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Coordenador de emergência de MSF fala sobre a ajuda humanitária às vítimas na Caxemira

08/11/2005
Vincent Hoedt fala sobre a dolorosa missão de definir prioridades numa região de alta concentração populacional, de acesso difícil e onde as condições climáticas são terríveis. “Continuaremos a enfrentar enormes desafios por um longo tempo”

O terremoto que atingiu as regiões da Caxemira controladas pela Índia e pelo Paquistão causou uma destruição enorme, um grande número de mortos e deixou um número assustador de feridos, numa região montanhosa de difícil acesso, aonde o inverno cruel irá, em breve, piorar as condições de vida dos sobreviventes. Durante a fase inicial de resgate, MSF enfrentou grandes desafios logísticos para levar primeiros socorros e assistência cirúrgica aos feridos. Há mais dificuldades por vir, diz Vincent Hoedt, coordenador de emergência de MSF em Muzaffarabad.

Cerca de um mês após o início da ajuda humanitária, como você descreve a situação?

Depois de tratarmos das prioridades iniciais, estamos agora nos preocupando com os problemas de longo prazo. De um lado temos as estruturas de saúde destruídas, de outro temos um aumento da demanda médica por parte das pessoas que estão enfraquecidas pela falta de abrigo, pela pouca comida e água potável, pelas condições precárias de higiene e pelo estresse psicológico.

Quantas pessoas irão partir em busca de ajuda humanitária? E se nesses locais também não houver assistência à saúde? Essas são as grandes questões do momento. E o problema é ainda maior, já que a área afetada é enorme e há uma grande concentração populacional. Ou seja, continuaremos a enfrentar enormes desafios por um longo tempo.

Quais são os desafios práticos, enfrentados pelas equipes, em oferecer ajuda humanitária?

Oferecer ajuda humanitária nessas condições significa que você tem pessoas fazendo fila em frente ao depósito de MSF porque sabem que estamos carregando um caminhão com tendas. Você diz a eles ‘desculpe, essas tendas são para uma determinada cidade onde as pessoas perderam tudo’. Mas as pessoas desesperadas respondem: ‘porque você não me dá uma tenda?’. E não há dúvida que eles também merecem receber uma. Esta é a tarefa dolorosa de definir as prioridades nesse tipo de distribuição. Significa que você precisa atender uma senhora idosa que tem que cuidar dos três netos, porque todos os familiares morreram. Em situações como essa, parece estranho entregar um kit de construção a um sujeito, sugerir a ele que reforme sua casa e dizer: ‘bem, há um posto de saúde a 10 km daqui’.

E em relação ao impacto psicológico do terremoto nos sobreviventes?

Pode-se pensar que saúde mental não seja uma atividade para salvar vidas, mas é um problema enorme, e tratar esses traumas é uma grande dificuldade. Lá em cima nas montanhas, eu vi uma criança que não fala desde o terremoto. Vi pessoas que não têm nenhuma esperança no futuro porque perderam suas casas e metade de suas famílias e todo o apoio social. Uma boa parte das pessoas que ajudaram outras de alguma forma está se recuperando. Esta é a dura realidade no campo.

O Secretário Geral da ONU, Kofi Annan, alertou para uma segunda onda de mortes caso não seja enviada mais ajuda humanitária imediatamente. Você concorda com essa visão do ponto de vista médico?

Numa crise onde você tem condições precárias de higiene, falta de cuidados de saúde e muitas pessoas vivendo amontoadas em campos de deslocados, você deve estar sempre alerta para surtos de doenças. Fora alguns casos de tétano, que eram esperados numa situação onde existem milhares de feridos, ainda não vimos nenhum surto de doenças até o momento. Têm havido casos isolados de sarampo numa cidade, mas nada que nos faça crer se tratar de um surto. No entanto, num ambiente como este, alguns poucos casos podem se espalhar rapidamente. É por isso que a vacinação de crianças contra o sarampo faz parte da nossa assistência à população. Especialmente nos campos de deslocados pode-se imaginar um cenário pior onde você tem todo tipo de doenças infecciosas convivendo com pessoas enfraquecidas e que vivem muito próximas das outras e em condições precárias de higiene. Mas é isto que tentamos evitar ao máximo, dentro do nosso alcance. Nos campos de deslocados em Muzaffarabad, por exemplo, nossos especialistas em água e saneamento básico instalaram latrinas e MSF oferece água potável com cloro para milhares de pessoas. O cloro é a chave para impedirmos a transmissão de doenças relacionadas à água.

Grande parte da região afetada pelo terremoto fica numa área de conflito altamente militarizada. Isto, de alguma forma, afetou o trabalho de MSF?

Até agora as limitações de MSF em termos de acesso às vítimas são puramente físicas, o que significa que o terreno montanhoso, as estradas destruídas, e a capacidade limitada de transporte aéreo são os grandes desafios. Estamos sendo ajudados pelo governo do Paquistão no que diz respeito aos vôos, mas, ainda assim, é difícil trabalhar já que o número de helicópteros é limitado.

Há planos de levar milhares de sobreviventes das cidades isoladas para campos de deslocados, para protegê-los do terrível inverno no Himalaia. Você acredita que esta medida está certa?

Milhares de pessoas já estão deslocadas e mais pessoas ficarão deslocadas. No momento as pessoas estão ficando em campos de futebol, em prédios antigos de escolas, e em universidades. Então, se o governo pretende oferecer a essas pessoas algo melhor, como campos decentes, e aumentar assim as chances delas agüentarem a situação, então isto me parece ser uma boa decisão. E se houver a necessidade de cuidados de saúde nesses campos, MSF deveria se envolver, caso nenhuma outra organização o faça. Encorajar as pessoas que estão em áreas de difícil acesso a irem para campos de deslocados não é uma medida ruim, desde que as pessoas tenham a possibilidade de fazer suas próprias escolhas. Chegamos a uma questão bastante complexa: as pessoas têm o direito de permanecer nas suas cidades e dizer ‘você deveria me ajudar aqui onde eu estou porque aqui é a minha terra e é aqui que pretendo reconstruir a minha casa’ ou as agências de ajuda humanitária têm o direito de dizer ‘desculpem, mas não podemos levar ajuda até aí. Você deveria sair do seu lugar para receber ajuda’. É muito difícil colocar uma linha aqui. O guia de princípios de MSF diz que as pessoas precisam ter o direito de fazer suas próprias escolhas. De fato, a ajuda humanitária deveria ser capaz de resgatar a dignidade dessas pessoas e de melhorar a capacidade delas de fazer suas próprias escolhas. Mas na realidade, a nossa ajuda – o material, os profissionais, a capacidade logística – é limitada. O que acontece é que MSF coloca uma clínica móvel numa cidade e pede às pessoas das cidades vizinhas que venham à clínica para receberem ajuda médica. Mesmo que sejam apenas 5 km, isto significa dizermos às pessoas ‘desculpem, eu tomei a decisão por vocês de colocar a estrutura de saúde aqui e não lá’. Mas acredito que temos que aceitar que a ajuda humanitária é sempre, de alguma forma, seletiva. E as escolhas individuais são mais limitadas do que gostaríamos que fossem.