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Como estamos melhorando os cuidados de saúde da mulher na RDC

25/06/2019
A obstetriz Claire Harper fala sobre o impacto devastador que a violência sexual pode ter sobre as pacientes de MSF em Walikale
Como estamos melhorando os cuidados de saúde da mulher na RDC

Foto: John Wessels

Este mês foi encerrado por conversas profundas sobre assuntos pesados.

Há um mês, participei de um treinamento sobre violência sexual e de gênero. Ontem, concluí um workshop sobre aborto.

Saí refletindo sobre o quão inspirador eu acho o compromisso de MSF em oferecer assistência abrangente à saúde em ambientes com poucos recursos, mesmo que esse cuidado exija um trabalho emocional pesado da parte de nossa equipe.

"Não é um problema"

Em quatro meses como supervisora de atividades de saúde reprodutiva em Walikale, na República Democrática do Congo (RDC), ouvi histórias de muitos sobreviventes que atendemos que sofreram traumas e violência sexual.

Walikale não é uma área de conflito ativo como muitas outras cidades da província. A violência sexual está tão fortemente associada ao conflito armado no Kivu do Norte que a relativa paz em nossa comunidade levou algumas vozes a afirmar que a violência sexual não é um problema aqui.

As sobreviventes em Tumaini, nossa clínica que oferece serviços de saúde mental e reprodutiva, dirão o contrário.

Aprisionada

Uma jovem de cerca de 13 anos estava indo para o campo com a mãe quando foi abordada por um homem idoso com uma arma, que mandou a mãe voltar para o vilarejo. Quando a mãe protestou, ele a ameaçou até ela ir embora. Depois, o homem manteve a jovem aprisionada por mais de um dia.

Ela conseguiu escapar quando o homem foi procurar comida. A essa altura, sua mãe já havia notificado a comunidade, eles estavam procurando por ela e ela recebeu cuidados imediatamente.

Esse não é o caso de muitas mulheres.

Altos riscos

Conheci outra mulher cujo marido a forçou a retirar seu implante contraceptivo.

A mulher teve o implante colocado após seu quinto filho e sua segunda cesariana de alto risco. Inicialmente, seu marido a apoiou, mas, depois de três anos, ele decidiu que queria mais filhos.

A mulher falou claramente que não queria mais filhos, mas sua família a assediou por não continuar reproduzindo.

Seu marido começou a ter filhos com outras mulheres.  

Corpo e mente

Esses casos não têm apenas impactos psicológicos, mas também físicos.

A violência sexual pode expor as mulheres a infecções, HIV e gravidez indesejada. Todas essas coisas podem ser evitadas se a sobrevivente receber cuidados dentro de três dias após o evento. Mesmo após os três primeiros dias, estamos aqui para oferecer tratamento e apoio médicos.

Para a menina do primeiro caso, pudemos dar a contracepção de emergência, a profilaxia pós-exposição ao HIV, antibióticos para prevenir gonorreia, clamídia e sífilis, além de controlar a dor e conectá-la à nossa equipe de saúde mental.

Também aplicamos vacinas para protegê-la da hepatite B e do tétano. Esperamos que ela faça o acompanhamento em uma semana, um mês e três meses para continuar seus cuidados médicos.

Violência sexual em casa

O caso da segunda mulher abriu uma conversa com nossa equipe sobre as ramificações da violência praticada por parceiros íntimos.

A obstetriz do centro de saúde me disse que achava que as necessidades das mulheres seriam respondidas principalmente pela nossa equipe de saúde mental. Essa paciente certamente precisava de aconselhamento, mas sua situação familiar também a expunha a muitos dos problemas médicos aos quais as mulheres enfrentam depois de outros tipos de violência sexual.

Ela tinha sintomas de doenças sexualmente transmissíveis (DSTs), as quais seu marido se recusou a receber tratamento, e ela ainda estava em risco de uma gravidez indesejada.

Assim como no primeiro caso, tratamos sua dor e o risco de infecção.

Nós a testamos para HIV e sífilis e oferecemos métodos contraceptivos. Quando ela recusou a contracepção, nós a deixamos ciente de que nossa clínica estava sempre pronta para lhe fornecer contracepção de emergência se ela precisasse.

Como essa paciente não estava planejando deixar o marido, informamos que também estávamos lá para fazer testes regulares de DST e oferecer cuidados de saúde mental.

Fazendo mais

Quando estou quieta e apenas ouço nossos profissionais e pacientes congoleses, fico impressionada com as histórias que ouço. As necessidades estão presentes e claras.

Após o treinamento sobre violência sexual e de gênero, meu projeto está dando maior ênfase às atividades que atendam às necessidades de sobreviventes e pessoas que correm risco de sofrer esse tipo de violência.

Oferecemos espaços privados e confidenciais para os sobreviventes receberem cuidados de saúde física e mental e estamos trabalhando para aumentar a conscientização sobre todos os tipos de violência sexual na comunidade, especialmente a violência sexual cometida contra homens.

Dez de nós do projeto Walikale participaram do treinamento, e foi a maior parte de nossas primeiras experiências com um treinamento sobre o assunto. Um dos outros participantes me disse várias vezes como ele estava feliz por estar lá.

