Você está aqui

Contrariando probabilidades: saúde materna em Darfur do Norte

18/04/2013
MSF atua em regiões do Sudão onde o acesso à instalações de saúde contribui para as altas taxas de mortalidade materna e neonatal

Sameera*, de 15 anos, estava em trabalho de parto há dois dias quando sua família decidiu deixar a região rural de Juraheem para buscar ajuda médica. Após uma jornada de um dia, eles chegaram a Um Baru, cidade da região de Dar Zaghawa, no Sudão, onde a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) administra um centro de saúde. A parteira Halom Abdallah descobriu que o bebê estava pressionando a bexiga da mãe. Além de isso colocar Sameera em risco de desenvolver da fístula obstétrica – ruptura do canal vaginal que causa incontinência e, por vezes, exclusão social –, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) a maioria das mortes maternas ocorrem durante ou logo após o parto; esse é o momento mais perigoso tanto para a mãe quanto para a criança. Felizmente, três horas depois de sua chegada ao centro de saúde de MSF, Sameera deu à luz um menino saudável.


Na região de Dar Zaghawa, muitas gestantes como Sameera procuram ajuda médica uma vez que a situação torna-se crítica e, geralmente, é tarde demais. Sameera e seu filho tiveram sorte. No último levantamento feito pelas autoridades de saúde do Sudão, em 2010, consta informação de que, para cada 100 mil bebês nascidos vivos em Darfur do Norte, 640 mulheres morrem durante o parto. Na capital do país, Khartoun, são 389 mortes maternas para cada 100 mil bebês nascidos vivos. De acordo com informações de 2010 da OMS, uma média de 20 mulheres morrem durante o parto para cada 100 mil bebês nascidos vivos na Europa.


As vidas dos bebês também estão em risco no Sudão: a taxa de mortalidade neonatal é de 33 a cada 1.000 bebês nascidos vivos, em comparação com a média de cerca de sete mortes a cada 1.000 bebês nascidos vivos em países europeus (dados da OMS, de 2010).


“Geralmente, as mulheres da região dão à luz em casa, com a ajuda de parteiras tradicionais que não são qualificadas ou não têm as habilidades necessárias para atender mulheres que enfrentam complicações durante o parto”, afirma Halom. “Em casos como o de Sameera, mãe de primeira viagem, há grandes chances de perdermos a criança, a mãe ou, até mesmo, os ambas.”


Dentre as gestantes, são as adolescentes que mais estão sujeitas às complicações, já que o corpo da mãe ainda não se desenvolveu completamente. A pélvis ainda não alcançou seu tamanho final e isso pode resultar em obstrução durante o parto, colocando em risco tanto a mãe quanto o bebê. Por conta de os corpos das mães ainda estarem em desenvolvimento, as necessidades adicionais do feto em crescimento aumentam o risco de anemia e hemorragia pós-parto. Os bebês podem nascer prematuros e com peso abaixo do normal. O suporte de uma parteira, um médico ou obstetra durante o parto e pelo menos durante as primeiras horas depois do nascimento é essencial tanto para a jovem mãe quanto para o recém-nascido.


A realidade é que não há instalações de saúde nem enfermeiras ou parteiras suficientes para atender as mulheres da região de Dar Zaghawa, apesar de a população ser de mais de 20 mil pessoas. Além dos dois médicos e da parteira de MSF, as três parteiras do Ministério da Saúde são as únicas profissionais qualificadas capazes e equipadas para lidar com complicações relacionadas ao parto e ao nascimento. Em Um Baru, a cerca de 300 km de Elfasher, capital do estado de Darfur do Norte, Halom é a única parteira da região. Ainda assim, para muitas mulheres, Um Baru é a instalação de saúde mais próxima. Sameera precisou de um dia inteiro para chegar até lá de carroça. De carro, o trajeto teria levado apenas algumas horas, mas poucas pessoas podem arcar com o aluguel de um carro, mesmo quando um bebê está para nascer.


