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Coordenador de saúde de MSF no Brasil fala sobre as ações humanitárias no pós-guerra

26/05/2003
Mauro Nunes entrou para a organização em 91, quando MSF chegou ao Brasil durante uma epidemia de cólera na Amazônia. Atuou na reconstrução de Angola e Moçambique e hoje, como Coordenador de Saúde no Brasil explica qual o papel da organização no pós-guerra

MSF: Está havendo uma crise humanitária no Iraque? MSF vai permanecer no país?

MN: Uma avaliação realizada por equipes de MSF em várias regiões do país constatou que, embora as condições de saúde sejam precárias, não há fome, epidemia, não houve grandes deslocamentos populacionais. Portanto, não podemos falar de uma catástrofe humanitária de grandes proporções, como as que observamos hoje, por exemplo, na República Democrática do Congo (RDC), Libéria ou Sudão, países onde as necessidades humanitárias são mais urgentes e a atenção e os recursos recebidos da comunidade internacional, muito menores. Diante disso, permaneceremos no Iraque com uma equipe mais reduzida do que a equipe que mantemos em outros países que, no nosso entender, estão em situação humanitária mais grave. Hoje, nossa atuação no Iraque inclui treinamento de profissionais de saúde iraquianos e implantação de postos de saúde para atendimento básico à população, além do monitoramento contínuo da situação. Mas não há perspectivas de iniciarmos operações de grande porte no país.

MSF: E como fica a saúde de uma população em um país recém saído de um conflito ou uma guerra?

MN: A guerra traz conseqüências diretas para a saúde da população, mas também afeta toda a estrutura de saúde do país. Muitas vezes, sistemas de água e saneamento são destruídos, faltam medicamentos, materiais básicos para o atendimento da população... Além disso, muitos profissionais de saúde morrem devido ao conflito ou fogem em busca de áreas mais seguras, causando também uma redução da capacidade de atendimento das instalações de saúde.

MSF: E qual tem sido o papel de MSF nesses países recém saído de conflitos?

MN: O que temos feito é tentar prover o acesso mínimo, básico à saúde, num primeiro momento. Num segundo momento, nosso papel é reestruturar os serviços de saúde, principalmente a rede primária. MSF envia medicamentos, equipamentos hospitalares, treina profissionais e faz uma supervisão para que o sistema volte a funcionar. Quando o Ministério da Saúde tiver condições de assumir esse papel, nós passamos o trabalho para o Governo. MSF também abre centros de nutrição nos casos em que a fome aparece como uma das conseqüências dos conflitos.

MSF: Quais as maiores dificuldades enfrentadas pelos profissionais de ajuda humanitária em países em reconstrução?

MN: A maior dificuldade é que temos que começar quase do zero. Normalmente, temos uma demanda muito grande de atendimento e não há tempo para planejar propriamente. Há também toda a questão dos serviços de referência, tais como exames, cirurgias, UTI, hemodiálise etc. Você até consegue reestruturar a unidade básica de saúde, mas ela tem um limite de complexidade. Se não temos para onde mandar o paciente, ficamos numa situação muito difícil. E quando existe um serviço de referência, geralmente ele está na capital, muitas vezes a uma enorme distância das unidades básicas. E como mandar um paciente lá? Por isso a maior dificuldade num país pós-conflito é a falta de uma rede de referência, uma rede secundária e terciária onde o paciente possa encontrar serviços mais complexos.

MSF: Numa população em guerra ou recém saída de um conflito quem são os mais afetados?

MN: Todos sofrem, mas com certeza as crianças e as mulheres são os mais afetados. As mulheres, porque sofrem violência sexual, cuidam das crianças, têm que realizar os trabalhos domésticos e muitas vezes ainda assumem sozinhas o papel de ‘chefes de família’, quando os homens vão para a linha de frente de um conflito. As crianças, porque normalmente são o grupo mais vulnerável, que requer mais cuidados de saúde, e acabam sendo privadas destes cuidados em situações de conflito. Além disso, elas não entendem o que está acontecendo. Por exemplo, em Moçambique e em Angola, as áreas próximas às árvores frutíferas e ao leito dos rios foram minadas para que os soldados quando fossem pegar uma fruta ou beber água morressem. Embora a comunidade acabe tendo esse tipo de informação, você não consegue explicar isso para uma criança. Em alguns países, crianças maiores, com 8, 10 anos de idade ainda sofrem o risco de serem raptadas para serem incorporadas ao exército daquela determinada facção.