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Costa do Marfim: Tão perto de casa, mas tão longe

27/04/2011
Assessor de comunicação de MSF conta detalhes da situação na Costa do Marfim

Na parte ocidental da Costa do Marfim, muitas pessoas que fugiram da violência não ousam voltar para casa. Na estrada entre Guiglio e Blolequin, algumas aldeias continuam desertas, pois as pessoas ou fugiram para a Libéria em busca de refúgio ou ainda estão se escondendo na mata. Na mesma região da Costa do Marfim, na cidade de Duékoué, as tensões pós-eleitorais provocam violência. De 28 a 30 de março, os conflitos causaram centenas de mortes e destruição por toda a cidade. Muitos cidadãos procuraram refúgio em um acampamento já lotado no terreno de uma missão católica próxima. Eles agora vivem com medo de voltar para casa – apesar de suas casas estarem apenas a algumas centenas de metros de distância. Uma equipe médica de MSF está oferecendo cuidados médicos no acampamento diariamente desde dezembro.

Nos três dias de violência em Duékoué, no final de março, o número de pessoas refugiadas no acampamento dobrou, passando para aproximadamente 28 mil. A distância entre a violência na cidade e a relativa segurança é de apenas poucas centenas de metros, e muitas pessoas chegaram lá a pé.

Mas o preço que estão pagando por essa segurança é alto, já que as condições de vida no acampamento são extremamente difíceis: superlotação, a falta de abrigos, escassez de comida e água.

A falta de espaço é o problema mais grave. Com uma estimativa de três pessoas por metro quadrado, cada um tem que aproveitar cada pedaço de terra, e, literalmente, dormir em cima do outro de noite.

Conforme vai escurecendo, o Mercado, a área de cozinha e até mesmo o espaço fora do dispensário de MSF se tornam dormitórios gigantes, cheios de famílias dormindo em pequenos pedaços de pano, sem nada sobre suas cabeças exceto as estrelas.
Essa é a situação em uma noite tranqüila. Na semana passada, chuvas fortes atingiram a região, causando tumulto no meio da noite. As pessoas tentavam se cobrir, cavavam canaletas para coletar a água da chuva e varriam a água e a lama para que pudessem se deitar e dormir.

A tensão no acampamento é enorme. O número de pessoas refugiadas supera por muito a capacidade do local, e mais pessoas continuam chegando. Em aldeias próximas, ainda há muitas pessoas que esperam chegar a este “santuário” de segurança, apesar das condições precárias.

“No nosso dispensário, o número de consultas dobrou recentemente, e em alguns quartos ocorrem duas consultas simultâneas, em função da falta de espaço”, disse o Dr. Mohamadou Seyni, que coordena as atividades de MSF no acampamento. “Após dias de violência, tivemos muitos traumas e ferimentos que precisamos encaminhar ao hospital da cidade da cidade, mas agora nossas consultas são de malária. Só ontem, 80 das 120 crianças atendidas estavam com malária”.

Apesar de existirem outras organizações médicas trabalhando no acampamento, MSF é a única capaz de oferecer cuidados médicos. Em uma região onde a malária é a grande vilã, a presença de MSF no acampamento dá esperança aos marfinenses refugiados lá, especialmente as crianças. Devido a tensões étnicas e à ameaça de violência, a maioria das pessoas está muito assustada para sair de casa e ir ao hospital, mesmo que ele seja bem próximo.

Nas últimas semanas, a equipe realizou mais de 200 consultas por dia. “Nós também estamos percebendo muitos casos de infecções respiratórias e diarréia, que, em muitos casos, estão relacionados às condições de vida no acampamento”, disse o Dr. Mouhamadou Seyni. 

MSF também está monitorando de perto a situação nutricional, e está atento para a possibilidade de aumento nos níveis de desnutrição. No momento, 50 crianças desnutridas estão sendo tratadas pela equipe. Apesar de ser difícil de estabelecer uma conexão definitiva entre a desnutrição e os deslocamentos, é bem provável que a falta de recursos e de comida que vem afetando várias famílias nos últimos meses tenham impacto na saúde delas.

A maioria das famílias chegou ao acampamento às pressas, com poucas – ou nenhuma – posses ou dinheiro. “Eu vim ao acampamento apenas com as roupas do corpo”, disse Paul, que chegou no dia 29 de março, fugindo da violência nas ruas.

Há ainda outras questões que preocupam MSF. Em fevereiro, um grande número de crianças na região foi diagnosticado com sarampo, mas a campanha de vacinação planejada pelas autoridades de saúde foi cancelada quando a violência irrompeu no país. Com o grande número de deslocados, será necessário tomar uma série de medidas para prevenir uma epidemia da doença.

Na área de espera coberta, os bancos estão cheios de mães que seguram suas crianças. Na área ao lado, um grupo de mulheres grávidas espera a chance de ter seus filhos em segurança. Uma parteira de MSF cuida de cerca de 40 mulheres por dia, dando consultas pré-natais. A possibilidade de estas crianças nascerem fora do acampamento é bastante remota, mas, pelo menos, elas poderão receber acompanhamento adequado.

A equipe de logística de MSF está construindo uma área coberta maior para substituir a tenda utilizada como sala de espera. Fora do acampamento, as pessoas ainda estão com medo. Apesar de que muitas delas moram a apenas alguns minutos de distância, elas nunca se sentiram tão longe de casa.

Por Jean-Marc Jacobs, assessor de comunicação Médicos Sem Fronteiras na Costa do Marfim

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