“Em 2012, assistimos o nascimento de mais de 900 bebês em Darfur do Norte. No entanto, educar as mulheres sobre a importância do parto seguro no hospital é outro aspecto crucial dessa equação”, afirma Fernando Medina, coordenador geral de MSF no Sudão. “No ano passado, contamos com mais de 50 agentes de saúde comunitários nas instalações de saúde apoiadas por MSF em Zaghawa, Shangil Tobaya e Tawila, que visitavam as pessoas para discutir os benefícios dos cuidados de pré e pós-natal, do parto seguro em hospital, do planejamento familiar, da amamentação e da vacinação. Nós temos visto um número cinco vezes maior de mulheres que buscam cuidados de pós-natal e cerca de 12.500 durante a gravidez. Mas ainda queremos alcançar mais mulheres.”


Quando as mulheres chegam aos centros de saúde durante a gravidez, profissionais médicos podem acompanhar a situação de saúde da mãe e do bebê, discutir as opções de parto e preparar as mães para o nascimento da criança. Os cuidados de pré-natal são essenciais para determinar os riscos e detectar complicações que podem impactar a saúde da mãe e do bebê com antecedência.


Mesmo após um parto saudável, as horas seguintes são cruciais. Quando não há oferta de cuidados de qualidade, a OMS reporta que um quarto de todos os recém-nascidos morrem nas primeiras 24 horas. Partos prolongados ou obstruídos resultando em sofrimento do feto, bebês prematuros ou com pouco peso, trauma pré-parto e problemas respiratórios podem causar a morte de recém-nascidos.


Hemorragia pós-parto e infecções são as principais causas da mortalidade materna. Ainda assim, em contextos de poucos recursos, como Um Baru, é relativamente fácil prevenir essas mortes. Mas salvar as vidas das mães e dos bebês envolve habilidades e medicamentos específicos. Consultas pós-parto permitem que agentes de saúde monitorem o bem-estar de mães e bebês por seis semanas após o parto; as consultas auxiliam na amamentação, na identificação e tratamento de infecções, na vacinação de rotina dos bebês e oferecem, ainda, planejamento familiar. Se um caso for muito complicado, é encaminhado ao hospital de Elfasher e MSF cobre todos os custos médicos e de transporte tanto da mulher quanto de seus cuidadores.


Além dos centros de saúde, outras instalações que estão ganhando aceitação e popularidade nesses contextos são as casas de acolhimento materno. Nelas, mulheres de regiões remotas e com gravidez de risco podem ficar próximo da instalação médica algumas semanas antes da data prevista para o nascimento do bebê, para garantir que tenham rápido acesso ao hospital quando entrarem em trabalho de parto. MSF, que administra diversas dessas instalações no mundo todo, inaugurou, neste ano, uma casa de acolhimento materno de 20 leitos na região de Tawila, em Darfur do Norte.


Em parceria com o Ministério da Saúde sudanês, MSF oferece uma gama de serviços de saúde materna gratuitos em Dar Zaghawa e Tawila, em Darfur do Norte, incluindo cuidados de pré e pós-natal, assistência a partos e planejamento familiar, bem como tratamento para infecções sexualmente transmissíveis e aconselhamento.


Como organização de ajuda humanitária independente e neutra, MSF atende as populações baseada, exclusivamente, em suas necessidades médicas, sem discriminação de tribo, raça, religião ou convicções políticas. Desde 1979, profissionais internacionais e sudaneses, juntamente com o Ministério da Saúde, oferecem assistência médica à população do Sudão, que sofre sem acesso a cuidados de saúde, com desastres naturais, crises nutricionais, epidemias e conflitos armados. Alguns dos serviços oferecidos por MSF envolvem cuidados reprodutivos, tratamento contra o calazar e aconselhamento, além de cuidados pediátricos, nutricionais e obstétricos de emergência. MSF está atuando em instalações de saúde em Tabarak Allah, no estado de Al-Gedaref; Azaza Damous, no estado de Sennar; e Tawila, Kaguro e Dar Zaghawa, no estado de Darfur do Norte.
 
*O nome da paciente foi alterado para proteger sua privacidade