das campanhas de vacinação, Katy liderou uma equipe de 11 profissionais internacionais – médicos, enfermeiros, obstetras, especialistas em promoção de saúde, técnicos em laboratório – e profissionais nacionais (do Burundi e da Tanzânia, o que quer dizer que o projeto misturou francês e inglês), que representaram MSF em reuniões com outras ONGs e atores de saúde, fizeram pedidos de medicamentos e suprimentos, encaminharam pacientes com casos complicados ao hospital distrital e supervisionaram o cuidado a pacientes, muitos dos quais afetados por malária, infecções do trato respiratório, diarreia, complicações obstétricas ou que haviam sofrido violência sexual ou baseadas em gênero.

Como muitas de suas reuniões eram realizadas no hospital distrital, Katy fez uso da oportunidade. “Eu comecei a ir todos os dias ao hospital. Foi uma boa desculpa para acompanhar os pacientes que havíamos encaminhado para lá”, conta.

Agora de volta à Austrália, Katy planeja terminar seu mestrado em saúde pública e medicina tropical antes de se juntar a MSF novamente. “Estou particularmente interessada em saúde de refugiados e há muitas oportunidades de trabalho em campo com MSF”, disse ela.

O desejo de Katy de trabalhar com refugiados fica evidente quando ela reflete sobre sua estadia na Tanzânia e o que viu entre aqueles que estavam fugindo do Burundi. “Impotência”, disse. “As pessoas tinham perdido tanta coisa: seus empregos, casas, estrutura social, familiares e independência. Elas chegaram sem nada e tudo teve de ser oferecido a elas – alimentos, água, abrigo, cuidados de saúde... Muitas pessoas vieram de uma região pequena ou uma cidade grande onde tinham empregos e sustentavam suas famílias ou estavam estudando na universidade e agora não têm controle sobre suas vidas ou o que irá acontecer a elas. Elas estão nessa jornada e simplesmente não há um fim à vista.”

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