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Conheça a história de Mulikat, uma sobrevivente do noma na Nigéria

22/11/2020
Doença destrói tecidos bucais e faciais, causando desfiguração do rosto
Conheça a história de Mulikat, uma sobrevivente do noma na Nigéria

Fotos: Claire Jeantet - Fabrice Caterini/INEDIZ

Mulikat, de 33 anos de idade, é uma sobrevivente do noma e profissional de higiene do Hospital Infantil de Noma, apoiado por MSF, em Sokoto, no noroeste da Nigéria. Há 17 anos, ela viajou de Lagos para Sokoto para procurar cuidados médicos e encontrar esperança.

Hoje, apoia outras pessoas afetadas pelo noma e adiciona sua voz à defesa de MSF pelos sobreviventes dessa doença devastadora e negligenciada, que inflama as gengivas e corrói tecidos e ossos, atingindo principalmente crianças menores de 7 anos que vivem em condições de pobreza. Os pacientes têm dificuldades de comer, falar, ver ou respirar – o que só pode ser amenizado por meio de cirurgias reconstrutivas. Aqui está seu depoimento:


 

“Como sobrevivente, conviver com a sequela do noma é difícil. Ninguém quer se relacionar com você, ninguém quer falar com você, por causa da discriminação e do estigma. Mas há uma saída: a cirurgia traz uma chance de cura. Para um sobrevivente de noma, vir ao hospital Sokoto é uma mudança de vida. Antes de começar meu tratamento, eu havia perdido as esperanças, mas depois das operações, comecei a entender que sou um ser humano como os outros.

A pessoa que me ajudou a perceber isso foi Adeniyi [Dr. Adeniyi Adetunji, um médico do Ministério da Saúde da Nigéria (MS) no hospital Sokoto]. Ele mudou tudo para mim. Ele me motivou a voltar a estudar. Naquela altura, eu nem queria tentar, por causa do estigma, por causa da maneira como as pessoas me olhavam sempre que me aproximava delas. Mas o Dr. Adeniyi me encorajou. Ele me disse que eu deveria me ver como uma pessoa transformada. Ele queria que eu fosse para a comunidade e retribuísse. Então fui e encontrei motivação e coragem.

Estudei gestão de registros de saúde. Em 2018, MSF me ofereceu um emprego. Se não fosse por essa oferta, não sei onde estaria, pois não tinha para onde ir. Hoje, sou profissional de higiene, trabalho com faxineiros e pacientes no hospital. Me certifico de que o ambiente está limpo e converso com os pacientes e cuidadores sobre higiene pessoal.

Também ajudo nossa equipe de saúde mental a apoiar os sobreviventes do noma, que são exatamente como eu no passado. Eu compartilho com eles minha experiência. Eu digo a eles que eles devem ser muito fortes e que as coisas vão melhorar. Eles sabem que eu estava na situação deles antes, alguns deles até viram minha foto tirada antes das cirurgias. Mas olhe para mim agora! Enquanto houver vida, haverá esperança e, com esperança, não haverá nada que você não possa fazer.

É fácil trabalhar com meus colegas de MSF e eles me veem como parte deles. Não existe estigma. Estou muito feliz que eles tenham me aceitado na organização, é uma grande alegria para mim. Também temos outro colega no hospital, trabalhando para o MS, que é um sobrevivente do noma, Dahiru, que trabalha como faxineiro.

Os médicos do hospital Sokoto devem continuar a capacitar os pacientes e incentivá-los a voltar à escola, para que possam se tornar conscientizadores. É uma longa jornada, mas quando os pacientes voltam para a comunidade após as cirurgias, eles voltam diferentes. Quando você olha para mim, pode ver que passei por algo difícil na vida. Mas não penso mais no meu passado. Meu objetivo é inspirar as pessoas. Quero compartilhar minha história, para que todos saibam que noma é real e que existe habilidade na deficiência.”

 

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