Será um esforço interdepartamental para melhor atender às necessidades da nossa comunidade, envolvendo nossas equipes de saúde reprodutiva, saúde mental, promoção de saúde e equipes de sensibilização.

É muito empolgante estar envolvida nesse projeto, sobretudo com a equipe motivada que temos em Walikale.

“EVA”

Em conversas sobre violência sexual, falamos muito sobre a prevenção de gravidez indesejada.

Tenho muito orgulho de estar trabalhando para uma organização que leva a sério todos os aspectos da assistência à saúde reprodutiva, incluindo aborto seguro.

No final de abril, voltei a Goma, a capital da província do Kivu do Norte, para participar de uma oficina conduzida por outros colegas de MSF. O objetivo do workshop era uma Avaliação de Valores e Atitudes (EVA, na sigla em inglês) em torno do aborto.

Após o “EVA”, participei de conversas com um grupo de trabalho de nossa sede em Amsterdã e com outros projetos de MSF no Kivu do Norte e do Sul sobre aborto seguro.

Como no treinamento sobre violência sexual e de gênero, eu era uma das poucas profissionais internacionais que participavam de um grupo de profissionais predominantemente congoleses de MSF.

Fiquei impressionada com a forma como as conversas aqui são semelhantes às conversas nos EUA.

Experiência em primeira mão

O aborto seguro na RDC recentemente tornou-se mais acessível em circunstâncias específicas, como estupro, incesto ou ameaças à saúde mental ou física da mãe.

Esta mudança entrou em vigor desde que a RDC assinou o Protocolo de Maputo, um documento que visa garantir os direitos das mulheres em toda a União Africana. Apesar da ampliação do acesso ao aborto seguro, a prática continua altamente estigmatizada.

Ouvi os mesmos argumentos contra o aborto que ouvi tantas vezes antes nos EUA, incluindo que a vida começa na concepção e que as mulheres devem “assumir a responsabilidade por suas ações”.

Por outro lado, houve quem aceitasse a ideia nos projetos, o que também me lembrou de diferenças locais em todo os EUA.

Mas houve uma diferença impressionante: aqui, entre aqueles que apoiam a oferta de abortos seguros e com assistência médica, quase todos viram em primeira mão o impacto negativo de abortos inseguros.

Depoimento

Vários dos nossos prestadores de serviços médicos congoleses deram depoimentos em nome de pacientes a quem foram negadas interrupções médicas da gravidez e retornaram dias depois com complicações graves causadas por abortos inseguros.

Estima-se que 30% das mortes maternas na RDC sejam devido a abortos inseguros. Há uma urgência em fornecer este atendimento médico simples e seguro aqui que eu não havia vivenciado antes. As mulheres morrem quando não oferecemos cuidados a elas. 

Antes de participar do workshop, temia sentir como se estivesse impondo meus valores aos colegas congoleses pela minha participação. Acabei não falando muito, porque todos os argumentos que eu poderia ter feito foram expressos de forma mais eloquente pelos outros participantes.

Simples e seguro

Honestamente, oferecer assistência ao aborto pode ser incrivelmente triste. Fico triste porque é uma decisão que as mulheres têm que tomar e pode ser difícil deixar preconceitos e julgamentos pessoais de lado.

No entanto, tenho orgulho do fato de estarmos oferecendo este serviço às mulheres.

Também estou orgulhosa da forma como prestamos esse cuidado, porque oferecemos serviços de saúde mental e cuidados contraceptivos juntamente com a interrupção da gravidez.

Nós não nos envolvemos em atividades de promoção de saúde sobre interrupção da gravidez, então, estamos realmente apenas respondendo aos pedidos de nossos pacientes por uma intervenção simples e segura.

No fim, eu não sou capaz de decidir por outra pessoa o que é certo para ela ou para sua família, mas, se ela quiser, posso oferecer bons cuidados médicos.

Trabalho emocionalmente pesado

Com base neste artigo, você pode pensar que eu gasto todo o meu tempo trabalhando nesses dois problemas. Não se preocupe, os cuidados maternos e de neonatologia ainda são uma grande parte do meu trabalho. Eu fico na nossa maternidade de 4 a 5 dias por semana.

Dito isto, integrar a violência sexual e de gênero e o término da gravidez no  pacote abrangente de cuidados de saúde reprodutiva que oferecemos no projeto Walikale tem sido um trabalho de amor para mim.

As obtetrizes que supervisiono cresceram muito graças à sua formação neste cuidado. Esses assuntos são frequentemente negligenciados por obstetrizes ocupadas cuidando de mulheres de outras maneiras, mas elas fazem uma diferença tão grande para nossas pacientes.

Significa "esperança"

Embora seja um trabalho emocionalmente pesado, é incrivelmente gratificante facilitar esse atendimento holístico em um contexto de poucos recursos.

Nomeamos nossa clínica de serviços de saúde reprodutiva confidencial e de saúde mental de "tumaini", que significa "esperança" em suaíli.

Certamente, ela oferece esperança às nossas pacientes e à comunidade.

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