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"As crianças morrem na Inglaterra?"

27/01/2020
A médica britânica Jennifer compartilha as impressões de suas primeiras semanas em Lankien, no Sudão do Sul
"As crianças morrem na Inglaterra?"

Foto: Laurence Hoenig

"As crianças morrem na Inglaterra?". A pergunta veio de uma das auxiliares de enfermagem aqui do Sudão do Sul. Essa foi minha primeira semana no país e eu ainda não decorei os nomes.

Percebi que a equipe local estava olhando para mim com certa expectativa, para ver como eu reagiria. "As médicas estrangeiras às vezes choram na primeira vez em que veem uma criança morrer", me explicaram.
Eles estavam esperando para ver se eu ia chorar. Eu não ia chorar. Embora não pudesse fingir que era normal.  
"As crianças morrem na Inglaterra?" – sim, elas morrem. Mas muito raramente e não perto de mim.

“Vontade de Deus”

Tirei a máscara de oxigênio e dei um passo para trás, para que a mãe pudesse pegar seu bebê. Ela já sabia, é claro, mas eu ainda me sentia obrigada a explicar.

É incrivelmente difícil ter a pior conversa possível através de um tradutor. O rosto da mãe não revelou nada, eu não sabia se ele estava dizendo as coisas certas.

Eu saberia as coisas certas a dizer em casa. Saberia avaliar cuidadosamente quanta  informação ela queria, como modificar minha abordagem, dependendo da reação dela. Por aqui, eu não tinha resolvido ainda.

"Como posso te culpar? É a vontade de Deus." Sua resposta resignada foi de alguma forma ainda mais comovente do que se ela tivesse gritado ou chorado. Eu teria preferido que ela gritasse comigo.  

"Ela não tem perguntas", o tradutor me informou. "Não há mais nada que ela queira dizer".

Contra a ordem natural das coisas

Eu me perguntava se era o primeiro bebê que essa mulher havia perdido.  

O Sudão do Sul tem alguns dos piores índices de saúde do mundo. Segundo a Organização Mundial da Saúde, uma criança nascida aqui tem quase 10% de chance de morrer antes do quinto aniversário. A expectativa média de vida é de 50 anos.

A realidade por trás dessas estatísticas é que existem certos eventos que seriam considerados uma rara tragédia no meu país, mas que fazem parte da vida aqui.

Todo mundo sofre, de maneiras diferentes, não quero generalizar. Outras mães gritaram e choraram.

Não penso por um segundo que a dor de perder um filho seja menor porque é mais comum. Nunca é totalmente inesperado.

Não é impensável que isso possa acontecer, não é completamente contra a ordem natural das coisas.

Segurando o espírito dentro do corpo

Existe uma crença local no Sudão do Sul de que, se alguém está morrendo, você pode impedir que o espírito deixe o corpo colocando a mão sobre os olhos e a boca, mantendo-os fechados, mantendo o espírito dentro do corpo.
Eu não sabia disso quando cheguei. Aprendi isso depois, com os auxiliares de enfermagem que cresceram aqui, que são meus tradutores e intérpretes culturais.  

Infelizmente, quando atendo uma criança muito doente, preciso fazer exatamente o oposto, abrindo a boca e inclinando a cabeça para trás, para limpar as vias aéreas e ajudá-la a respirar.

Uma vez uma mãe deu um tapa na minha mão por causa disso, porque eu ainda não sabia qual era o problema.
Do meu ponto de vista, uma mão na boca pode sufocar uma criança que já está lutando para respirar. Claro, não há como eu esperar que a mãe entenda meu ponto de vista.

Se seu filho estivesse morrendo na sua frente e um médico estrangeiro aparecesse, falando um idioma que você não entende e fazendo algo que não fazia sentido para você, que você pensou que poderia prejudicar seu filho, o que você faria? Eu provavelmente daria um tapa na mão deles também.

Tentar resolver essa divergência de opinião rapidamente, através de um tradutor, não é fácil.

Ao me afastar dessa mãe, no meio da noite, durante meu primeiro turno de plantão, cobrindo todo o hospital, me senti culpada. Não porque eu não pude ajudar o filho dela – eu fiz tudo o que pude, dadas as circunstâncias.

Eu me senti mal por ter afastado as mãos dela, por não ter conseguido entender. Fiquei preocupada que da próxima vez que um de seus filhos estivesse doente, ela não os trouxesse para cá. Eu sei que existem muitas pessoas que não trazem.

Tudo amplificado

Meu trabalho no hospital é cobrir a emergência e a unidade de terapia intensiva, o que significa que estou lidando com os pacientes mais doentes. Durante meu primeiro fim de semana, perdi dois bebês e uma criança pequena. Isso sem mencionar os adultos. 

Nada que eu tivesse feito de diferente poderia ter mudado essa situação e nem sempre seria assim, mas nesses primeiros dias parecia que eu estava levando vários chutes na cabeça.

É claro que existem boas e más mudanças em qualquer lugar que você trabalhe no mundo. Só que aqui tudo é amplificado.

Acordo

Escrevo isso um mês depois do início do meu primeiro projeto com MSF, quando tudo se tornou normal muito rapidamente. Quase tudo pode se tornar normal, o que é reconfortante e aterrorizante.

Eu tive boas mudanças para equilibrar as ruins e vi muito mais vidas salvas do que perdidas.

Com muita ajuda da equipe local, extremamente paciente, estou começando a entender mais, a me comunicar melhor. Eles viram dezenas de médicos estrangeiros indo e vindo, ajudaram cada um de nós nas primeiras semanas difíceis.

Agora, quando sou chamada para atender os bebês doentes, a mãe fica ao meu lado, com a mão sobre os olhos do filho, se quiser, mantendo o espírito no corpo, mas também explico por que não posso deixá-la fechar a boca.
Isso parece aceitável, na maioria das vezes. Como um acordo.

 

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