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Confrontos violentos dificultam a oferta de cuidados de emergência em Bentiu, no Sudão do Sul

31/10/2014
Médica que atua no local fala sobre a dificuldade de tratar os pacientes em meio a tantas balas perdidas

Os confrontos violentos na região de Bentiu, no Sudão do Sul, foram intensificados nos últimos dias, prejudicando a oferta de cuidados de saúde às populações abrigadas em acampamentos estruturados pela Organização das Nações Unidas (ONU) para proteger civis. A Dra. Erna Rijnierse, que está trabalhando com a organização humanitária internacional Médicos Sem Fronteiras (MSF) no local, detalha, em depoimento a seguir, a situação no hospital.

"Até o momento, pudemos oferecer cuidados de emergência a 12 pessoas desde que os pesados confrontos tiveram início há vários dias. Estabilizamos pacientes com ferimentos à bala e ocorrências similares. Conduzimos nove intervenções cirúrgicas. Diversos pacientes chegaram em condição crítica, incluindo uma mulher grávida, que havia sido baleada no peito. Tivemos de entubá-la e, até o momento, ela e seu bebê estão estáveis. Um garoto de nove anos de idade foi baleado no peito e morreu logo que chegou ao nosso hospital.

Os últimos dias foram extremamente caóticos. É difícil movimentar-se de forma segura dentro do acampamento ou mesmo no hospital, porque há balas perdidas vindo de todas as direções. Temos visto muitas cápsulas de balas em nosso hospital. Os tiroteios podem ter início a qualquer momento, o que significa que precisaremos correr para nossa barricada de proteção subterrânea - o chamado bunker. Não sabemos ao certo o que está acontecendo do lado de fora, ou quem está no controle do quê. A atmosfera é tensa e muito imprevisível.

É difícil oferecer cuidados médicos significativos quando se está preocupado com balas perdidas, tendo de passar longos períodos em bunkers. Como médica, sinto-me impotente, muito frustrada e mesmo irritada com o fato de ouvir tiroteios pesados do lado de fora sem poder chegar àqueles que foram feridos.

No momento, fomos forçados a suspender as atividades de nossas clínicas móveis além da região controlada pelas Nações Unidas. É simplesmente muito perigoso sair do acampamento durante os confrontos. As clínicas de saúde primária dento do acampamento permaneceram fechadas nos últimos dois dias, mas esperamos que possam ser reabertas novamente a partir de hoje.

A equipe de promoção de saúde suspendeu atividades por um dia, mas na manhã seguinte estavam ali, prontos para espalhar as mensagens de saúde pelo acampamento. Temos um caso positivo confirmado de hepatite E no campo, então, é essencial que a equipe continue disseminando mensagens sobre a importância de se lavar as mãos e encaminhar pessoas doentes para o nosso hospital.

Nós pudemos continuar trabalhando no hospital e pretendemos fazer isso pelo tempo que a questão de segurança permitir. Atualmente, estamos com 40 pacientes, 15 dos quais são crianças."

Equipes de MSF estão oferecendo cuidados de saúde a dezenas de milhares de pessoas abrigadas no campo de proteção a civis da ONU próximo de Bentiu, cidade do estado sul-sudanês de Unity, uma das regiões mais afetadas pelo conflito. No momento, MSF administra um hospital no acampamento com maternidade e alas de pediatria e tratamento de tuberculose. Há também um departamento de emergência e cirurgia. Do lado de fora do acampamento, MSF opera clínicas móveis duas vezes por semanas, na própria cidade de Bentiu.
 

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